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Política

O Brasil do boteco e o Brasil dos especialistas

Há dois brasis: o da realidade e o da imprensa e das universidades

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Jacqueline Muniz, especialista em segurança pública ouvida pela Globo sobre a Operação Contenção, no Rio | Foto: Reprodução/Redes sociais

G. K. Chesterton pode ser chamado, sem exagero algum, de “cavaleiro do senso comum”. Foi em sua tríade intelectual máxima — Hereges, Ortodoxia e O Homem Eterno — que elaborou aquilo que pode ser considerado como seu “pensamento sistemático e maduro”. Lá, o apologeta britânico defendeu, entre outras coisas, uma harmonia de ideias que transpassa não só o transcendente — vertical, mas também o imanente — horizontal.

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Para o ensaísta inglês e católico convertido, há uma sintonia fina entre a consciência moral e prática dos homens comuns e as máximas de ordem teológica; nem sempre são harmônicas e claras, mas encontram-se presentes se analisadas com observação arguta. Quando defendi meu trabalho de conclusão de curso na faculdade, argumentei que para Chesterton a razão humana é uma espécie de elástico que toca a borda que divide o mundo natural e o sobrenatural, e se é bem verdade que ela não consegue invadir o terreno da fé, consegue com sua luz chegar plenamente à consciência de sua existência. Para ele, esse conhecimento racional expansivo, mais do que no atomismo científico e acadêmico, está antes na observação e no conjunto de costumes de uma civilização madura e virtuosa.

Pois bem, mas por que toda essa introdução filosófica? Simplesmente para mostrar que para muitos, e aqui, em especial, para Chesterton, há uma sabedoria, uma luz segura que clareia a mente humana e forja nela costumes, hábitos e, se quiserem tacar glitter, uma epistemologia própria do sensus hominis. É impossível não notar, em especial no Brasil, a existência de uma salutar e pulverizada desconfiança do homem comum quanto às narrativas oficiais. Disso nasce uma mistura de desdém e cansaço quando se escuta dizer no rádio, por exemplo, “especialista em segurança pública”, ou na TV “apuração jornalística”. Pode-se dizer que, aqui, aquela consciência compartilhada, aquele juízo que se forma de maneira espontânea e descentralizada — ainda que reforçada por setores e pessoas que a defendem — desconfia e se afasta de quase tudo que governos, especialistas e outras oficialidades chancelam.

Pergunte à esperta e informada dona Neuza o que ela pensa da COP30, e logo verá a distância entre a análise que a mídia oficial defende e a percepção sincera daquela mulher. Pergunte ao seu Antônio do Morro do Alemão — garantindo-lhe o anonimato, é claro — o que ele pensa que deve ser feito nos morros do Rio de Janeiro. Verá que ele quase literalmente caga para as teses e disruptivas sugestões de doutoras em segurança pública. O que se argumenta é que ambas as classes tentam defender seus entendimentos, mas aí vem a questão, o divisor tomista de tudo: quem está sobre o chão da realidade(?), ou melhor, da verdade?

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Obviamente que aqui podemos ter duas reações extremas. A primeira é acatar ampla e irrestritamente as ideias do homem comum, sem dedicar certa dose de crítica e correção a conclusões sem comprovações; a segunda é defender a priori uma análise ou definição somente porque está chancelada em papel timbrado e assinado com “PhD” ou sustentada pelo crachá de uma grande emissora. Acredito sempre que certa dose de ceticismo, aliado a determinada coragem em não se curvar sem analisar com sinceridade qualquer coisa que seja, gesta na sociedade homens maduros e, por isso, independentes. Não se deixar levar pelos reptilianos nem por mulheres de cabelo azul, eis um desafio árduo em nossos dias.

Dito isso, porém, devo notar que, se há sensatez hoje no debate público, ela se encontra mais em bares, sacristias e churrascos de tiozões do que em centros acadêmicos, redações e jantares seletos na Avenida Paulista. Venho encontrando mais ponderação e reto juízo nos discursos de senso comum das tias do zap do que em aulas da USP. E sem nenhum pedantismo, quando o assunto é reconhecer a realidade, o colóquio da dona Márcia, faxineira, enquanto conversa com suas comadres, vale infinitamente mais que o da Dra. Marilena, arquiteta de utopias e revoluções em salas de marfim. Escute as opiniões das donas Márcias que nos cercam: elas vivem na realidade, dependem do trabalho real, vivem o medo real e fazem observações concretas a respeito do mundo real; isso somado já vale mais do que um milhão de teses frondosas e igualmente mentirosas que um batalhão de especialistas ideologizados poderá um dia produzir.

A distância moral entre o senso comum e as oficialidades só aumenta, e enquanto os agentes dos discursos permitidos se escondem atrás de afagos poderosos, dinheiros estranhos e soberbas de crachás, o homem comum, cansado de ser tratado como ignorante e acientífico, se rebela em seus feudos contra as castas dos “peritos de qualquer coisa”. As conclusões e ideias “especialísticas” jaz nas ruas e botecos do país sob uma crosta de desconfiança e troça.

Disso, inevitavelmente, surgem dois brasis: aquele que os olhos veem e os dedos tocam pelo senso comum popular, e o Brasil contornado por autoridades de CNPq à mostra e títulos gourmets em GCs de Breaking News de horário nobre.

Leia também: A vez da segurança pública, reportagem de Silvio Navarro publicada na Edição 297 da Revista Oeste

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2 comentários
  1. ELIAS
    ELIAS

    Na verdade, a velha imprensa prossegue em um mergulho de profundo descrédito na medida em que tenta dar ares de seriedade e comprometimento com a verdade se socorrendo desses assim chamados “especialistas” em tudo.
    Ninguém dá bola pra isso.
    Abordagem perfeita nesse artigo.

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