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Política

O apagão moral da esquerda

O que explicaria a organização célere desse espectro político em defender leis menos punitivas para narcoterroristas?

O presidente Lula, durante a cerimônia de posse da advogada Verônica Adballa Sterman no cargo de ministra do STM - 30/09/2025 | Foto: Mateus Bonomi/Estadão Conteúdo
O presidente Lula, durante a cerimônia de posse da advogada Verônica Adballa Sterman no cargo de ministra do STM — 30/9/2025 | Foto: Mateus Bonomi/Estadão Conteúdo

Existe uma espécie bizarra de apagão moral na esquerda brasileira quando o assunto é crime organizado. Há uma negação absurda em notar como o país está a caminho de uma rendição vergonhosa. Esse assunto, aliás, devia ser um dos poucos a unir os dois polos ideológicos. Afinal, quando o banditismo se torna exército, busca instaurar o terror, tornar o tráfico onipresente e dominar territórios, sua cor partidária definitivamente não servirá de escudo para o avanço dos neoterroristas.

Nesta semana, vimos uma das líderes do governo Lula, Gleisi Hoffmann, vir a público dizer que o governo petista é “terminantemente contra” classificar o Comando Vermelho (CV) como terrorista. Isso ocorreu a menos de uma semana da cena de guerra que assistimos no Rio de Janeiro, onde a maior organização criminosa do Estado utilizou drones para lançar bombas incendiárias sobre policiais e civis. Para quem não é tão antenado nas questões de guerra, algo muito parecido ocorre hoje na guerra da Ucrânia, em que ambos os exércitos se utilizam de drones como tática de ataque e sabotagem. A diferença? O Brasil supostamente não está em guerra.

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Mas os drones são apenas mais um capítulo desse bolo de absurdos. Sabe-se que o CV se utilizou, literalmente, de táticas ministradas por um ex-militar da Marinha brasileira. Os narcoterroristas têm armas de guerra de mais de sete nacionalidades diferentes; já se viram, inclusive, armas antitanque e antiaeronave. Atualmente, o CV não investe apenas no narcotráfico: está tomando territórios, expulsando moradores e também o próprio Estado, que, acuado pela força militar dos bandidos — e pela fraquíssima retaguarda jurídica, além dos corvos ideológicos que se empoleiram em gritarias quando o Estado age —, vê-se cercado em trincheiras políticas por todos os lados.

Não é absurdo imaginar que organizações como o CV e o Primeiro Comando da Capital (PCC) possam ter amigos em Brasília. Isso já me parece ter saído do campo da especulação conspiratória; parece antes uma daquelas miragens que, de súbito, se materializam ante nossos olhos para deixar claro que o que víamos de forma esfumaçada não era loucura. A população se questiona: o que explicaria a organização célere da esquerda em defender leis menos punitivas para esses narcoterroristas? O que justifica a celeridade político-jurídica em pressionar Cláudio Castro — inclusive ameaçar cassá-lo — logo após a operação amplamente fundamentada, do ponto de vista jurídico, e apoiada pela população no complexo dominado pelo CV? O que explica a dificuldade moral da esquerda em responsabilizar claramente uma organização que trafica, mata, tortura e sitia territórios dentro do país?

cláudio castro
O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, durante coletiva de imprensa | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Vocês hão de concordar que a explicação mais razoável para o homem comum é a de que há amigos dessa organização espalhados pela capital. E aqui não quero transmitir isso como convicção própria ou coisa do tipo — é a sensação das ruas e bares, das conversas nas mesas de jantar. Não há confirmação oficial disso, e deve-se sempre guardar prudência em condenações sem provas efetivas. Mas as suspeitas — como aquelas miragens que citei acima — não esperam as certezas documentais. E o que eleva isso ao grau de senso comum hoje no país? Obviamente, a ambiguidade do governo, a malemolência moral que só existe nas classes políticas ou politizadas da esquerda, a tentativa de justificar o injustificável, que vai da vitimização do traficante ante o dependente às cansativas soluções alternativas de “render” os traficantes com ações socioculturais teorizadas nas torres de marfim das universidades.

Logo após a incursão policial, várias pesquisas mostraram que a população, em massa — seja no Brasil como um todo ou, especificamente, no Rio de Janeiro —, apoiava os policiais e a decisão do governador carioca. O apagão moral travestido de amor humanitário está apenas no colo da esquerda, e isso gera especulações sérias e dá mais definição às “miragens”. Parece que só a Gleisi não entendeu isso.

Desde o começo do atual governo, a esquerda, sem dúvida, enfrenta sua maior crise perante a opinião pública. Está claro qual é o calcanhar de Aquiles do socialismo brasileiro — e não são mais apenas as questões econômicas e a corrupção, mas também, e talvez de forma mais grave, a segurança pública. O engasgo em condenar o que, para o homem comum, é tão óbvio de ser condenado é a marca do socialismo latino-americano contemporâneo. Ao mesmo tempo que a esquerda se afasta do homem comum, do trabalhador e das famílias, aproxima-se claramente das turbas identitárias e das ideias relativistas no campo da segurança.

Rio de Janeiro, durante operação contra o Comando Vermelho, em 28/10/2025 | Foto: Reprodução/Redes sociais
Rio de Janeiro, durante operação contra o Comando Vermelho, em 28/10/2025 | Foto: Reprodução/Redes sociais

Nunca a esquerda brasileira esteve tão moralmente longe do povo. Lula é hoje uma mistura de esquerda forçosamente reinventada — sem espinha moral — e uma persona gagá, munida de uma cansativa e já batida retórica sindical. No cantão de seus especialistas, os doutos sociólogos chegam a bufar de raiva quando a polícia mata os soldados do crime e, como solução acadêmica ante um exército de traficantes armados com drones de guerra e lança-mísseis, oferecem o arremesso de pedras e disparos de teses de doutorado. O povo olha isso e se afasta, tal como nos afastaríamos de um louco em ataque de histeria.

Aos amigos comunistas, notem que esse nó na garganta em condenar o claramente condenável pode até mesmo parecer um apoio deliberado. E vale sempre lembrar que Doca, o segundo chefe maior do CV — um dos motivos da ação policial da semana passada —, ficou nove anos preso até ser liberado em 2016; e Débora Rodrigues, que passou batom em uma estátua, pegou 14 anos. Adivinhem quem não teve engasgo ou dúvida em condená-la publicamente? Como eu disse: o que parecia conspiração, o que era miragem… hoje…

Leia também: “Insegurança nacional”, reportagem publicada na Edição 295 da Revista Oeste

3 comentários
  1. Robinson dos Santos Pereira
    Robinson dos Santos Pereira

    Luciano Huck sofre pelas mães dos criminosos mortos no confronto com a polícia. Mas o que merecem as mães dos milhares de criminosos que morrem no confronto com criminosos? A guerra constante por territórios, por bocas de fumo, por drogas e etc é a maior causa de assassinatos no país. E de desaparecimentos. Mortos nos microondas que não sejam famosos como Tim Lopes entram nas estatísticas de desaparecidos. E esses assassinatos resultantes dos confrontos entre as facções sao exatamente as causas do tal genocidio de jovens negros no Brasil. Mas a esquerda tenta fingir que as causas dessas mortes são outras. Estao ha anos pegando o Mapa da Violencia e tentando impor essa narrativa. Não convence mais. Somente quem resume a consulta à crônica policial às mega operacoes policiais não ve as dezenas de mortes em lutas de gangues no Brasil. E são mortes com requintes de sadismo, mostradas em vídeos em que os soldados do trafico esquartejam seus oponentes ou disparam rajadas para destroçar corpos humanos enquanto algum maniaco grita, com o celular apontado para a cena: “da, da, da, destroça a cara dele”. Quem ainda não viu isso ainda chama esses bandidos de meninos.

    1. Robinson dos Santos Pereira
      Robinson dos Santos Pereira

      Dezenas de mortes diárias na maioria dos estados do país. *

  2. FLAVIO AUGUSTO ROSSI
    FLAVIO AUGUSTO ROSSI

    Para quem se orgulha até hoje de nunca ter lido um livro… e não ter ido pra escola por preguiça…

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