O deputado estadual Guto Zacarias (União-SP) afirmou ter sido alvo de uma ameaça de morte acompanhada de ofensas racistas, recebida por e-mail em seu gabinete oficial. O relato foi feito pelo próprio parlamentar em publicação nesta quarta-feira, 21, na qual ele informou que já acionou o Ministério Público e a Polícia Civil.
De acordo com o material divulgado, a mensagem foi enviada na noite da última quinta-feira, 15, com o assunto “Seu sangue vai escorrer como óleo de motor velho”. O remetente se identifica como “Ordem Secreta dos Primadistas”.
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No corpo do e-mail, o autor dirige-se diretamente ao parlamentar e começa o texto com ofensas raciais e ameaças. Em um dos trechos, escreve: “Seu preto fedido de merda, você acha que pode continuar se pavoneando por aí como se fosse um ser humano decente?”. Em seguida, a mensagem afirma: “Você é nada mais que um parasita racial, um erro da evolução que precisa ser erradicado de uma vez por todas”.
O conteúdo inclui a descrição detalhada de violência física e ameaça de morte, e menciona o gabinete de Zacarias como local do suposto ataque: “Primeiro, vou te pegar no seu próprio escritório, aquele buraco imundo que você chama de gabinete”. Em outro trecho, afirma: “Vou te amarrar você a uma mesa com arames farpados”.
Ao longo do texto, o autor utiliza expressões racistas reiteradas e descreve atos de tortura e assassinato, além de afirmar que pretende registrar e divulgar as imagens. A mensagem termina com nova ameaça direta: “Vou me certificar de que sua morte seja lenta, dolorosa e profundamente humilhante”.
O deputado declarou que não se sente intimidado pela ameaça e que o episódio não vai alterar sua atuação política. “Não será uma mensagem escrita por um psicopata covarde e anônimo, ainda que escabrosa, que me intimidará e me desviará de meu propósito”, afirmou Zacarias. “Não tenho medo, mas não tolero ameaças a mim, minha família e meus colegas de trabalho.”
Quem foram os primadistas, a “Ku Klux Klan gaúcha” que teria ameaçado Guto Zacarias
A Ordem Secreta dos Primadistas foi uma organização supremacista que atuou no Rio Grande do Sul principalmente no fim da década de 1950 e começo dos anos 1960. O grupo ganhou projeção pública depois de uma tentativa de invasão armada aos estúdios da Rádio Farroupilha, em Porto Alegre, em janeiro de 1962.
De acordo com o Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul, naquela noite um grupo de homens encapuzados e armados tentou ocupar os estúdios da rádio com o objetivo de interromper as transmissões para a leitura de um manifesto com “mensagem anti-comunista”, descrita por um dos acusados como um ato de “propósito patriótico”. A ação foi frustrada pela intervenção de um guarda rodoviário que estava no local.
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A base ideológica do grupo era o chamado “primadismo”, doutrina criada pelo professor Waldomiro Ramos Pacheco e difundida principalmente por meio de uma revista própria. Em artigo, o pesquisador Raphael Alberti Nóbrega de Oliveira destaca que o primadismo se apresentava como uma doutrina filosófico-científica, política e social voltada ao “aperfeiçoamento” da humanidade, e defendia, entre outros pontos, a “intervenção na codificação hereditária para normalizar os genes defectivos” e a “reforma econômico-social”.
A caracterização dos primadistas como a “Ku Klux Klan gaúcha” decorre de suas práticas e rituais. Conforme levantamento feito por Oliveira a partir de reportagens dos jornais Correio da Manhã e do Diário de Notícias, os integrantes realizavam cerimônias com juramentos, uso de capuzes e símbolos próprios, “à moda da Ku Klux Klan”, além de manterem uma estrutura secreta e hierarquizada. Apenas alguns membros tinham autorização para usar os capuzes negros, reservados a rituais de iniciação e reuniões específicas.
Leia também: “O racismo por outros meios”, artigo de Flávio Gordon publicado na Edição 255 da Revista Oeste








































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