Há uma pergunta que insiste em ecoar, mesmo quando muitos preferem o silêncio: por que ainda aceitamos, com tanta naturalidade, que a política brasileira seja ocupada pelos mesmos sobrenomes, geração após geração?
Interpretar a sucessão familiar na política como algo natural — ou como uma espécie de legitimidade divina atribuída ao patriarca para escolher seus sucessores — não é coincidência histórica nem prática exclusiva de Alagoas. Mais do que isso, trata-se de uma distorção da democracia, de um entrave ao desenvolvimento e de uma afronta direta ao princípio da igualdade de oportunidades.
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Estudos na área da sociologia política, a exemplo da pesquisa realizada por Cosma Ribeiro de Almeida, mostram que a presença de famílias na política brasileira não é um fenômeno recente nem pontual. Ao contrário, trata-se de uma continuidade histórica que atravessa séculos, adaptando-se às mudanças sociais sem perder sua essência.
Ao resgatar estudos sobre esta conduta em Alagoas, Santos mostra que, ao analisar esse fenômeno, percebe-se que não se trata apenas de narrar a história política, mas de entender como as elites que ocupam posições de mando moldam o funcionamento real do sistema.
Segundo essas análises acadêmicas, há um verdadeiro “capital político familiar” que é transmitido ao longo das gerações. Esse capital inclui prestígio, redes de influência, acesso a recursos e, principalmente, reconhecimento simbólico junto do eleitorado. Esse modelo cria uma confusão perigosa entre o público e o privado. A política deixa de ser um espaço de representação coletiva e passa a funcionar como extensão de interesses familiares.
E assim, o eleitor, muitas vezes sem perceber, passa a votar não em projetos, mas em heranças. A democracia, em sua essência, pressupõe igualdade de condições na disputa pelo poder. O ponto é que, quando o acesso ao poder se concentra nas mesmas famílias, de forma contínua, a disputa deixa de ser equilibrada e a democracia perde força.
Os males da perpetuação familiar
A perpetuação familiar na política reduz a renovação de ideias, limita a entrada de novas lideranças e enfraquece a representatividade real da população. Mais grave ainda: cria-se a falsa sensação de que política é algo reservado a poucos — quase um “direito hereditário”.
Aceitar essa lógica tem consequências profundas. Primeiro, porque bloqueia o surgimento de lideranças preparadas, comprometidas e conectadas com a realidade da população. Pessoas com experiência, capacidade técnica e vontade de servir acabam ficando à margem, enquanto o poder circula entre os mesmos grupos.
Segundo, porque enfraquece a fiscalização. Quando o poder se concentra em famílias, cria-se uma rede de proteção mútua, onde interesses se sobrepõem ao bem público.
Terceiro, porque compromete o desenvolvimento. Uma política fechada, repetitiva e baseada em vínculos familiares tende a ser menos inovadora, menos eficiente e menos sensível às reais necessidades da população.
Talvez o maior problema não seja a existência dessas dinastias políticas, mas a forma como a sociedade as aceita. Naturalizamos. Justificamos. Reproduzimos. E, ao fazer isso, abrimos mão de algo essencial: o direito de escolher com liberdade e consciência.
O fim do patrimonialismo
Como mostram os estudos sobre grupos políticos tradicionais — como os Sarney, no Maranhão, os Calheiros, em Alagoas, e os Magalhães, na Bahia —, existe no Brasil uma tendência histórica de atribuir à família um papel central na organização social e política. Isso ajuda a perpetuar estruturas de poder ao longo do tempo. Mas aquilo que é histórico não precisa ser permanente.
Romper com essa lógica exige coragem — tanto de quem entra na política quanto de quem vota. Exige que passemos a valorizar mais a trajetória do que o sobrenome. Mais a competência do que a tradição. Não estou falando de pessoas, nem desqualificando trajetórias individuais. O que está em discussão é um modelo de funcionamento — uma lógica de poder que se repete, se fecha e acaba limitando a renovação, enfraquecendo a competição justa e, na prática, restringindo a própria democracia.
Um modelo que não representa o Brasil real. Um modelo que não atende às necessidades da população. Um modelo que insiste em se manter, mesmo quando já demonstrou seus limites.
A mudança começa na base — na consciência de cada cidadão. Quando entendermos que política não é herança, mas responsabilidade. Quando deixarmos de aceitar o “sempre foi assim”. Quando tivermos coragem de escolher o novo, o preparado e o comprometido. Nesse dia, começaremos, de fato, a viver uma democracia plena. Até lá, seguimos com uma pergunta que precisa incomodar: até quando vamos aceitar que o poder, que deveria ser do povo, continue sendo tratado como patrimônio de família?
+ Entenda o que é Política em Oeste
Carolina Beltrão é administradora, assistente social e pedagoga. Doutora em serviço social e mestre em meio ambiente. Gestora pública e professora universitária. Carolina é fellow do Instituto Amplifica.






































Parabens!!! faz tempo que o @kimpaim vem mostrando isso, é só ter um pouco de boa vontade e ver o Atlas Brasileiro!!!
Excelente artigo.