Jeferson Scheibler*
No cenário político atual, onde a “imparcialidade” virou uma máscara para interesses ocultos, é preciso coragem para admitir de onde se fala e, acima de tudo, o que se pretende esculpir.
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Em uma formação recente, o jornalista Duda Teixeira resgatou uma metáfora que redefine o ato de escrever: Michelangelo diante do mármore. Para o mestre, o “Davi” já habitava o bloco; o trabalho era apenas remover o excesso para revelá-lo.
No jornalismo, a lógica deveria ser a mesma. Esculpir o fato é retirar dele a gordura da manipulação, o ataque gratuito e a militância que se fantasia de notícia. Quando retiramos esses excessos, o que resta é a verdade nua. E, como alguém envolvido na vida partidária, reconheço: essa verdade muitas vezes fala mais alto do que nós, autores filiados, gostaríamos que o público ouvisse. Mas é esse o preço da escultura.
O que vemos hoje na nossa cidade, porém, é o oposto. Em vez de escultura, recebemos entulho. Somos bombardeados por blocos brutos de informação que, sob o selo de uma “imparcialidade” de fachada, empilham camadas de viés político para soterrar a realidade. Se a arte é o que se retira, o que sobra de uma notícia quando o autor esconde quem é e para quem trabalha?
O grande truque dessas páginas é usar a palavra imparcialidade como escudo, e não como compromisso. No jornalismo sério, a isenção absoluta é um mito: todos carregamos bagagens e vivências. Por isso a transparência não é virtude, é obrigação. Assinar um texto com nome, histórico e, até mesmo, filiação partidária não é gesto de humildade. É o mínimo que se deve a quem lê. Ao contrário das páginas anônimas, essa postura não foge do ceticismo do leitor. O convida.
Quando uma página se recusa a dizer quem segura o cinzel, ela desarma o cidadão e retira dele sua ferramenta mais básica de defesa: o filtro. Digo isso de forma clara: se você sabe que eu tenho um lado, você tem o direito de ler minhas críticas com uma dose saudável de ceticismo. Afinal, sem essa clareza, o autor não está “esculpindo a verdade”, mas apenas tentando moldar a opinião pública para um fim eleitoral bem específico.
Criticar qualquer gestão pública não é apenas um direito. É o dever de qualquer imprensa livre e de qualquer cidadão comprometido com o bem comum. Mas há um abismo entre a crítica que aponta o erro para que seja corrigido e a munição que aponta o erro para que o adversário seja destruído. Sem rosto e sem vínculos declarados, a informação vira um cavalo de Tróia: veste a roupa do interesse público, mas carrega uma agenda que o leitor jamais consentiu em consumir.
O sucesso desses perfis revela um sintoma amargo: nossa sede por ataques diretos muitas vezes atropela nossa paciência para a verificação. Aceitamos o “mármore bruto” porque ele confirma nossos preconceitos. Mas o preço é alto. Ao aceitarmos militantes disfarçados de cronistas, aceitamos que a verdade seja negociada por conveniências partidárias. O “Davi” que sobra no final não é a realidade dos fatos, mas uma caricatura distorcida, esculpida para ganhar eleições e não para construir uma cidade melhor.
Leia também: “A fraude dos justiceiros”, artigo publicado na Edição 321 da Revista Oeste
*Jeferson Scheibler é acadêmico de engenharia de software, embaixador da ICSC e local lead do Nasa Space Apps. Jeferson é fellow do Instituto Amplifica








































No dia que o jornalismo deixou de ser neutro, para mim ele acabou – ainda bem temos a internet – ha pelo menos 20 anos nao assisto mais tv
E x c e l e n t e!
⁸acho que o articuliste “veste” a escrita em floreado pomposo enquanto a realidade pede clareza e objetividade