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Política

Apagão em SP: o que pode acontecer com a Enel; entenda

Pressionada por não resolver os problemas de falta de energia elétrica na Região Metropolitana de São Paulo, multinacional italiana pode perder concessão e, ainda, arcar com processos indenizatórios milionários

Sede da filial brasileira da Enel, em São Paulo (SP): rápida pressão política por rompimento de contrato esbarra na complexa legislação que sugere um longo rito processual | Foto: Enel/Divulgação
Sede da filial brasileira da Enel, na zona sul da cidade de São Paulo: rápida pressão política por rompimento de contrato esbarra na complexa legislação que sugere um longo rito processual | Foto: Enel/Divulgação

A Entidade Nacional de Eletricidade, mais conhecida no Brasil como Enel, corre o risco de perder seu contrato de concessão para o fornecimento de energia elétrica em parte do Estado de São Paulo.

Mais do que isso, a ex-estatal italiana está ameaçada de ter que responder a ações indenizatórias milionárias na Justiça em razão, principalmente, da incapacidade de solucionar a crise de abastecimento no maior núcleo econômico e populacional do país.

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Enel: apagão compromete milhares de empresas

Depois de um temporal na sexta-feira, 11, pelo menos 2 milhões de pessoas ficaram sem energia elétrica na cidade de São Paulo e em municípios vizinhos. O apagão que se estendia até quarta-feira, 16, compromete a iluminação de residências e afeta empresas dependentes de equipamentos e sistemas de telecomunicação.

Nesse contexto de caos, a Enel vem sendo fortemente pressionada por políticos de todos os lados. Se de um lado a sua lentidão aprofunda o desconforto, de outro, esgota, cada vez mais, a paciência das autoridades públicas.

Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o prefeito Ricardo Nunes (MDB): ambos querem a Enel fora do Estado | Foto: Isadora de Leão Moreira/Governo SP

Em meio a esse inferno astral, a Enel vive às voltas com pelo menos duas possibilidades. A primeira é a chamada caducidade, que é a extinção de direitos por não cumprimento de dever em um determinado período de tempo.

A segunda é a encampação, que é o rompimento unilateral do contrato. Assim, a empresa pode ser obrigada a vender a sua concessão. Isso ocorreu com a própria Enel, em 2022, no Estado de Goiás. 

Concessionária de energia elétrica recrutou dezenas de funcionários de outros Estados para apoiar o trabalho de recuperação em São Paulo | Foto: Enel/Divulgação
Milhares de técnicos continuam nas ruas tentando restabelecer as redes de energia elétrica: até helicópteros foram contratados para apoiar trabalho de recuperação | Foto: Enel/Divulgação

Empresa promete contratar 1,2 mil eletricistas

Encurralada, a empresa se apoia em projetos de investimentos que preveem R$ 6,2 bilhões em São Paulo entre 2024 a 2026. Diz, ainda, que vai contratar, ao menos, 1,2 mil eletricistas até 2025.

No meio do atual sufoco, a concessionária buscou socorro em equipes próprias que estavam em outros Estados, como Ceará e Rio de Janeiro. Apelou também pelo recrutamento de técnicos estrangeiros.

Leia também: “Pressionada, Enel busca técnicos no exterior”

No último sábado, 11, anunciou que recorreria a profissionais de países vizinhos (Chile e Argentina), além de Itália e Espanha. Os esforços, contudo, parecem não convencer as autoridades em razão, principalmente, do histórico.

Em março e novembro do ano passado, a mesma região sofreu dois apagões de grandes proporções. O problema com a falta de energia durou aproximadamente uma semana e, mais uma vez, quem pagou a conta com prejuízos financeiros e paciência foi o consumidor.

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Em abril deste ano, o governo federal, por meio da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), solicitou abertura de um processo administrativo disciplinar contra a Enel. 

Essa medida tem a finalidade de investigar eventuais descumprimentos de regras, cujo resultado pode ser o rompimento ou a revisão dos contratos. A Aneel deixou o barco correr e, agora, é criticada por negligenciar a situação.

A agência se defende dizendo que multou a concessionária em cerca de R$ 320 milhões. Parte da penalidade foi suspensa por decisão judicial.

Desconfiados quanto ao engajamento da concessionária, os governos estadual e municipal, em meio às vésperas do segundo turno nas eleições da capital, pediram o rompimento do contrato da Enel.

Concessão é de competência federal

As concessões de distribuição de energia são de competência federal. Logo, envolvem diretamente o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Com isso, observam alguns especialistas, não dá para contar, pelo menos no curto prazo, com a ideia de rompimento de contrato. O próprio governo diz que a caducidade é um processo que nunca foi adotado no país.

Enel tem direito à defesa, dizem advogados

“Antes de qualquer decisão, é preciso dar o direito de ampla defesa à Enel para ver se ela falta com os compromissos previstos”, disse à Revista Exame o advogado Rafael Marinangelo, do escritório RGSA. “[O rompimento] tem uma sequência de atos que você não pode suprimir”.

O ex-diretor geral da Aneel e professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Edvaldo Santana, concorda: “É um rito demorado”.

A nota técnica estabelece metas para que as empresas cumpram os índices de duração e frequência das interrupções de energia | Foto: Reprodução/Aneel
Aneel: morosidade no acompanhamento às queixas contra os serviços prestados pela Enel | Foto: Reprodução/Aneel

Estado tem que seguir a lei, afirma especialista

O também especialista em direito empresarial Dinovam Dumas de Oliveira, do escritório MFDB, reforça a existência de um cenário complexo.

“Se pretender o rompimento do contrato, o Estado terá de adotar todas as providências que a lei prevê. Isso inclui instaurar processo administrativo e permitir que a Enel exerça o direito ao contraditório e à ampla defesa”. 

Concessionária cumpre exigência mínima

Conforme relatórios da Aneel, a frequência e a duração dos apagões são os critérios que, em princípio, medem a qualidade do serviço. Nesse contexto, a Enel, em 2022 e 2023, atende aos padrões mínimos. 

A empresa, contudo, vem piorando o seu desempenho no quesito continuidade de fornecimento de energia. No último ranking do setor, publicado em março deste ano, caiu da 19ª para a 21ª posição.

Governo tem três opções

Em caso de caducidade ou encampação, o governo federal teria, por exemplo, três caminhos: assumir a prestação do serviço; realizar um contrato provisório com outra empresa que atenda à demanda; ou manter a Enel até uma nova licitação.

Isso significa que a União teria que assumir a concessão ou escolher uma empresa de forma emergencial para operar o serviço até um novo processo de licitação.

Leia mais: “TCU diz que vai responsabilizar ministério e Aneel por apagão”

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