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Ucrânia: capitulação ou resistência?

Ações da Rússia sinalizam tentativa de instaurar novo governo

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O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky | Foto: Reprodução/Flickr

VARSÓVIA – A ação militar da Rússia de bombardear e depois enviar tropas para um ataque com a finalidade de tomar a capital ucraniana, Kiev, apontam para uma possível tentativa de instaurar um novo governo no país — dessa vez leal a Moscou. Restam ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, as opções de capitular para evitar um banho de sangue ou tentar uma longa guerra de resistência.

A Ucrânia já estava em guerra com rebeldes separatistas nas regiões orientais de Donetsk e Luhansky desde 2014. Mas, na quarta-feira 23, o cenário se transformou em guerra total entre Estados, com a invasão da Rússia na Ucrânia.

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Paraquedistas russos foram lançados à frente de batalha para conquistar uma base aérea, que fica a 15 quilômetros ao norte da capital Kiev. Os ucranianos responderam com disparos de artilharia e ataques para retomar o local, mas não foi suficiente.

Os paraquedistas ainda controlam a base, que pode ser usada como ponto de partida para bombardear a capital mais intensamente. A maior parte das forças russas avançaram em colunas a partir do norte da Bielorrússia para o sul, a fim de se juntar aos paraquedistas — em uma manobra chamada de “cabeça de ponte”, no jargão militar.

Nessa marcha para a capital a partir da Bielorrússia, a cidade ucraniana de Chernihiv foi cercada. Na sexta-feira 25, soldados a pé e em veículos blindados foram vistos nas ruas da parte norte da capital. Eles, possivelmente, eram tropas de reconhecimento, que estão testando o nível de resistência e selecionando alvos para um ataque massivo posterior.

“Acho que está claro que o presidente Putin quer trocar o governo da Ucrânia”, afirmou Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, coronel da reserva e analista militar. “Esse ataque a Kiev caracteriza isso claramente.”

As tropas tentariam então prender ou assassinar o presidente Zelensky e colocariam em seu lugar um gestor que faria o papel de títere da Rússia. Zelensky, um presidente pró-Ocidente, vem afirmando em discursos televisivos que ele é o alvo número um de Putin e sua família, o alvo número dois.

Em paralelo às ações para a tomada de Kiev, navios de guerra e fuzileiros navais lançaram ataques em grandes cidades portuárias, como Odessa e Mariupol. Blindados e forças de infantaria avançaram da Crimea, em direção ao norte.

Esses movimentos podem indicar que a Rússia também manobra para tomar toda a faixa de terra ao sul do país, ligando a Moldávia ao território russo. Isso, no mínimo, deve privar a Ucrânia de uma saída para o mar.

Essas foram as principais ações militares relatadas até a sexta-feira 25, além de bombardeios em pelo menos dez cidades ocorridos ao longo da semana e tomada de posições estratégicas — como Chernobyl, cidade que abriga o sarcófago do reator nuclear que explodiu em 1986, sob domínio soviético, e ainda pode lançar radiação sobre a Europa se for atingido.

Qual é o resultado desejado por Putin na Ucrânia?

O cenário potencialmente mais mortífero é a ocupação do território ucraniano em sua totalidade. “Manter tropas de ocupação é complicado em pleno século 21″, disse Paulo Filho. Segundo ele, as sanções à Rússia tendem a aumentar e Putin vai perder a interlocução com o Ocidente.

Outro cenário possível é a Ucrânia se partir em dois, com um governo pró-Ocidente no oeste e um pró-Rússia no leste.  A divisão poderia ser o Rio Dnieper, obstáculo natural que quase corta o país ao meio.

“Putin já perdeu o que tinha a perder, não tem mais nada para negociar”, observou Paulo Filho. “Então, já que ele vai perder, por que se restringir à parte leste da Ucrânia?”

Capitulação ou luta?

Há outras opções. Segundo o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz (Podemos), para evitar um banho de sangue, Zelensky pode capitular e ceder a uma série de imposições russas.

Uma declaração do porta-voz russo Dmitry Peskov, na sexta-feira, vai nessa direção. Segundo ele, Moscou está pronta para negociar com Kiev na Bielorrússia os termos de um cessar-fogo. Ele teria como condição a desmilitarização da Ucrânia, que se tornaria um Estado neutro.

Santos Cruz já comandou a ONU em dois conflitos (Haiti e República Democrática do Congo) e foi adido militar na Rússia. Ele disse que o histórico dos povos eslavos aponta para o contrário: o da resistência heroica e possível aniquilação das forças e voluntários ucranianos.

Um indício disso é que Zelensky distribuiu submetralhadoras e fuzis para membros da população civil que se apresentaram como voluntários para ajudar o exército ucraniano a defender Kiev.

Uma campanha de resistência prolongada pode levar a Rússia a uma nova “guerra eterna”, termo que vem sendo usado para descrever as campanhas militares dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão. Ou seja, combater Putin com ações de defesa até a ação militar perder apoio popular na Rússia. Mas o custo disso em vidas seria elevadíssimo.

O que o Ocidente poderia fazer para ajudar a Ucrânia?

Militarmente, os Estados Unidos e seus aliados europeus estão enviando armas pesadas de defesa — como lançadores de mísseis antiaéreos e anticarro. Embora não haja informações confirmadas por fontes isentas, ao menos seis aviões e um helicóptero russos foram abatidos com armamentos que têm essa finalidade.

Em paralelo, o Ocidente municia os ucranianos com informações de inteligência. Elas podem ir desde a movimentação das tropas russas no terreno ao inédito posicionamento do chefe do MI6 (serviço de inteligência britânico), Richard Moore, conhecido como “C”. Ele teria conseguido evitar a chamada operação de “bandeira falsa” — quando tropas russas atacam os próprios companheiros para culpar os ucranianos e justificar uma ação militar mais dura.

As potências ocidentais também estão colocando em prática uma série de sanções econômicas a bancos russos, a membros da oligarquia do país (como congelamento de recursos em bancos britânicos) e a autoridades envolvidas com a invasão. Uma das mais fortes foi a suspensão da homologação do gasoduto Nordstream 2 pela Alemanha. Mas, como todas as sanções, se por um lado ela evita que o governo russo obtenha mais recursos, por outro, torna o gás mais caro, afetando todo o continente.

As sanções, portanto, atingem tanto quem sanciona como quem é sancionado — o que faz com que muitos países ainda resistem a adotá-las. Um caso que se encaixa neste cenário é a ameaça de cortar a Rússia do sistema Swift, que permite transações bancárias internacionais. Se isso acontecer, todos os fornecedores russos podem “levar calote” e perderem mercado e capacidade de produção a longo prazo.

Putin parece ter previsto o cenário de sanções e vem mostrando capacidade de continuar com a ação, apesar delas.

Os Estados Unidos já afirmaram que não mandarão tropas para socorrer os ucranianos. O recado está nas entrelinhas: isso poderia deflagrar uma Terceira Guerra Mundial. Assim, na prática, a Ucrânia está sozinha militarmente e seu destino vai depender muito das opções que serão feitas nos próximos dias pelo presidente Zelensky. A pergunta que ele deve se fazer no campo militar é: capitulação ou resistência “heroica”?

Leia também: “A Ucrânia balança o mundo”, artigo publicado na Edição 101 da Revista Oeste


*Luis Kawaguti é jornalista freelancer

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9 comentários
  1. Ricardo Contieri
    Ricardo Contieri

    E o povo da Ucrânia e o povo da Rússia, qual desfecho eles querem?? Afinal seus “”representantes”” estão sendo apoiados ou não?? Bem… não importa não é?

  2. Daniel BG
    Daniel BG

    Talvez Israel possa intermediar esse impasse, pelo que a Ucrânia já pediu à Israel. Ao menos uma tentativa de sensibilizar, além das mortes, além do sangue, mas através da história, pois, afinal, o que Putin faz não é diferente de Hitler.

  3. Angela
    Angela

    Muito boa a matéria.

    Tomara que Zelensky capitule, mas o general Santo Cruz nos lembra que o histórico dos povos eslavos aponta o contrário. Ao mesmo tempo a população está assustada demais para rir das tiradas patrióticas do presidente Zelenky. Não é para menos, Zelensky conta com toda a expertise do nazista Dmitro Yarosh, membro das redes „Stay-Behind“ da OTAN. Yarosh foi recrutado pela CIA para coordenar grupos nazistas e islamitas reunidos na Ucrânia para combater a Rússia na guerra da Tchechênia em 2007. Ele também foi personagem central na revolução de „Maidan“ que culminou com a morte de muitos manifestantes.

  4. Frederic Couto
    Frederic Couto

    Claro que já devia ter capitulado quando ficou claro que a Ucrânia foi abandonada a própria sorte pela América e Europa. Continuar só vai colocar em perigo os civis que só querem paz. Depois do sacrifício dos civis o ex-presidente vai viver em Paris com o saque que já deve ter feito no tesouro da Ucrânia.

  5. Luciano De Brito Kudryk
    Luciano De Brito Kudryk

    Kawaguti foi profundo e cirugico no assunto.

  6. Fábio Araujo Mendes
    Fábio Araujo Mendes

    Kawaguti vai ao ponto e expõe o real impasse.

  7. Marcelo Gurgel
    Marcelo Gurgel

    Estamos vivenciando mais um capítulo monstruoso da história da humanidade.

  8. Natan Monteiro
    Natan Monteiro

    Excelente matéria. Parabéns ao jornalista Luis Kawaguti! Só aqui na Revista Oeste para termos uma cobertura de qualidade.

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