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Quem é Santa Marina, tratada como trans em curta narrado por Lancellotti

Tradição católica retrata o amor da monja libanesa pelo pai

Ícone de Santa Marina, o Monge | Imagem: Uncut Mountain Supply/Reprodução
Ícone de Santa Marina, o Monge | Imagem: Uncut Mountain Supply/Reprodução

A polêmica em torno de um curta-metragem narrado pelo padre Júlio Lancellotti trouxe à tona a figura de Santa Marina, conhecida na tradição católica como Marina, o Monge. A obra audiovisual retrata a santa como uma figura transgênero, o que gerou revolta nas redes sociais, em especial depois de vídeos publicados pelo influenciador católico Miguel Kazam nesta quinta-feira, 2.

Em manifestação sobre o episódio, a Arquidiocese de São Paulo destacou que a produção “não foi autorizada nem endossada oficialmente pela Arquidiocese” e que as opiniões nela expressas “não representam o posicionamento institucional da Igreja em São Paulo”.

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Júlio Lancellotti | O padre Júlio Lancellotti, durante a cerimônia de lançamento do Plano Nacional Ruas Visíveis, no Palácio do Planalto - 11/12/2023 | Foto: Mateus Bonomi/Agif/Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo
O padre Júlio Lancellotti, durante a cerimônia de lançamento do Plano Nacional Ruas Visíveis, no Palácio do Planalto | Foto: Mateus Bonomi/Agif/Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo

A vida de Santa Marina segundo a tradição

De acordo com registros preservados em obras clássicas e documentos eclesiásticos, como a Legenda Áurea, do Beato Tiago de Voragine, e estudos do Instituto de Pesquisa Maronita, Santa Marina teria vivido no Líbano, no século 5. Filha única, perdeu a mãe ainda criança. Seu pai, homem de fé, decidiu abandonar a vida no mundo e ingressar no mosteiro de Qannoubine. Sem querer separar-se da filha, levou-a consigo, vestiu-a com roupas masculinas e apresentou-a como seu filho.

Assim, Marina passou a ser conhecida como “irmão Marino”. Viveu em disciplina rigorosa, caracterizada por silêncio, penitência e dedicação às práticas ascéticas. O disfarce era sustentado não apenas pela aparência externa, mas pela vida austera, que modificou seus traços físicos e permitiu-lhe manter o segredo por toda a vida.

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Um dos episódios centrais da sua biografia ocorreu quando foi enviada a uma missão em uma aldeia próxima. Hospedada na casa de um homem chamado Pafnútio, foi injustamente acusada pela filha dele, que, grávida, declarou ter sido violentada pelo monge Marino. Diante da acusação, Marina permaneceu em silêncio. O superior do mosteiro interpretou o silêncio como confissão, determinou sua expulsão e ordenou que criasse a criança.

Marina aceitou a sentença sem se defender. Viveu durante anos fora do convento, onde cuidou do menino com humildade. Alimentava-o com leite de cabra e restos doados pelos monges. Mais tarde, tocado por sua perseverança, o abade permitiu que ela retornasse ao mosteiro, mas apenas sob condições severas, em funções humildes e pesadas.

A verdade só veio à tona depois de sua morte. Quando os monges preparavam o corpo para o sepultamento, descobriram que Marino era, na realidade, Marina. O episódio causou comoção e arrependimento coletivo. O pai da jovem que fizera a acusação apresentou-se para reconhecer a injustiça, e a própria filha passou o restante da vida em penitência junto do túmulo da santa.

A história se espalha

O relato de Santa Marina foi amplamente difundido em diferentes versões. Algumas narrativas afirmam que, ao criar a criança, ela teria conseguido amamentá-la de modo milagroso. Outras dizem que, em seu leito de morte, escreveu aos monges uma carta em que revelava sua verdadeira identidade: “Sou mulher e não homem”, anotou. “Fui acusada injustamente e criei esta criança com meu cuidado. Peço que não tireis meu hábito, irmãos.”

A história de Marina foi incorporada à Legenda Áurea, em que aparece como exemplo de santidade marcada pela obediência e pela paciência. Segundo o texto, “quando lavavam seu corpo, preparando-o para sepultá-lo em lugar pouco honrado, viram que se tratava de uma mulher”, relatou. “Todos ficaram estupefatos e assustados ao perceber quanto haviam se enganado.”

Com o tempo, o culto a Marina se espalhou por Jerusalém, Constantinopla e Paris. Parte de suas relíquias foi levada para a Itália, onde passaram a ser veneradas em igrejas de Veneza. Na França, registros do século 17 mencionam fragmentos ósseos atribuídos à santa conservados na Catedral de Notre-Dame.

Na tradição maronita, seu dia litúrgico é celebrado em 17 de julho. O mosteiro em que viveu permanece como centro de devoção no Líbano e recebe peregrinos que buscam bênçãos e curas.

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A visão oficial da Igreja sobre pessoas trans

A interpretação do curta que retrata Santa Marina como transgênero se confronta com o magistério católico. Em 2019, a Congregação para a Educação Católica publicou o documento Homem e Mulher Os Criou, que critica a chamada “ideologia de gênero”, definida como a negação da diferença natural entre homem e mulher. O documento afirma que essa perspectiva “enfraquece a base antropológica da família” e que a identidade não pode ser reduzida a uma escolha individual que muda com o tempo.

Quatro anos depois, a declaração Dignitas Infinita, do Dicastério para a Doutrina da Fé, voltou ao tema ao reafirmar que o sexo biológico é parte constitutiva da identidade da pessoa e não pode ser alterado arbitrariamente. O documento também ressalta que propostas de “mudança de sexo” contradizem a dignidade humana, mas sublinha que pessoas em situação de dificuldade quanto à identidade de gênero devem ser acompanhadas com respeito e sem discriminação.

Assim, a Igreja sustenta duas linhas complementares: de um lado, rejeita a noção de identidade de gênero desvinculada do sexo biológico; de outro, pede acolhimento pastoral e caridade no trato com todos.

No caso de Santa Marina, a tradição cristã sempre a apresentou como mulher, que, por amor filial e desejo de vida monástica, assumiu a identidade masculina de “Marino” para viver junto do pai no mosteiro. Essa é a realidade atestada por manuscritos, liturgias e hagiografias transmitidas ao longo dos séculos. Dessa forma, as leituras atuais que procuram transformá-la em figura transgênero representam deformações da sua história e da memória da Igreja.

Leia também: “Fé sem fronteiras”, artigo de Ana Paula Henkel publicado na Edição 239 da Revista Oeste

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4 comentários
  1. Christian
    Christian

    Gostei deste artigo que mais uma ve reforça que este dito padre, pedófilo por natureza, abrisse a boca mais uma vez.

  2. ARIOVALDO HERMINIO BRAGA
    ARIOVALDO HERMINIO BRAGA

    Esse “padreco de quermesse” já pagou pelo crime sexual revelado?
    Para que dar destaque à este doente mental?

  3. Osmar Martins Silvestre
    Osmar Martins Silvestre

    Padre lancellotti é mais um padre da extrema esquerda que procura se apropriar da Igreja Católica, deformando os seus conceitos para enquadrá-la na agenda dita “progressista”. Há seríssimas acusações contra ele, todas abafadas pela Igreja Católica em uma questionável posição moral ao blindá-lo.

  4. Clarissa Franchi Battistin
    Clarissa Franchi Battistin

    Ótimo texto, esclarecedor. Comunistas travestidos de padres fazem mal à Igreja e ao Cristianismo.

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