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Qual era o papel de Cilia Flores, mulher de Maduro, na ditadura da Venezuela

Reportagem do Wall Street Journal revela as acusações que pesam contra a ex-primeira-dama venezuelana

Nicolás Maduro e Cilia Flores | Foto: Divulgação/Governo da Venezuela
Nicolás Maduro e Cilia Flores: casal foi capturado por forças militares norte-americanas | Foto: Divulgação/Governo da Venezuela

A ex-primeira-dama da Venezuela Cilia Flores, de 69 anos, presa nos EUA desde 3 de janeiro, é acusada, ao lado do marido, o ex-ditador Nicolás Maduro, de diversos crimes, incluindo tráfico internacional de drogas. Perante a Justiça americana, Cilia se apresentou como “primeira-dama da República da Venezuela” e se disse inocente das acusações.

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Cilia Flores enfrenta acusações federais de conspirar com autoridades venezuelanas para transportar centenas de toneladas de cocaína aos EUA, além de receber subornos e ordenar assassinatos. Embora a denúncia traga poucos detalhes sobre a ex-primeira-dama, investigações anteriores e depoimentos de ex-colaboradores revelam seu papel central na estrutura de poder que sustentou o governo de Maduro por 13 anos.

“El Jardín de Flores”

O jornal americano The Wall Street Journal teve acesso a documentos judiciais que expõe o passado de Cilia e as acusações contra ele. As investigações mostram que ela teria criado uma rede criminosa familiar, apelidada na Venezuela de “El Jardín de Flores”. Parentes eram beneficiados com contratos públicos, rotas de tráfico e imunidade judicial.

Documentos apontam que seu sobrenome facilitava negócios com a estatal petrolífera PDVSA, inclusive liberando cargas de drogas pelo hangar presidencial do aeroporto de Caracas.

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Nos últimos anos, o governo dos EUA impôs sanções a 12 familiares de Cilia Flores, incluindo irmãos, filhos e sobrinhos, por suspeitas de corrupção e tráfico.

Em 2015, dois sobrinhos de Cilia foram detidos no Haiti depois de tentarem negociar cocaína, supostamente para financiar a campanha política da ex-primeira-dama. O irmão dela também teria intermediado essas operações, segundo um informante da DEA. A defesa da mulher de Maduro não comentou as acusações.

Ascensão política e poder familiar

Advogada, Cilia Flores começou sua carreira como aliada próxima do ditador Hugo Chávez, morto em 2013. Ela chegou a presidir o Parlamento e atuar como procuradora-geral. Depois da morte de Chávez, consolidou poder ao lado de Maduro, enquanto, segundo investigações, seu sistema familiar prosperava em meio à crise econômica venezuelana.

Analistas afirmaram ao WSJ que mesmo depois da prisão de Maduro e da posse da vice-presidente Delcy Rodríguez ter assumido o governo e adotado ações em colaboração com os EUA, a influência do grupo da ex-primeira-dama permanece.

Cilia Flores teve origem humilde em Catia, zona oeste de Caracas, onde criou três filhos com o primeiro marido, Walter Gavidia. Entre os parentes que residiam com ela estavam Efraín Campo Flores e Franqui Flores de Freitas, que mais tarde se envolveram em esquemas de tráfico.

Cilia trabalhou na redação da nova Constituição depois da eleição de Chávez em 1998 e foi presidente da Assembleia Nacional em 2006, o que lhe deu influência direta na escolha de juízes, inclusive da Suprema Corte. Segundo a DEA, sua posição facilitou a atuação de organizações criminosas no país.

O esquema criminoso de Cilia Flores

Ex-promotores e investigadores afirmam que Flores arquitetou um sistema de impunidade que permitiu a grupos ligados ao governo traficar drogas sem consequências legais. “Essa sensação de segurança, de poder traficar e operar sem consequências legais, é graças a Cilia Flores”, declarou o ex-promotor Zair Mundaray ao The Wall Street Journal.

ilustração audiência judicial de Nicolás Maduro na Justiça de Nova York EUA
Ilustração de momento da audiência do ex-ditador Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores, em tribunal da Justiça de Nova York, nos Estados Unidos — 5/1/2026 | Foto: Jane Rosenberg/Reuters

Em 2007, segundo a denúncia americana, Cilia Flores teria recebido subornos para organizar um encontro entre um traficante e o diretor do órgão antinarcóticos venezuelano, com pagamentos mensais e bônus por cada voo de drogas liberado, parte dos quais seriam destinados a ela.

De acordo com relatos de ex-colaboradores, policiais sob influência de Cilia realizavam apreensões e revendiam as drogas, atuando como quadrilhas. O controle familiar se expandiu com indicações de parentes para cargos estratégicos, incluindo finanças do parlamento e da estatal PDVSA.

O apelido “O Jardim das Flores” se popularizou depois de denúncias de corrupção feitas por funcionários do parlamento em 2008. Os filhos de Flores, conhecidos como “Los Chamos”, também foram sancionados pelos EUA por envolvimento em corrupção e festas luxuosas financiadas com recursos ilícitos.

Relação dos sobrinhos e operações internacionais

Com a ascensão de Maduro à presidência em 2013, Flores ampliou sua influência, nomeando o sobrinho Carlos Malpica como tesoureiro nacional e diretor financeiro da PDVSA. Registros mostram celebrações com champanhe em festas exclusivas após as nomeações.

Em 2015, os sobrinhos Efraín e Franqui tentaram se beneficiar do esquema familiar, discutindo crimes e planejando negócios ilícitos com outros parentes. Quando não receberam apoio de Malpica, recorreram ao tráfico de drogas, negociando com um informante da DEA disfarçado de membro do cartel de Sinaloa.

Venezuela Maduro
Nicolás Maduro foi capturado em operação dos EUA em Caracas, na Venezuela I Foto: Divulgação/Donald Trump/Truth Social

Durante as tratativas, os sobrinhos disseram que parte dos recursos financiaria a campanha de Cilia ao Parlamento, pressionando para que o pagamento ocorresse antes das eleições. O grupo foi preso em uma operação no Haiti, depois de tentarem receber US$ 11 milhões por 800 kg de cocaína.

No interrogatório, confessaram boa parte das ações, mas negaram que o dinheiro fosse para a campanha da tia, alegando interesse pessoal. Segundo Campo, retirar drogas do aeroporto de Caracas era “muito fácil”, devido à influência da família.

Publicamente, a ex-primeira-dama minimizou a prisão dos sobrinhos, chamando-a de “sequestro”. Pouco depois, o informante hondurenho que colaborou com a DEA foi assassinado, segundo autoridades. Os EUA continuaram investigando o círculo de Cilia Flores, incluindo a prisão de ex-funcionários venezuelanos e guarda-costas.

Informações de ex-subordinados indicam que Flores e altos funcionários permitiam que grupos criminosos utilizassem a Venezuela para escoar drogas à América do Norte e Europa, recebendo parte dos lucros, segundo o ex-embaixador William Brownfield, que coordenou ações antidrogas dos EUA na região.

Sanções a família de Cilia Flores

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante seu mandato, intensificou as sanções contra Cilia Flores e seus filhos. Em uma investigação sobre desvios de US$ 1,2 bilhão da PDVSA, um banqueiro suíço relatou ter negociado com “Los Chamos” para resolver questões com Maduro com intervenção de Cilia Flores.

+ Quem é Cilia Flores, mulher de Maduro capturada pelos EUA

Os sobrinhos presos participaram de negociações com autoridades americanas para troca de detidos. Em março de 2022, representantes do governo Biden discutiram com Maduro a libertação de executivos americanos, com Cilia Flores presente nas reuniões. O Departamento do Tesouro dos EUA removeu Carlos Malpica da lista de sanções pouco depois.

Em outubro de 2022, prisioneiros americanos foram trocados por Efraín e Franqui Flores em uma pista caribenha. “É um bom negócio. Dois por sete”, disse Roger Carstens, enviado dos EUA, a um dos libertados. Os sobrinhos foram recebidos em Caracas por assessores próximos de Cilia Flores. Depois da libertação, os sobrinhos voltaram ao tráfico, segundo o Tesouro dos EUA, que os sancionou novamente em dezembro do ano passado.

Leia também: A ditadura apodreceu, artigo de Ana Paula Henkel publicado na Edição 304 da Revista Oeste

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