publicidade
Mundo

Pax trumpista

O movimento americano enfraquece o Brics ao oferecer o que Pequim nunca pôde

O presidente dos EUA, Donald Trump, realiza uma reunião de gabinete na Casa Branca, em Washington, D.C. - 26/8/2025 | Foto: Jonathan Ernst/Reuters
O presidente dos EUA, Donald Trump, realiza uma reunião de gabinete na Casa Branca, em Washington, D.C. - 26/8/2025 | Foto: Jonathan Ernst/Reuters

Ao analisar o tabuleiro global de 2026, torna-se evidente que a criação do Board of Peace (BoP), por Donald Trump, não foi um ato impulsivo, mas uma leitura realista sobre a obsolescência das instituições do século XX. Enquanto a burocracia europeia se apega a dogmas, Trump identificou a falência terminal da ONU — hoje um fórum de paralisia deliberativa e parasitismo burocrático. Percebendo que a ordem de 1945 ruiu sob o peso da ineficiência, ele propôs uma nova gramática: o pragmatismo transacional elevado ao nível de governança global.

Este vácuo institucional já havia impulsionado a expansão dos Brics. Historicamente, o bloco consolidou-se mais como um sintoma de descontentamento com a hegemonia do G7 do que como uma aliança integrada. Contudo, a estratégia da política externa americana agora demonstra inteligência ao explorar as fissuras dessa arquitetura idealizada pela China. O Brics+, um “casamento de conveniência”, abriga tensões profundas entre exportadores de energia e importadores asiáticos. É precisamente nessa brecha que o BoP se insere.

Receba nossas atualizações

O movimento americano enfraquece o Brics ao oferecer o que Pequim nunca pôde: acesso imediato e direto ao epicentro do poder econômico e militar, sem as amarras diplomáticas. Ao instituir uma taxa de US$ 1 bilhão por um assento permanente, Trump não está apenas “vendendo influência”, mas realizando uma filtragem de relevância. Ele transforma a geopolítica em um ambiente de private equity, onde o aporte financeiro garante um stakeholder com voz ativa. Para nações como Índia, Arábia Saudita ou Brasil, a oferta é tentadora: deixar de ser “sócio minoritário” da China para ser sócio direto na gestão da economia global sob a égide do dólar.

Este jogo altera a ordem internacional de forma irreversível. Ao contornar a ONU, retira-se da Rússia e da China sua ferramenta mais potente: o poder de veto. No BoP, o poder emana da capacidade de execução e recursos. Se os grandes fluxos de capital e garantias de segurança passarem pelo “balcão” do BoP, as cúpulas do Brics e as assembleias da ONU esvaziam-se. O pragmatismo de Trump força o Sul Global a uma escolha binária: a retórica de um bloco emergente ou a eficácia transacional de quem controla a moeda global.

A engenharia política dos EUA aplica um xeque-mate sem confronto direto. Em vez de destruir o Brics com sanções, Washington o torna irrelevante. Ao atrair os membros mais influentes do bloco através do lucro e da segurança, ocorre uma fragmentação interna. Sem a Índia ou os gigantes do petróleo, o Brics reduz-se a um eixo sino-russo isolado, perdendo sua legitimidade como voz do mundo em desenvolvimento. Trump entendeu que, no caos institucional contemporâneo, a influência é conquistada por resultados rápidos. O BoP é a materialização de uma ordem onde a diplomacia é substituída pela negociação executiva. Se a iniciativa vingar, a história registrará que o fim da ameaça sistêmica dos blocos rivais não veio de uma guerra, mas de uma reconfiguração do tabuleiro. É o triunfo da realpolitik sobre o idealismo: um xeque-mate silencioso que substitui o direito internacional pela governança corporativa.

Leia também: “O Brasil na rota do terrorismo”, artigo publicado na Edição 310 da Revista Oeste

Leia mais sobre:

0 comentários
Nenhum comentário para este artigo, seja o primeiro.
Canal Oeste
Nossos colunistas
Foto do autor J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Foto do autor Augusto Nunes
Augusto Nunes
Foto do autor Ana Paula Henkel
Ana Paula Henkel
Foto do autor Guilherme Fiuza
Guilherme Fiuza
Foto do autor Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino
Foto do autor Alexandre Garcia
Alexandre Garcia
Foto do autor Antonio Cabrera
Antonio Cabrera
Foto do autor Eugênio Esber
Eugênio Esber
Foto do autor Evaristo de Miranda
Evaristo de Miranda
Foto do autor Flávio Gordon
Flávio Gordon
Foto do autor Roberto Motta
Roberto Motta
Foto do autor Miriam Sanger
Miriam Sanger
Foto do autor Adalberto Piotto
Adalberto Piotto
Foto do autor Frank Furedi, da Spiked
Frank Furedi, da Spiked
Foto do autor Jeffrey A. Tucker.
Jeffrey A. Tucker.
Foto do autor Theodore Dalrymple
Theodore Dalrymple
Foto do autor Flavio Morgenstern
Flavio Morgenstern
Foto do autor Ubiratan Jorge Iorio
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
publicidade