Com os seus petrodólares jorrando em profusão, o Catar não poupa recursos para turbinar sua influência e ter acesso às elites políticas, econômicas e intelectuais do Ocidente. Além de realizar doações fartas para universidades de ponta e promover ações de lobby e de relações públicas em escala industrial, o país busca fortalecer seu soft power (poder suave) por meio de investimentos bilionários no mundo dos negócios.
Segundo um levantamento produzido pelo Fórum do Oriente Médio (MEF, na sigla em inglês), um centro de estudos norte-americano que se dedica à região, só os investimentos feitos pelo país na área empresarial dos Estados Unidos alcançam US$ 33,4 bilhões desde 2012. Na Europa, os aportes chegam a quase US$ 50 bilhões nas últimas duas décadas, considerando apenas os negócios que ganharam visibilidade e ainda estão em seu portfólio.
Se o emir do Catar, Tamim bin Hamad Al Thani, cumprir a promessa feita em 2024 ao presidente da França, Emmanuel Macron, de investir € 10 bilhões (US$ 11 bilhões) em companhias francesas até 2030, o total de recursos injetados pelo país no Velho Continente deverá superar a marca dos US$ 60 bilhões.
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Agora, a participação do Catar na economia ocidental vai atingir mesmo um novo patamar se os planos de Al Thani, de investir mais US$ 1,2 trilhão nos EUA, se concretizarem. Embora não haja prazo definido para os aportes, anunciados durante a viagem do presidente norte-americano, Donald Trump, ao país em maio de 2025, eles poderão ter um efeito colossal não apenas nos negócios, mas também junto aos tomadores de decisão, em Washington.
“Os investimentos do Catar servem tanto a seus objetivos econômicos quanto políticos, permitindo ao país projetar poder e influência no cenário global”, afirma Benjamim Baird, diretor de relações públicas do MEF e autor do estudo da entidade sobre os aportes realizados nos EUA.
A “influência calculada” do Catar
As investidas do Catar incluem a compra do controle e de participações minoritárias relevantes em algumas das maiores e das mais promissoras empresas norte-americanas e europeias. Da infraestrutura energética a hotéis icônicos em Londres e Nova York; de bancões globais a clubes de futebol, basquete e hockey; de montadoras a startups de tecnologia e grifes da moda, os tentáculos do Catar se espalham pelos mais diversos setores da economia.

Os aportes são realizados por meio de seu fundo soberano, batizado como Autoridade de Investimento do Catar, por suas subsidiárias e por outros braços estatais, como a Qatar Energy, que canaliza os investimentos do país na área de energia. Com ativos de US$ 557 bilhões, o fundo do Catar é 8º maior do gênero no mundo — o maior é o da Noruega, com ativos de US$ 2 trilhões, de acordo com o Instituto de Fundos Soberanos.
Mas, quando se calcula o valor dos ativos por habitante, o fundo do Catar assume o primeiro lugar no ranking. Levando em conta apenas seus 400 mil cidadãos, conforme os dados mais recentes, e excluindo os estrangeiros que trabalham no país, seu patrimônio per capita chega a US$ 1,4 milhão, quase quatro vezes mais que os US$ 370 mil da Noruega, com seus 5,5 milhões de habitantes.
Fora a compra do controle e de participações minoritárias na Europa e nos EUA, o fundo do Catar detém de US$ 100 a US$ 150 bilhões em títulos do Tesouro norte-americano e de dívidas corporativas, além de até US$ 80 bilhões em operações de private equity e de venture capital, cujos detalhes e valores não são públicos.
“Isso não é mero investimento. É influência calculada”, diz Gregg Roman, diretor-executivo do MEF, na apresentação do estudo sobre os investimentos do país nos EUA, intitulado “América à venda: a farra de gastos de US$ 40 bilhões do Catar compra influência e controle de instituições de elite”.
O país também mantém parcerias com casas de investimento badaladas, como a Pershing Square Capital Management, do investidor Bill Ackman, especializada em fundos hedge, e o Softbank, de Masayoshi Son, o “perdigueiro” de startups promissoras de alta tecnologia, uma das prioridades do país no momento. Seu portfólio na área inclui investimentos em gigantes, como a SpaceX e a xAI, do empresário Elon Musk, que ainda não abriram o capital.

A lista de pesos-pesados do setor financeiro com os quais o fundo do Catar faz negócios inclui, ainda, a Apollo Global Management, que se concentra em grandes operações de crédito e infraestrutura, e a BlackRock, a maior gestora de recursos do mundo, que recentemente abriu um escritório em Doha, a capital do Catar, para desenvolver projetos de transição energética e inteligência artificial.
Mercado de luxo
Apesar da grande diversificação e das incursões mais recentes na área de tecnologia, uma parcela considerável dos investimentos se concentra no setor de energia e no mercado imobiliário de luxo, uma aposta estratégica do país.
Como um dos maiores produtores do mundo de petróleo e gás, o Catar investiu cerca de US$ 15 bilhões na área de energia no Ocidente nos últimos 20 anos. Comprou o controle da Golden Pass LNG, um terminal para armazenamento de gás natural liquefeito destinado a exportação, no qual atua em parceria com a ExxonMobil, e uma participação de 49% na Golden Triangle Polymers, um enorme complexo petroquímico que produz polietileno, em parceria com a Chevron Phillips Chemical, ambos nos EUA, além de uma fatia de 8,8% na Iberdrola, a gigante de energia elétrica da Espanha.
No setor imobiliário, só em Londres, o Catar detém ativos em que investiu quase US$ 8 bilhões. Incluem-se aí a Vila Olímpica dos Jogos de 2012, transformada num bairro residencial; o complexo do setor financeiro de Canary Warf; o The Shard, uma “cidade vertical” multiuso de 72 andares que abriga o Hotel Shangri-La; e a HSBC Tower, que acomodava o banco e foi arrendada a ele mesmo até 2027.
Mesmo os hotéis de luxo comprados pelo Catar em Londres, por um valor total estimado em US$ 3,3 bilhões, são essencialmente ativos imobiliários, já que o país costuma terceirizar a gestão de seus empreendimentos no setor. A carteira em Londres inclui o Ritz London, o Claridge’s, o The Connaught, o The Berkeley e o The Savoy.
“O fundo soberano do Catar tem mais ativos em Londres do que a rainha da Inglaterra”, ironizou o jornalista Uptin Saiidi, ex-repórter da CNBC, rede norte-americana de TV voltada para temas econômicos, em artigo publicado no site da emissora quando Elizabeth II, que morreu em 2022, ainda estava viva. Pouco mudou desde então neste aspecto.
Nos Estados Unidos, os investimentos nas áreas imobiliária e de hotelaria somam US$ 3,3 bilhões. Em Nova York, a carteira engloba o controle de hotéis como o The Plaza, o Park Lane e o St. Regis, além de uma participação de 9,9% na controladora do Empire State Building, um dos símbolos da cidade.

Em Long Island City, no distrito de Queens, também em Nova York, o Catar aproveitou o boom imobiliário da região, erguendo torres residenciais de alto padrão, como a The Jacx, na qual detém uma participação de 80%. O fundo soberano do país tem ainda uma participação de 85% no CityCenterDC, em Washington, um enorme e luxuoso complexo de uso misto localizado no coração da capital norte-americana.
Operação-hospital
Nem tudo, porém, deu certo, nas tacadas do Catar no Ocidente. Em suas investidas, o país teve grandes perdas, em especial nas apostas feitas na banca. Um de seus maiores prejuízos foi com o Credit Suisse, que era o segundo maior banco da Suíça, no qual o Catar chegou a ser um dos principais acionistas, com uma participação de 9%.
Em 2022, quando o Credit Suisse estava à beira do colapso, o Catar injetou mais US$ 1,5 bilhão na instituição, na tentativa de salvá-la, numa operação de aumento de capital da qual participaram também outros acionistas. Só que a operação-hospital não resolveu o problema e o banco, que alcançou um valor de mercado de US$ 60 bilhões antes da crise global de 2008, acabou sendo comprado pelo UBS, seu maior rival na Suíça, por “apenas” US$ 3,25 bilhões. Com isso, as participações dos antigos acionistas do Credit Suisse foram convertidas em ações do UBS por uma fração do valor original, e o Catar viu bilhões de dólares que havia investido no banco evaporarem da noite para o dia.
Outra perda significativa aconteceu aqui mesmo, no Brasil, com a subsidiária do banco Santander, da Espanha. Em 2010, por meio da Qatar Holding, o país havia investido US$ 2,7 bilhões em títulos conversíveis em ações, que se transformaram, a partir de 2013, numa participação acionária equivalente a 5% do capital da instituição.
Em 2017, no entanto, a Qatar Holding vendeu metade disso (2,5%) — que deveria ter rendido pelo menos US$ 1,35 bilhão apenas para empatar o valor investido — por “apenas” US$ 737 milhões. Ou seja, considerando o aporte inicial, a perda nominal na venda dessa fatia ficou em torno 50%.
De qualquer forma, apesar dos reveses eventuais, o poder de fogo do Catar nos negócios segue inabalado. Seus investimentos continuam a contribuir para amplificar sua influência e seu soft power no Ocidente. Por isso, há muito CEO e muito financista por aí que, diante dos bilhões que o Catar tem para investir, preferem fazer vistas grossas às acusações feitas ao país por sua atuação na arena global, para manter a fonte generosa de recursos jorrando sem parar.
Leia também: “O lado sinistro do Catar (parte 1)”, reportagem publicada na Edição 308 da Revista Oeste




































O maior problema não é a participação em empresas…. é a manipulação de mentes e ideologica nas universidades e instituições de pesquisa com doações bilionarias que mascaram a base para o projeto de um califado mundial e dominio Islâmico da humanidade. Isso é fato, estudem os fundamentos e a historia do islamismo.