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O Ocidente e sua catarata moral

As revelações recentes do caso Jeffrey Epstein são a prova de que a devassidão moral se tornou sistêmica e organizada na cultura e na política ocidentais

Acusado de crimes sexuais e tráfico de menores, Jeffrey Epstein teria cometido suicídio na prisão, em 2019 | Foto: Gerada por Inteligência Artificial
Acusado de crimes sexuais e tráfico de menores, Jeffrey Epstein teria cometido suicídio na prisão, em 2019 | Foto: Gerada por Inteligência Artificial

Lembro vividamente de como uma palestra de um cientista político/jornalista, na faculdade onde fazia minha graduação, impressionou-me profundamente. A sua postura comedida, racional, quase que laboratorial para falar sobre política e suas teorias, era algo fora do comum naquele contexto, normalmente, dado aos jargões prontos e julgamentos ideológicos universais. Ele não tratava a política com o fígado — como eu mesmo fazia —, toda e qualquer militância, para ele, parecia ser mero berreiro de pessoas menos intelectualizadas. Ele se colocava acima das histerias.

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Depois da palestra fiquei sabendo que ele tomaria café com outros docentes em uma sala separada, e, antes dele escapar, de forma sincera, fui cumprimentá-lo, porque ele havia me convencido de minha postura mesquinha ao lidar com as ideias políticas, havia me convencido de minha soberba. O palestrante então disse — para mim e outros que nos rodeavam — algo como: “Basta pensar que, na política, não existe o mal puro, todos querem ajustar suas crenças e ações a um fim que pensam ser nobres”. Minha admiração súbita ante aquele professor se desfez tão rápido quanto antes havia sido construída, afinal, das milhares de convicções juvenis e militantes que de forma afoita eu ostentava feito um pombo drogado, a única certeza que subsistia com sobriedade a todo e qualquer tipo de análise era o fato de que o mal existia sim, e que a política era um campo distintamente fértil para ele. Como dizer o contrário, pensava eu, depois da era das ideologias nazista, fascista e comunista?

O homem tinha a postura adequada, a seriedade adequada, a prudência e a capacidade de articular que um analista sério, que trata de forma genuinamente correta a política, deve ter. Ele só não tinha o principal esteio de um homem: a coragem de julgar moralmente o que é intrinsecamente mal. Eu posso imaginá-lo sustentando que deveríamos anular nossos julgamentos morais com relação às ações de Fidel Castro, pois julgá-lo como pessoa má não ajudaria a entender as suas convicções e ações políticas; o mesmo faria, imagino, com Jósef Stálin e Xi Jinping. Porém, esnobar o mal não o faz sumir, assim como ignorar um monte de fezes não faz com que fedam menos. Tais personagens escolheram praticar conscientemente maldades, então o mal é, em si mesmo, parte inerente às suas mentalidades e práticas políticas, ignorá-los não seria inteligente e “científico”, mas antes a mais mesquinha negligência e erro.

Leia também: Epstein e os homens imorais, artigo de Rodrigo Constantino publicado na Edição da Revista Oeste

Os milhões mortos por Mao Tsé Tung em sua Revolução Cultural; os milhões que sucumbiram no Holodomor pelas políticas de Stálin; os milhares fuzilados por Fidel. Eles são a prova de que o asqueroso, o abjeto, o mal genuíno existem de forma cruenta e inconteste na política. E isso não é ambíguo, retórica vazia, é fato histórico comprovável. No fundo, tal postura supostamente “científica de análise política” acaba, não poucas vezes, cegando o analista para o óbvio, em vez de aclarar os fatos.

As revelações recentes do caso Jeffrey Epstein são a prova de que a devassidão moral no Ocidente contemporâneo se tornou sistêmica e organizada, e que qualquer postura de suspeição de juízo moral é, em si própria, a postura irracional no final das contas — afinal, o crime de Epstein é, essencialmente, um crime moral. O financista não era político, mas sobrevivia por meio de políticos e poderosos de vários mercados que, além de consumirem as panelas de sua podridão sexual, por tempos ofereceram a ele proteção e prestígio. Ou seja, em aspectos diferentes, o mal e a política continuam íntimos.

No caso dos genocídios, podemos dizer que o mal político se manifestou de forma ativa; no caso de Epstein, ele se metamorfoseou em uma atitude passiva; quando Hitler aprisionava milhões de judeus e os encaminhavam à morte, o mal se manifestava de maneira objetiva, direta; mas, no caso do bilionário pedófilo, ele se apresentou de maneira subjetiva, sob a forma de proteção e acobertamento dos abusos sexuais de vulneráveis. Nesse caso, o mal claramente prosperou a partir das posturas de comedimento, de relutância em julgar, em medo ou conivência com o mal; são esses cientistas da análise política e jornalistas cínicos que, durante anos, engavetaram inúmeras denúncias sobre a ilha de pedófilos como “teoria da conspiração”.

Pouquíssimos veículos de prestígio deram atenção profunda às vítimas. Virginia Giuffre, uma das principais denunciantes do bilionário, tentou contar sua história diversas vezes, mas enfrentou processos por difamação e descrédito público. Foi apenas com o trabalho investigativo de Julie K. Brown, do Miami Herald, em 2018, que a escala real do abuso e das falhas sistêmicas foi exposta de forma irrefutável.

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Nos primeiros anos em que o nome de Jeffrey Epstein voltou a circular com força nas redes — especialmente entre 2014 e 2018 —, parte relevante da grande imprensa tratou com ceticismo ou desdém as declarações de que ele operava uma rede de abuso envolvendo figuras poderosas, enquadrando muitas dessas discussões como “teorias da conspiração”. Veículos como o The Washington Post publicaram textos associando a viralização do caso a ambientes conspiratórios da internet — uma cobertura de 2019 relacionava o tema a fóruns online e ao ecossistema conspiratório do QAnon —, enquanto a CNN e a MSNBC frequentemente contextualizavam o assunto dentro do debate mais amplo sobre desinformação digital.

Antes da citada reportagem decisiva de Julie K. Brown, o caso permanecia relativamente marginal no noticiário nacional, apesar de já haver registros judiciais públicos. Analistas políticos, jornalistas e demais especialistas mantiveram o caso num limbo informacional; excesso de prudência, compadrio, mera covardia… não sabemos ao certo. Certo é que a própria relutância inicial do, por exemplo, New York Times, em dar destaque investigativo contínuo ao escândalo — contraste marcante com a explosão de cobertura depois da prisão federal de 2019, basta “dar um Google” para checar — reforça a percepção de que, durante anos, denúncias mais amplas sobre redes de influência e proteção institucional foram vistas com suspeita ou enquadradas como exagero especulativo de conspiradores, até que documentos judiciais e investigações formais tornaram tudo incontornável, a dimensão estrutural do caso explodiu sem pena a bolha dos pudorados jornalistas.

Esse é um exemplo elementar sobre como o cinismo tomou conta do Ocidente atual e pôde criar um ambiente propício para que predadores sexuais se sentissem seguros a ponto de criarem uma ilha de abusos de crianças e adolescentes debaixo do nariz de todos, no território de um dos países mais aguerridos na defesa dos valores morais do cristianismo e da liberdade informacional; sim, aquela louvável postura de distanciamento moral, necessária analisar algo de forma coerente assertiva, se transformou por overdose em indiferença, tecnicismo cego e relativismo, incapaz de enxergar até mesmo a maldade mais gritante que está à frente. Eis o perigo de abandonar o julgamento moral em nome de uma neutralidade científica com catarata.

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Em Epstein, por fim, a tríade dos “Ps” se uniu: políticos, poderosos e pedófilos. O que me parece mais sensato agora é deixar de lado a pose de pensador impoluto e, simplesmente, tal como um homem comum com seus olhos funcionais e seu cérebro operante, julgar o fato tal como ele é. Um cientista político e um jornalista arrogante não conseguiriam condenar moralmente nada, pois a moral e o mal não são conceitos que caberiam em seu tubo de ensaio ou gaiola mental; e foi assim, pelos vãos dessa gaiola, passeando de mãos dadas com a política, enquanto os doutores olhavam as moléculas da história com microscópios embaçados, que o todo de uma das organizações de pedofilia mais aberrantes do mundo foi ignorado no seio do Ocidente contemporâneo.

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1 comentário
  1. Marcelo DANTON Silva
    Marcelo DANTON Silva

    São os ENCANTADORES de BURROS!
    Eu, particularmente, ZURRO até hoje por levar à serio o tal João Amoeba.
    Não me perdôo!
    Por isso minha ojeriza atualmente por banqueiros e seus testas de ferro como esses e tantos outros, AMOEBA!
    Tem uns que saem ilesos…mas tem “vorcaros” que se dão mal…mas todos saem milionários.

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