Que frio é esse em plenos “anos mais quentes”? Pois é. Passa ano, entra ano e continuamos a observar o Hemisfério Norte sendo assolado por nevascas, frio intenso e chuvas que ficam por meses. Daí chega o verão, passam-se duas ou três semanas com altas temperaturas e quando fecha o ano aparecem as manchetes dizendo que tivemos “mais um ano dos mais quentes nunca antes vistos”. Para piorar, no Hemisfério Sul, desde 2021, excetuando o ano de 2024 pela presença de El Niño, baixa cobertura total de nuvens e pico solar, boa parte das latitudes médias, às vezes até atingindo a linha tropical de Capricórnio, também foram tomadas por sistemas meteorológicos que mantiveram condições de persistência de baixas temperaturas prolongadas pelos meses do ano, não somente durante o inverno. Em todos os casos, para ambos os hemisférios, a ação dos Anticiclones Polares Móveis (APM) baixaram as temperaturas.
No Brasil, em pleno janeiro de 2026 tivemos as temperaturas derrubadas até a metade da Região Sudeste por um sistema frontal semiestacionário que persistiu com chuvas intermitentes e temperaturas bem abaixo do normal por dias. Tudo isso acontecendo em pleno “aquecimento global” com gente gritando na reunião do Fórum Econômico Mundial. O que já soa estranho para o verão do Hemisfério Sul, não seria para o Hemisfério Norte, pois é seu período de inverno. Contudo, a severidade das massas frias que tomaram vastas áreas continentais foi inegavelmente marcante.
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Lembremos que o inverno do Hemisfério Norte mal começou, próximo da virada do ano, e os noticiários já traziam as informações das baixas temperaturas. As nevascas foram aumentando e tivemos situações bastante inusitadas, até mesmo para regiões em que a normalidade é apresentar quadros meteorológicos de frio severo durante a estação, como é o caso da Rússia. Um exemplo interessante ocorreu nesse país em 20 e 21 de janeiro, quando uma forte nevasca cobriu algumas cidades de neve, especialmente no leste como foi o caso de Yakutsk (Sibéria Oriental). Estima-se que a precipitação total atingiu quase 2 metros de neve no período de 24 horas, mas que no acumulado mais prolongado, alcançou até 3 metros em algumas regiões. Alguns noticiários reportaram que não nevava nesta quantidade desde o final do século 19, período climatológico considerado bastante frio.
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Contudo, vimos verdadeiras montanhas de neve cobrindo até às vezes o terceiro andar de alguns pequenos edifícios. Isso não significa que nevou tudo aquilo, mas sim que se tratou de outro fenômeno bastante conhecido, inclusive com descritor meteorológico e aeronáutico específico: a neve soprada. Neste caso, os fortes ventos assopram a neve que precipita, mas especialmente a que já precipitou e ainda não se aglutinou às demais, forçando-a a seguir um fluxo horizontal. Quando isso ocorre em cidades, as construções podem orientar o fluxo do ar, fazendo a neve soprada se elevar até mais que 2 metros, cobrindo grandes objetos. No caso russo de Yakutsk, por exemplo, observamos que as edificações simétricas de alguns bairros serviram de canalização e algumas estruturas simplesmente barraram o fluxo nival, acumulando-o em uma face das construções.
Claro que no mundo imoral das inteligências artificiais, algumas dessas imagens foram fabricadas. Obviamente são notadas pelos exageros, com prédios inteiros soterrados, mas distintos dos demais. Contudo, outras são verossímeis pela condição descrita acima. Esse caso fez os “checadores” de fatos declararem que tudo era falso, pegando casos específicos de fraudes para abafar os reais. Essa é uma atitude típica daqueles que defendem o discurso climático mentiroso de todas as formas possíveis. O fato é que nem todas são falsas, pois inclusive foram noticiadas em vários veículos de comunicação, incluindo a própria Reuters.
Frio além do Ártico
Mas não só de Rússia vive o inverno. Ainda na mesma semana, outros sistemas meteorológicos oriundos do Ártico atuaram sobre a Europa e América do Norte, deixando vários países em condições bem difíceis. Um dos casos interessantes e também inusitados foi o de Portugal, onde a precipitação de neve é bem mais rara.
No dia 23, Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) prognosticou precipitação de neve nas regiões central e norte do país, mas em cotas de altitude tão baixas como 200 metros apenas. O instituto divulgou como alta probabilidade do limite inferior ficar entre os 200 e 400 metros, o que significou que a linha de zero grau Celsius estava bem baixa e poderia reduzir mais ainda na virada do dia. De fato, na sexta-feira, as temperaturas marcaram apenas 2oC em superfície e, na primeira hora da tarde, houve precipitação de chuva congelada, confirmando a baixa temperatura.
A análise do quadro meteorológico foi bem interessante para o caso português. Um centro de baixa pressão gerou um meso ciclone extratropical ao norte, sobre o Canal da Mancha que se avolumou no decorrer das horas. A circulação de ventos oriunda do oceano intensificou-se na costa portuguesa pela proximidade do sistema meteorológico. Os ventos no interior do mar alcançaram 45 nós (83,3 quilômetros por hora), empurrando o ar úmido para o interior (Fig.1). Ao mesmo tempo, o APM na retaguarda do sistema mais a noroeste fomentou as baixas temperaturas. Como resultado, pancadas de neve e chuva congelada vieram em ondas, seguindo em bandas de nebulosidade distintas (Fig.2 e 3).



Chuva e nevasca
Segundo o IPMA, a última ocorrência de nevasca acentuada nessas condições de baixa altitude aconteceu havia 40 anos. Outra ocorrência levemente similar ocorreu também no norte e centro em 2009, ou seja, há 17 anos, quando diversas vilas e pequenas cidades portuguesas ficaram cobertas por neve entre 10 a 20 centímetros, dependendo da altitude do lugar. Interessante que esse evento mais recente anterior ocorreu em paralelo a várias outras ocorrências, incluindo as verificadas no hemisfério oposto, na Antártida, quando de 2007 a início de 2015 houve grande deposição de neve nas áreas continentais, incluindo região da Antártida Ocidental.
As regiões serranas de Portugal como a Serra de Moradal, em Oleiros, e a Serra das Corgas, em Proença-a-Nova, foram os lugares onde a precipitação de neve foi mais abundante, permitindo maior acumulação, algo que não acontecia desde 2010, novamente, dentro do mesmo período relatado. O Distrito de Viana do Castelo apresentou uma mescla de fenômenos meteorológicos. Foram registradas precipitações de chuva, chuva congelada e neve conforme a variação das temperaturas nos diversos estratos atmosféricos próximos à superfície. A visibilidade horizontal ficou menor que 500 metros a maior parte do dia. A base das nuvens esteve muito baixa, não passando de 100 metros. Em várias ocasiões, verificou-se nevoeiro, o que fez a Defesa Civil portuguesa interditar alguns trechos serranos das estradas.
Vale lembrar que é nesta época do ano que geralmente ocorrem as principais chuvas que carregam as bacias hidrográficas de boa parte da Europa, incluindo Portugal. A região de Barcelos, mais ao sul, recebeu chuvas durante o período, incluindo a versão meteorológica da chuva congelada que é ligeiramente diferente do granizo. Rios como o Cavado que deságuam no oceano Atlântico já estão bem carregados e nos fazem lembrar outro alarde recente quando as “pedras da fome” apareceram em alguns rios da região central da Europa, não sem estarem acompanhadas do discurso terrorista que aquilo era um exemplo do que o “aquecimento global” estava a fazer nas bacias europeias. Puro alarde! (Fig.4).

Na próxima parte abordaremos os transtornos desta onda de frio intenso do Hemisfério Norte e os quadros meteorológicos que atingiram a América do Norte. A situação é tão avassaladora que precisa ser relatada com mais detalhes, pois já a descreveram como a “maior tempestade de inverno dos últimos 40 anos”, ou seja, “curiosamente”, igual ao relato português.
Cadê a Greta ???