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General sênior da China é acusado de repassar segredos nucleares aos EUA

Zhang Youxia também é alvo de acusações de recebimento de suborno

O líder chinês, Xi Jinping, mandou abrir um inquérito contra o general | Foto: Congresso da China

O general mais graduado da China é acusado de ter divulgado informações sobre o programa de armas nucleares do país aos Estados Unidos e de aceitar propinas em troca de atos oficiais, incluindo a promoção de um oficial ao cargo de ministro da Defesa. As informações são do jornal The Wall Street Journal, que ouviu fontes próximas ao processo.

Alguns dos oficiais mais graduados das Forças Armadas repassaram um informativo no último sábado, 24, pouco antes de o Ministério da Defesa Nacional da China anunciar a abertura de uma investigação contra o general Zhang Youxia, de 75 anos. Até então, ele era considerado o aliado militar mais confiável do líder chinês Xi Jinping.

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O comunicado deu poucos detalhes e limitou-se a mencionar uma apuração por graves violações da disciplina partidária e das leis do Estado. Segundo as fontes ouvidas pelo WSJ, porém, a acusação mais chocante foi que Zhang teria feito dados técnicos centrais sobre as armas nucleares da China vazarem aos Estados Unidos.

China nuclear programa
China tem hoje cerca de 600 ogivas | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

O general também está sendo investigado por supostamente formar “panelinhas políticas” — expressão usada para descrever tentativas de criar redes de influência que minam a unidade do partido — e por abusar de sua autoridade dentro do principal órgão de decisões militares do Partido Comunista, a Comissão Militar Central (CMC).

As autoridades também analisam a atuação do general à frente de uma poderosa agência responsável por pesquisa, desenvolvimento e aquisição de equipamentos militares. De acordo com os relatos do informativo, Zhang teria recebido grandes quantias em dinheiro em troca de promoções oficiais dentro desse sistema de compras de alto orçamento.

Parte das evidências contra o general teria vindo de Gu Jun, ex-diretor-geral da China National Nuclear Corp., estatal que supervisiona todos os aspectos dos programas nucleares civil e militar do país. Pequim anunciou, na segunda-feira 19, uma investigação contra Gu por suspeita de graves violações da disciplina partidária e das leis do Estado.

Ogivas atômicas em parada militar na China | Foto: Reprodução/Xinhua

Durante o informativo de sábado, as autoridades afirmaram que a investigação sobre Gu vinculou Zhang a uma falha de segurança no setor nuclear chinês. Detalhes sobre essa violação não foram divulgados.

O WSJ não conseguiu localizar Zhang nem Gu para comentar. Em declaração ao jornal, Liu Pengyu, porta-voz da embaixada chinesa em Washington, disse que a decisão do partido de investigar Zhang demonstra que a liderança mantém uma abordagem de “cobertura total e tolerância zero no combate à corrupção”.

Alguns analistas afirmam que a mais recente ofensiva de Xi contra a corrupção e a deslealdade nas Forças Armadas representa o desmonte mais agressivo da liderança militar chinesa desde a era Mao Tsé-tung.

Trump - sanções - autoridades - chinesas
Estátua de Mao Tsé-tung, fundador da China comunista, na cidade de Kashgar em Xinjiang | Foto: Reprodução

Assim como Xi, Zhang é membro do seleto Politburo, o comitê-executivo da cúpula do Partido Comunista Chinês e um dos chamados “príncipes vermelhos”, descendentes de líderes revolucionários e altos-comandos do partido. O pai do general lutou ao lado do pai de Xi durante a guerra civil chinesa que levou os comunistas ao poder em 1949, e ambos posteriormente ascenderam a cargos elevados.

“Essa medida é sem precedentes na história do Exército chinês e representa a aniquilação total do alto-comando”, afirmou Christopher Johnson, chefe da consultoria de risco político China Strategies Group, ao WSJ.

O informativo interno também relacionou a queda de Zhang à promoção do ex-ministro da Defesa Li Shangfu. Segundo as fontes, o general sênior teria ajudado a alçar Li ao cargo em troca de grandes subornos.

A derrocada de Li começou em 2023, quando ele desapareceu da vida pública e depois foi destituído do cargo. No ano seguinte, foi expulso do partido por corrupção.

china
Xi Jinping, Presidente da República Popular da China discursa no Escritório das Nações Unidas em Genebra. 18 de janeiro de 2017 | Foto: Jean-Marc Ferré/ONU

Investigação de general da China já começou, a mando de Xi Jinping

Em sinal da profundidade da investigação atual, Xi autorizou a criação de uma força-tarefa para conduzir uma apuração minuciosa sobre o período em que Zhang comandou a Região Militar de Shenyang, entre 2007 e 2012. A equipe já chegou à cidade de Shenyang, no nordeste do país, onde optou por se hospedar em hotéis locais, e não em bases militares, onde Zhang teria uma rede de apoio.

As autoridades também já apreenderam dispositivos móveis de oficiais que ascenderam na carreira ao lado de Zhang e do general Liu Zhenli, chefe do Departamento do Estado-Maior Conjunto, cuja investigação também foi anunciada no sábado. Milhares de oficiais ligados a ambos se tornaram potenciais alvos.

A queda de Zhang e Liu amplia o esforço de Xi, ao longo de anos, para expurgar oficiais considerados corruptos ou politicamente pouco confiáveis. “Expurgar até mesmo um amigo pessoal de Xi mostra que agora não há limites para o zelo anticorrupção”, disse Johnson, ex-analista sênior da Agência Central de Inteligência dos EUA.

Demonstração de atuação do Exército chinês | Foto: Divulgação/China

Analistas observam que a opacidade do sistema político chinês dificulta identificar com precisão as motivações de Xi para derrubar um aliado histórico no Exército de Libertação Popular (ELP). As explicações internas dadas à elite do partido nem sempre refletem os reais motivos das decisões.

Ainda assim, um editorial publicado no sábado pelo PLA Daily, jornal oficial das Forças Armadas, indicou o peso de fatores políticos no caso. A publicação acusou Zhang de ter “pisoteado gravemente e minado” a base institucional da autoridade do presidente da CMC — Xi Jinping.

Independentemente das razões, a decisão de Xi de afastar Zhang revela que ele “está confiante na consolidação de seu poder sobre os militares”, disseram analistas ao WSJ. Ao decapitar a estrutura de comando, Xi sinaliza que corrupção endêmica, redes de apadrinhamento e vazamento de segredos de Estado são ameaças existenciais ao seu objetivo de controlar Taiwan.

Xi Jinping e outros líderes posam para foto em grupo com oficiais militares que foram promovidos em Pequim | Foto: Divulgação

Por outro lado, alguns especialistas avaliam que o esvaziamento do alto escalão pode afetar a capacidade de combate e reduzir, no curto prazo, o risco de uma invasão de Taiwan, enquanto Pequim adota uma estratégia mais cautelosa.

Desde o verão de 2023, o partido afastou integrantes do alto escalão do Exército, da Aeronáutica, da Marinha, da força de mísseis estratégicos e da polícia paramilitar, além de comandos regionais importantes. Mais de 50 oficiais militares seniores e executivos da indústria de defesa foram investigados ou removidos nos últimos dois anos e meio.

“A lacuna no topo é insustentável”, afirmou M. Taylor Fravel, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Segundo ele, isso “inevitavelmente afetará a prontidão do ELP para realizar operações militares grandes e complexas no curto e médio prazo”.

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