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EUA: atentado a Reagan mudou a lei no país

Sentença recebida pelo atirador John Hinckley Jr, em 1981, provocou mudanças na legislação relativa à defesa por insanidade

Ronald Reagan presidente EUA 1981
Ronald Reagan acena momentos antes de ser atingido por tiros | Foto: Michael Evans - U.S. National Archives and Records Administration/Wikimedia Commons

Uma paixão marcada pela loucura mudou a legislação dos Estados Unidos a partir de 1981. Naquele ano, no dia 30 de março, o jovem John Hinckley Jr., de 25 anos, deu seis tiros no então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan (1911-2004). A cena ocorreu em frente ao mesmo hotel, o Washington Hilton, em que, neste sábado, 26, Cole Allen, de 31 anos, se preparava para atirar no presidente Donald Trump. Reagan, ao contrário de Trump, foi ferido com gravidade.

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O ataque a Reagan mostrou como a indústria cultural pode influenciar o comportamento de jovens com desequilíbrio emocional. E que a história é feita de acasos. Hinckley desenvolveu uma obsessão por Foster depois de assistir repetidamente ao filme Taxi Driver (1976), dirigido por Martin Scorsese. No filme, o protagonista Travis Bickle (Robert De Niro) planeja assassinar um candidato presidencial para chamar atenção e “salvar” uma jovem prostituta, Iris Steensma, interpretada por Foster.

Hinckley passou a se identificar com o personagem e começou a acreditar que um gesto dramático, como matar o presidente dos EUA, faria Foster, então com 18 anos, prestar atenção nele. O jovem se mudou para New Haven, onde Foster estudava na Universidade Yale. Declarou-se em cartas e telefonemas obsessivos para ela.

Até tentou contato pessoal no campus. Foi rechaçado e a deixou incomodada. A tentativa de assassinar Reagan seria, em sua visão alucinada, uma prova de amor. “Ao sacrificar minha liberdade e talvez minha vida, espero mudar sua opinião sobre mim”, declarou ele, em carta escrita antes do ato.

O episódio deixou marcas na vida de Foster. Mesmo traumatizada, ela foi cercada por jornalistas no campus, teve dificuldade para continuar a vida universitária e passou a viver sob vigilância e preocupação constante com segurança.

Ela, porém, se formou com todas as honras em 1985, em literatura afro-americana. Deu continuidade à sua carreira e se consagrou como uma das maiores atrizes de sua época, ao conquistar dois prêmios Oscar de melhor atriz, em 1988 (Acusados) e em 1991 (O Silêncio dos Inocentes). Curiosamente, nos dois papéis ela tem de lidar com criminosos que praticaram abusos ou atos de violência.

No momento dos tiros, o agente Jerry Parr (1930-2015) percebeu sinais de dificuldade respiratória e decidiu levar Reagan ao hospital. Ele ficou conhecido por salvar a vida do presidente, que se recuperou rapidamente. Levou cerca de um mês para ele retomar as atividades presidenciais.

Nova legislação nos EUA

Hinckley sobreviveu depois da tentativa de assassinato. Assim como Sirhan Bishara Sirhan, que em 1968 assassinou o candidato à Presidência Robert F. Kennedy. Sirhan está preso até hoje. Já Lee Oswald, que assassinou o presidente John Kennedy, em 1963, foi morto dois dias depois, no subsolo da delegacia, em Dallas, por Jack Ruby, um dono de boate local. Ruby justificou o ato com o argumento de que estava indignado.

Leia mais: “Atirador que tentou atingir Trump vira réu e pode pegar prisão perpétua”

Hinckley foi julgado em tribunal federal. Em 1982, o júri concluiu que ele não era penalmente responsável, porque sofria de doença mental grave. O veredicto foi not guilty by reason of insanity (inocente por insanidade). Hinckley passou mais de 30 anos internado no hospital psiquiátrico federal St. Elizabeths, em Washington.

Depois de algumas etapas, em 15 de junho de 2022, Hinckley foi liberado de todas as restrições judiciais. Hoje ele publica vídeos musicais na internet, toca alguns instrumentos, produz pinturas e arte. Lançou uma autobiografia em 2025.

O atirador também já declarou arrependimento pelo atentado. O ato de Hinckley, porém, transformou, em vários aspectos, a legislação norte-americana. A sentença recebida por ele provocou indignação nacional. Como consequência, o Congresso dos EUA aprovou a reforma da defesa por insanidade, que tornou muito mais difícil usar esse argumento em tribunais federais. O testemunho especializado de psicólogos e psiquiatras, sobre a capacidade mental de um réu, também ficou mais limitado.

O atentado deu, ainda, início ao debate a respeito do que hoje é chamado de stalking. Na época, esse tipo de conduta, de perseguição, ainda não era tipificada como crime em grande parte dos EUA. Foi um gatilho que posteriormente ajudou a implementar uma série de leis antistalking. A nova legislação foi criada depois do assassinato da atriz Rebecca Schaeffer, em 1989, por um stalker, Robert John Bardo, então com 19 anos. Ele cumpre pena de prisão perpétua.

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