A captura de Nicolás Maduro, ex-ditador da Venezuela, foi bem ao estilo das forças de elite norte-americanas: eficaz, silenciosa e precisa. Operações desse tipo são conduzidas por unidades especiais dos Estados Unidos (EUA), formadas para missões de altíssimo risco, como captura de alvos estratégicos, contraterrorismo e resgate em território hostil. Entre elas estão a Delta Force, os Navy SEALs, os Rangers e equipes especializadas que atuam de forma integrada com a inteligência norte-americana.
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No caso da Venezuela, a ação do sábado 3 envolveu tropas da Delta Force. A unidade é considerada a mais secreta do Exército dos EUA. A Delta é especializada em operações cirúrgicas, infiltração profunda e captura de líderes inimigos.
A unidade foi criada em 19 de novembro de 1977 pelo coronel Charles Alvin “Charlie” Beckwith, com a colaboração do coronel Thomas Henry. Eles almejavam um núcleo de operações especiais altamente especializado em contraterrorismo e resgate de reféns. Beckwith era veterano das Forças Armadas dos EUA com experiência no Special Air Service (SAS) britânico.
Ele havia defendido por anos a formação de uma tropa semelhante para o Exército norte-americano. Conseguiu, naquele fim da década de 1970, a aprovação para montar o 1st Special Forces Operational Detachment-Delta (1st SFOD-D) em Fort Bragg, Carolina do Norte.
A criação foi motivada por uma percepção: as forças norte-americanas careciam de um grupo com capacidade autônoma para enfrentar o terrorismo internacional de forma rápida e precisa. A estrutura de treinamento e seleção da Delta foi inspirada no rigor do SAS.
Alguns acontecimentos tinham deixado preocupadas as autoridades nos EUA. E ocorreram com israelenses e judeus, principais aliados dos norte-americanos e do mundo ocidental. Foram os casos do Massacre de Munique (1972) e da Operação Entebbe (1976).
Dois anos depois da criação da Delta, em novembro de 1979, ocorreu a crise dos reféns em Teerã. Foi um teste difícil e amargo. Afinal, a chamada Operação Eagle Claw, em 1980, fracassou ao tentar salvar os sequestrados.
Falhas mecânicas e de coordenação levaram ao abortamento da missão e à morte de oito militares, sem a libertação de nenhum dos 52 reféns. A ação enfraqueceu o governo no democrata Jimmy Carter (1924-2024).
Os reféns haviam sido aprisionados por estudantes iranianos na embaixada do EUA. Os terroristas protestavam contra o asilo dado pelos EUA ao ex-presidente iraniano, Xá Reza Pahlevi, depois da Revolução Islâmica iraniana.
Depois da frustrante operação, os EUA abandonaram a opção militar e passaram a negociar indiretamente com o Irã, com mediação da Argélia. O impasse foi encerrado em janeiro de 1981, durante o governo do republicano Ronald Reagan (1911-2004), com os Acordos de Argel, que garantiram a libertação dos 52 reféns, depois de 444 dias de cativeiro.
O fracasso militar, porém, não invalidou a Delta. Pelo contrário. Ele levou a reformas profundas e à criação do Joint Special Operations Command (JSOC), em 1980, estrutura que hoje coordena as forças de elite norte-americanas. A Delta, posteriormente, foi a responsável pela captura dos ditadores Manuel Noriega (entre 1989 e 1990) e Saddam Hussein (2003).
Operação da Delta contra Maduro
A seleção para a Delta ocorre duas vezes por ano, em áreas montanhosas e remotas como Camp Dawson, na Virgínia Ocidental. O treinamento pesado inclui marchas de até 29 quilômetros com carga crescente, navegação sem apoio, provas físicas contínuas e avaliação psicológica extrema. Apenas uma fração dos candidatos avança.
Os aprovados seguem para o Operator Training Course, um curso de cerca de seis meses, realizado em instalações militares em Fort Liberty, na Carolina do Norte. Ali, os operadores são treinados em tiro de precisão, combate urbano, entradas forçadas, infiltração aérea, operações noturnas e sobrevivência.
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O ingresso é restrito a militares experientes do Exército dos EUA, geralmente com anos de serviço, histórico disciplinar limpo e autorização de segurança elevada, segundo dados do Departamento de Defesa e informações compiladas pela enciclopédia militar do Exército norte-americano.
Segundo a agência Reuters, a operação que resultou na captura de Maduro demonstrou este preparo. Levou meses de planejamento e envolveu a CIA, que infiltrou agentes para monitorar a rotina do ditador. A inteligência mapeou deslocamentos, hábitos e os locais onde Maduro passou a se esconder.
Entre os esconderijos estava uma residência dentro do Forte Tiuna, complexo militar altamente protegido no sudeste de Caracas. O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior norte-americano, afirmou que a missão foi batizada de Resolução Absoluta.
Na madrugada da ação, tropas chegaram de helicóptero ao Forte Tiuna e foram recebidas a tiros por militares venezuelanos. Ainda assim, conseguiram furar o bloqueio e avançar até o bunker onde Maduro tentou se refugiar com a mulher, Cilia Flores.
Segundo o presidente Donald Trump, eles não conseguiram fechar a porta a tempo e foram capturados em segundos. No deslocamento de retirada, os norte-americanos voltaram a ser atacados, mas concluíram a missão sem baixas ou soldados feridos, de acordo com declarações oficiais dos EUA reproduzidas pela Reuters.
Depois de levado ao navio de guerra Iwo Jima, Maduro foi transferido para EUA, onde está sob custódia da Justiça norte-americana. Ele e a mulher serão julgados no tribunal federal do sul de Manhattan, acusados de participar, perpetuar e proteger uma “cultura de corrupção na qual poderosas elites venezuelanas enriquecem-se por meio do tráfico de drogas e da proteção de seus parceiros traficantes.”
O Departamento de Justiça já determinou o confisco de bens do casal. A esta altura, os militares da Delta acompanharam à distância a continuidade do caso. Eles já haviam realizado, sem percalços, a sua missão.
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