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Coronavírus — Brasil, Mundo

Como será o mundo pós-pandemia?

coronavirus

Uma lição de casa para os confinados

coronavirus
Foto: Gerd Altmann/Pixabay

Dos inúmeros memes gerados pela pandemia, chama atenção o atribuído a uma bióloga espanhola, sugerindo que convoquemos astros do futebol, como Messi e Cristiano Ronaldo, para providenciar um remédio contra a covid-19. Afinal, argumenta, não é a eles que a sociedade destina as mais polpudas remunerações, enquanto reserva aos cientistas e pesquisadores da saúde retribuição e prestígio infinitamente menores?

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A comparação vale, é claro, para inúmeros outros descompassos nessa questão – como entre ídolos da música pop e médicos da rede pública, ou professores e estrelas de cinema, por exemplo. Sem falar no abismo, aqui no Brasil, entre os políticos e a cúpula privilegiada do funcionalismo e aqueles da base da pirâmide que realmente merecem ser chamados de servidores públicos.

Só que esse disparate, como tantos temas pouco glamorosos como saneamento e desnutrição, por exemplo, não conseguia atrair, até agora, a atenção que merece. Estávamos entretidos demais com debates considerados mais prementes, a exemplo de banheiros transgêneros, apropriação cultural e revisão de livros escolares para adequá-los ao discurso politicamente correto.

Bastou, contudo, o mundo entrar neste inimaginável modo pause para outro vírus, o da reflexão, começar a infectar saudavelmente as mentes. Com milhões de pessoas confinadas, conectadas, e de repente ociosas, surge inescapavelmente a questão: o que é realmente importante na vida? Quais deveriam ser nossas prioridades como indivíduos e sociedade?

Pois, diante da mais absoluta indefinição sobre o que o futuro nos reserva, apenas uma certeza prevalece. O mundo pós-pandemia será diferente do que o que temos hoje. E, embora não tenhamos ideia do como, sabemos que ele está sendo moldado agora, pelas decisões políticas e práticas que serão tomadas e as lições que aprenderemos.

No vasto leque que vai das mais catastróficas distopias até a esperança dos otimistas inveterados, há muita asneira sendo disseminada. Para os ambientalistas, quem está nos castigando com essa lição amarga é a natureza agredida – embora não esclareçam se as epidemias dos séculos passados também podem ser explicadas pela emissão de gases de efeito estufa. Já na visão dos místicos, é o universo que nos obriga a retomar um equilíbrio cósmico supostamente perdido.

Os anticapitalistas apressam-se a culpar a ganância do mercado, que consideram intrinsecamente malévolo, um ente demoníaco, feito as bruxas, e não o reflexo da própria ação humana, organizada de forma livre ao longo da história. Enquanto os brasileiros de bom senso tentam calcular o que os cerca de R$ 80 bilhões desperdiçados na reforma e construção de estádios para a Copa do Mundo e outros tantos zilhões perdidos no ralo da corrupção das últimas décadas comprariam em termos de leitos de UTI e respiradores artificiais.

Felizmente, temos acesso também a mentes brilhantes que sugerem algumas reflexões críticas como lição de casa para a quarentena. Será que o mundo não estava mesmo acelerado, doentio e anacrônico demais? A demandar uma revisão radical de prioridades, paradigmas e práticas?

Vários estudiosos da disrupção digital, como Manuel Castells, Pierre Lévy, Don Tapscott e Peter Diamandis, entre outros, vêm há tempos alertando que ela iria tornar obsoletas quase todas as instituições e sistemas sociopolíticos tradicionais. O trabalho inspirado nas linhas de montagem tayloristas e o ensino pautado no acúmulo de informações, entre outros modelos da era industrial, por exemplo, e até mesmo a democracia representativa, já não fariam mais sentido numa sociedade conectada em rede, que dispensa intermediações e funciona como um grande cérebro coletivo.

Seriam insustentáveis, da mesma forma, o hiperconsumo e a obsolescência programada dos produtos industriais, uma das faces perversas da prosperidade capitalista das últimas décadas, porque geram imenso desperdício de recursos não renováveis e outros impactos ambientais severos.

Ou seja, apesar de seu incalculável custo humano e econômico, que ainda nem conseguimos dimensionar, a pandemia poderia representar uma oportunidade única para tentarmos reinventar, para melhor, o mundo como o conhecemos. Afinal, estamos em meio a uma revolução. E a história ensina que podemos saber como elas começam, mas nunca como terminam.

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14 comentários
  1. miguel Gym
    miguel Gym

    Um maravilhoso texto para pensar,estudar e dividir com os amigos.Tão simples e por isso,genial.Um puxão de orelha e uma profecia.Parabéns!

  2. Luiz Americo Lisboa Junior
    Luiz Americo Lisboa Junior

    A dor ensina a nos portarmos com mais responsabilidade e vigilância diante da vida. Entenda como dor, todas as ações humanas que nos forçam a tomar novos rumos regenerativos, mesmo que ela não nos atinja pessoalmente, ela atinge de modo determinante o coletivo. É um aprendizado, e o resultado da lei de causa e efeito que conduz nossa existência.

  3. Osmar Lanz Filho
    Osmar Lanz Filho

    Acredito que a humanidade possa,a partir desta pandemia passar a agir segundo o espírito que norteou inicialmente a Liga das Nações,ao final da Primeira Guerra e a ONU após a Segunda.
    Infelizmente a natureza humana não vai colaborar para isto.

  4. RAIMUNDO NONATO SILVA
    RAIMUNDO NONATO SILVA

    Desconhecia estes paradigmas em que se dedicam as pessoas relatadas no texto e para onde conduzem a humanidade. Excelente.

  5. Caio
    Caio

    O mundo não vai mudar em absolutamente nada. Até parece que não conhecemos o ser humano.
    No dia em que for decretado o fim da pandemia, as pessoas retomam suas vidas exatamente como deixaram lá atrás. Com todas suas maselas, vícios e virtudes.

    1. Renata
      Renata

      Concordo com você. Os cisnes que voltaram às águas de Veneza que aproveitem. Em breve serão expulsos novamente.

    1. Celia Motta
      Celia Motta

      Faz tempo que alguem precisava escrever sobre esta barbaridade dos altos salarios para quem nao produz nada util como jogadores de futebol , etc. E quem precisa ser endeuzados sao os medicos, pesquisadores que salvam vidas

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