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Brasil, Haiti e os 'velhos adversários'

No sorteio para a Copa do Mundo, Seleção Brasileira enfrentará Marrocos e Escócia, em um novo contexto futebolístico e mundial

Estevão Seleção Brasileira Copa do Mundo
Estevão é o destaque da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo | Foto: rafael ribeiro/CBF

Copa do Mundo e geopolítica sempre caminharam juntas. A própria cerimônia do sorteio dos grupos para o próximo Mundial de futebol, nesta sexta-feira, 5, em Washington, mostrou isso. Foi uma reunião com um peso tão grande ou até maior do que o da última Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

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Para além do cerimonial, porém, o próprio sorteio cria situações que retratam, por meio do futebol, suas respectivas épocas. O Brasil atual tem pela primeira vez, em Copas, um técnico estrangeiro.

Busca se renovar, tendo como destaque o jovem Estevão. Encontrará, porém, velhos adversários nesta nova fase: Marrocos e Escócia. O Haiti também repetirá uma experiência. Em sua segunda Copa, irá novamente enfrentar um campeão mundial.

Em 1974, na primeira e, até agora, única participação da Seleção Haitiana, a equipe teve, pela frente, a então bicampeã Itália. A Copa do Mundo, assim, funciona como uma espécie de espelho do tempo. Por meio das experiências passadas, reflete muito do que mudou no futebol e no próprio contexto de cada país.

Brasil e Escócia são velhos conhecidos nesta competição. A Escócia nunca soube o gosto da vitória diante dos brasileiros. Foram quatro confrontos, em 1974, 1982, 1990 e 1998, com três vitórias brasileiras. O único empate ocorreu em 1974 e já serviu para as críticas sobre a seleção do técnico Zagallo aumentarem.

Mesmo com um time formado por craques como Rivellino, Leão, Paulo César Caju, Marinho Chagas e Luís Pereira, o 0 a 0 amarrado diante dos escoceses aumentou as desconfianças sobre o time brasileiro, que já havia empatado sem gols com a Iugoslávia.

O estilo escocês refletia as dificuldades do país na época, depois do otimismo do pós-guerra e em meio a uma crise econômica e social. Não à toa, comandada por Willie Ormond, a Seleção Escocesa dificultou com seu futebol sem improvisos, duro e forte na marcação.

O atacante Kenny Dalglish, do Celtic Glasgow, era o jogador mais promissor. Brilhou para o mundo quando substituiu o lendário Kevin Keegan no Liverpool, por onde se sagrou campeão europeu em quatro ocasiões (1977, 1978, 1981 e 1984), antes de se tornar treinador do clube.

O Brasil ainda encararia uma Escócia pragmática na Copa de 1982. A Seleção Brasileira de então, refletindo um momento de esperança no país, jogou um futebol leve e bonito, Comandada pelo treinador Telê Santana, envolveu a Escócia que, mesmo tendo aberto o placar, perdeu de goleada: 4 a 1.

Teve até direito a um gol lindo, de “cavadinha”, de Éder, além de jogadas sensacionais comandadas por Sócrates e Falcão, autor do terceiro gol. Zico, em falta magistral, empatara a partida. O segundo gol foi do eficiente zagueiro Oscar, em cabeçada depois de escanteio.

Tempos sisudos, futebol sisudo. Brasil e Escócia voltaram a se encontrar na Copa de 1990, com vitória por 1 a 0 do Brasil. A Escócia tinha jogadores mais técnicos, como Mo Johnson e Roy Aitken, que, no entanto, não conseguiram suprimir o estilo duro da equipe.

Neste jogo, o meio-campista Murdo MacLeod aventurou-se em ficar na barreira na falta que iria ser cobrada pelo lateral Branco. O chute do brasileiro superou os 100km/h e nocauteou o escocês, que foi substituído.

Oito anos depois, uma Escócia mais solta refletia a esperança com a restauração do Parlamento escocês. No entanto, manteve a cautela. Resultado: 2 a 1 para o Brasil, no único jogo em que o meia Giovanni atuou naquele Mundial, muito em função da forte marcação que teve pela frente. O Brasil vivia a empolgação dos anos do governo de Fernando Henrique Cardoso, que havia controlado a inflação.

A primeira disputa com o Marrocos ocorreu também em 1998. Depois de ter participado do Mundial de 1986, a Seleção africana sentiu que poderia ir além. O país vivia um momento de maior abertura, com o regime opressor de Hassan II dando sinais de modernização, sem abrir mão do poder central.

O time já tinha jogadores criativos como Hadda, Chippo e Hadji, este último companheiro de dois ídolos brasileiros, no La Coruña, da Espanha: o habilidoso Djalminha e o artilheiro Luizão.

Os três marroquinos fizeram a equipe jogar mais solta. Venceu a Escócia por 3 a 0. Diante de um Brasil inspirado, com Ronaldo em ascensão, foi derrotada por 3 a 0. O entusiasmo da juventude marroquina era tão grande que atingiu níveis de violência.

Sentindo-se prejudicados pelo Brasil, que perdeu por 2 a 1 para a Noruega, o que desclassificou o Marrocos, torcedores do país cercaram um McDonald´s na Champs-Élysées, em Paris, no qual estavam brasileiros, tentando agredi-los. Foram contidos pela polícia francesa.

Haiti na Copa do Mundo

Já o Haiti é um caso emblemático. Em 1974, a Copa serviu para dar visibilidade a este país pobre do Caribe. Nas Eliminatórias, o time superou o México, que havia sediado o Mundial anterior.

Em meio ao regime ditatorial de Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier (que sucedera seu pai, François “Papa Doc”), a população sentiu orgulho do feito da seleção. O time perdeu os três jogos. Na partida contra a Itália, porém, fez seu único gol, marcado pelo atacante Emmanuel Sanon. O feito é reverenciado até hoje.

Leia mais: “Conheça os 12 grupos da Copa do Mundo de 2026”

As seleções de Brasil e Haiti já se encontraram em um momento que, para os haitianos, foi tão grandioso quanto uma Copa do Mundo. Ocorreu no amistoso de 2004, em Porto Príncipe. A Seleção Brasileira fez uma viagem de caráter diplomático, com infraestrutura militar, para jogar em meio a uma grave crise no país.

Naquele ano, o Haiti estava mergulhado em violência e instabilidade depois da queda de Jean-Bertrand Aristide (2001-2004). Gangues e milícias se espalhavam pelas cidades e traziam um clima de ameaça e violência à vida precária da população.

O jogo serviu como um sinal de esperança. Os jogadores brasileiros, desfilando em um tanque, foram ovacionados por uma multidão ensandecida.

A ONU criara a missão de estabilização da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), e tropas brasileiras estavam no país. A Minustah estava sob o comando do general Augusto Heleno, que foi ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República. Ele ocupou o cargo de 2019 até 31 de dezembro de 2022 e hoje está preso sob a acusação de participar de uma suposta trama golpista.

O Brasil venceu por 6 a 0, em um estádio pequeno, abarrotado, quase sem infraestrutura. Houve ainda um espetáculo de Ronaldinho Gaúcho, que marcou três gols, um deles vindo de uma sequência de dribles, com um girozinho, que fez a multidão comemorar um gol contra sua própria seleção — em nome do futebol e da necessidade de um país encontrar um pouco de beleza e alegria.

Nesta Copa do Mundo de 2026, o Haiti retorna mais reforçado. Já conta com jogadores que atuam na Europa, como Jean-Ricner Bellegarde (do Wolverhampton Wanderers) e Hannes Delcroix (defensor do Burnley F.C), na Premier League. A instabilidade, a pobreza, os desastres naturais e a violência continuam.

Ainda assim, uma coisa mudou: a emigração cresceu. Vários jogadores, por isso, puderam ser descobertos em outros países. O que, assim como ocorre com jogadores na África, os fez serem vistos como símbolos de superação pela população. Por meio do futebol.

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