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A Turquia se impõe ao Oriente Médio

O país torna-se um ator regional enquanto evidencia sua hostilidade a Israel e seu apoio ao Irã

Recep Tayyip Erdogan turquia
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan | Foto: Reprodução/ X

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Antes da invasão do Hamas ao sul de Israel em outubro de 2023, especialistas já alertavam sobre a crescente hostilidade da Turquia, liderada por Recep Tayyip Erdoğan, que buscava reconstruir o Império Otomano e se distanciava de Israel. O comércio entre os países diminuiu, e a Turquia passou a barrar navios israelenses, enquanto Erdoğan intensificava seus ataques verbais contra o sionismo.

Há anos, muito antes da invasão do Hamas ao sul de Israel, em outubro de 2023, e dos vários conflitos que se seguiram, especialistas em segurança israelenses já alertavam para a crescente belicosidade da Turquia. Naquela época, porém, era difícil para a população israelense enxergar essa ameaça, uma vez que Ancara havia se consolidado, durante décadas, como a principal aliada regional de Israel.

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O alerta não era aleatório. O presidente Recep Tayyip Erdoğan já dava sinais de seus planos megalômanos — entre eles, o de reconstruir o Império Otomano, tendo a si próprio como líder — e demonstrava, nas entrelinhas, sua falta de apreço por Israel. Ao longo dos anos, seu posicionamento recrudesceu, e o comércio entre os dois países, antes bastante intenso, começou a encolher. Israel passou a ser alvo constante de seus discursos, quase sempre em tom de confronto.

Dos mercados aos céus

Os israelenses sentiram essa mudança a começar pelas gôndolas dos supermercados, quando os produtos turcos começaram a rarear, e, depois, nas opções de rotas aéreas. A Turquia, que durante anos funcionou como o principal hub aeroviário para as viagens de israelenses ao Ocidente, tornou-se um destino marginal.

Esse espaço foi, em grande parte, ocupado pelos Emirados Árabes Unidos, que passaram a oferecer diversos voos diários e demonstraram resiliência durante a longa guerra enfrentada por Israel. As companhias aéreas emiradenses foram as últimas a suspender os voos quando os céus se tornavam instáveis e, repetidamente, as primeiras a retomá-las sempre que as condições de segurança permitiam.

Pró-Irã e antissionista

Nos últimos anos, Ancara passou a barrar navios israelenses em seus portos. Os ataques de Erdoğan a Israel tornaram-se rotineiros. O líder turco declarou repetidas vezes que seu país “está em guerra contra o sionismo”, definido por ele como uma “ideologia que ameaça todo o mundo”.

Em resposta, o Ministério da Defesa e as Forças de Defesa de Israel (FDI) passaram a acompanhar com crescente atenção a atuação turca em território sírio, considerada por autoridades israelenses mais próxima e mais intensa do que seria estrategicamente desejável. Na avaliação de setores da segurança israelense, essa aproximação pode representar a formação de um novo proxy alinhado aos interesses de Ancara na fronteira norte de Israel.

Se há algo que Israel não deseja, nem precisa, é ver a Turquia estabelecer uma presença militar permanente junto às suas fronteiras.

A resposta israelense

A reação do governo israelense ocorreu no campo político. No dia 28 de junho, o Parlamento de Israel reconheceu oficialmente o genocídio armênio perpetrado pelo Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial. Trata-se de um dos temas mais sensíveis para o governo turco — razão pela qual sucessivos governos israelenses evitaram formalizar esse reconhecimento, preservando as então boas relações bilaterais.

O massacre de aproximadamente 1,5 milhão de armênios entre 1915 e 1917 é considerado por historiadores o primeiro genocídio do século 20. “Nunca é tarde para fazer a coisa certa”, declarou o ministro das Relações Exteriores, Gideon Saar, autor da resolução.

Longe da mídia

Apesar da crescente influência da Turquia no já conturbado Oriente Médio, o país tem conseguido permanecer relativamente distante das manchetes internacionais. Como segunda maior força militar da OTAN, Ancara dispõe de capacidade significativa para projetar poder na região. Quando se dirige ao público árabe, Erdoğan costuma reforçar seu discurso contrário a Israel e de aproximação com o Irã.

Nas relações com Donald Trump, por enquanto, o presidente turco tem adotado um tom mais moderado. Ainda assim, demonstrou capacidade de influenciar diretamente a dinâmica regional ao impedir, no início deste ano, que forças curdas ingressassem no Irã para combater a Guarda Revolucionária, frustrando um plano que, segundo avaliações estratégicas, poderia ter contribuído para desestabilizar o regime iraniano.

Mais do que mais um ator de peso no conturbado Oriente Médio, a Turquia está abertamente expandindo sua influência, a qual combina poder militar, protagonismo diplomático e retórica ideológica. Enquanto a atenção internacional permanece concentrada nos conflitos mais imediatos, a movimentação de Erdoğan é acompanhada com crescente preocupação por Israel. Para o país, a Turquia poderá, em breve, tornar-se mais um elemento a pesar no equilíbrio estratégico futuro do Oriente Médio.

Leia também: “Israel: ataques de 7 de outubro completam mil dias”

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