“A China é um produto da revolução liderada pelo presidente Mao [Tse Tung] em 1949. Esse partido na China tem poder e um governo forte. Quando tomar decisões, o povo respeitará essas decisões. Isso é algo que não temos no Brasil” (Luiz Inácio Lula da Silva, junho de 2021)
Em meio ao grande escândalo da política brasileira atual — a alta probabilidade de que o pseudo-juiz que tem governado o país com mão de ferro faça parte da “Turma” do mafioso Daniel Vorcaro — certos movimentos geopolíticos passam quase despercebidos. Um relatório recente produzido para o Congresso dos Estados Unidos chama atenção para um desses movimentos: a crescente presença da China na infraestrutura espacial da América Latina.
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Publicado por um comitê especial do Congresso norte0americano dedicado à disputa geopolítica entre os EUA e a China, e intitulado “Pulling Latin America into China’s Orbit” (“Atraindo a América Latina para a órbita da China”, em tradução livre), o documento mostra que o gigante asiático vem construindo uma rede crescente de instalações espaciais na região: antenas de rastreamento, estações de comunicação com satélites, telescópios e centros de monitoramento orbital. Na superfície, trata-se de projetos científicos perfeitamente respeitáveis, apresentados como cooperação tecnológica ou intercâmbio acadêmico. O detalhe, como sempre, está no contexto.
Nas democracias liberais, a ideia de ciência como empreendimento relativamente autônomo — com pesquisadores livres para investigar fenômenos naturais sem imediata subordinação a objetivos militares ou políticos — ainda conserva algum sentido. Na China comunista, esse conceito simplesmente não existe.
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Atrás da Grande Muralha tecnológica erguida pelo Partido Comunista Chinês, não há separação real entre laboratórios civis e complexos militares. Universidades, institutos de pesquisa e empresas tecnológicas fazem parte de um mesmo sistema estatal disciplinado pelo partido. Ali, o cientista não é um ermitão de laboratório em busca da verdade desinteressada, mas um quadro funcional de um projeto nacional de poder.
A lógica chinesa
Essa lógica está longe de ser um segredo. Ela aparece formulada com clareza no Capítulo 78 do 13º Plano Quinquenal (2016–2020) do Partido Comunista Chinês, sob o título revelador de “Integração do Desenvolvimento Civil e Militar”. O texto descreve explicitamente a fusão entre pesquisa científica civil e aplicações militares — um modelo conhecido na literatura estratégica como military-civil fusion (fusão civil-militar).
À luz desse princípio, a proliferação de infraestrutura espacial chinesa pelo mundo — inclusive na América Latina — adquire um significado bem menos inocente.
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O Brasil aparece no relatório como um dos pontos dessa rede. O documento identifica ao menos dois projetos de alto valor estratégico. O primeiro é a Tucano Ground Station, estabelecida em 2020 como uma parceria entre a startup brasileira Ayla Nanosatellites e a empresa chinesa Beijing Tianlian Space Technology, ligada ao complexo aeroespacial estatal de Pequim. A estação fornece comunicações de longa duração entre satélites e solo — inclusive para satélites de reconhecimento — e envolve acordos de intercâmbio de dados operacionais entre as redes de antenas de ambos os países.
Mais interessante ainda é que o projeto inclui memorandos com o departamento tecnológico da Força Aérea Brasileira para treinamento militar em simulação orbital e uso de antenas da Aeronáutica como redundância operacional. Em termos claros: trata-se de um arranjo que permite à China observar — e potencialmente influenciar — a doutrina espacial militar brasileira, enquanto estabelece uma presença permanente em território nacional.
O outro projeto no Brasil
O segundo projeto é o China-Brazil Joint Laboratory for Radio Astronomy Technology, instalado em Serra do Urubu, na Paraíba, em parceria com a Universidade Federal de Campina Grande e a Universidade Federal da Paraíba. O laboratório se conecta ao projeto internacional Bingo (acrônimo de Baryon Acoustic Oscillations from Integrated Neutral Gas Observations), um radiotelescópio atualmente em construção em São Paulo e destinado a operar no sertão paraibano.
À primeira vista, nada mais inocente: cosmologia, ondas de rádio, observação do hidrogênio primordial. O detalhe inconveniente é que o parceiro chinês — o China Electric Science and Technology Network Communication Research Institute — integra diretamente a base industrial de defesa da China. As tecnologias de observação profunda e análise espectral empregadas nesses sistemas têm aplicações óbvias em inteligência eletrônica, rastreamento de satélites e guerra eletromagnética.
Tomados isoladamente, os projetos poderiam ser interpretados como cooperação científica rotineira. E, por óbvio, esse será o argumento do Itamaraty caso pressionado. O problema é que, no caso brasileiro, eles se inserem em um contexto político mais amplo que raramente entra na análise.
Relação do PT com os comunistas de Pequim
Há décadas o Partido dos Trabalhadores mantém relações institucionais regulares com o Partido Comunista Chinês. Delegações partidárias, seminários conjuntos e intercâmbio entre fundações políticas fazem parte dessa relação. Paralelamente, os governos petistas transformaram a aproximação estratégica com Pequim em um dos pilares de sua visão de ordem internacional “multipolar”.
Nesse cenário, iniciativas tecnológicas e científicas não são apenas programas de pesquisa: tornam-se instrumentos de uma estratégia de alinhamento geopolítico gradual. Naturalmente, tudo isso é apresentado sob a forma elegante da cooperação bilateral — ciência, inovação, intercâmbio acadêmico. Mas quem observa o quadro mais amplo percebe que há algo mais em jogo.
Infraestruturas tecnológicas nunca são neutras. Elas criam redes, dependências e padrões de integração que, com o tempo, produzem consequências políticas e estratégicas. Antenas que hoje transmitem dados científicos podem amanhã integrar sistemas mais amplos de comunicação e monitoramento.
O relatório norte-americano não prova nenhuma conspiração secreta. O que ele revela é bem mais simples — e mais assustador: a expansão tecnológica chinesa na região ocorre em perfeita sintonia com uma orientação política que, no Brasil, vem sendo cultivada há décadas.
Trata-se de uma escolha. Uma escolha geopolítica deliberada — cuidadosamente embrulhada na linguagem asséptica da “cooperação tecnológica”. Enquanto o boquirroto mandatário brasileiro exibe seu orgulho provinciano de participar de projetos científicos internacionais, Pequim acumula peças de uma infraestrutura estratégica global. E os EUA, por sua vez, observam tudo de perto, às vésperas de uma anunciada reunião entre Donald Trump e o Descondenado-em-chefe.
Leia também: “China avança no Oriente Médio”, artigo de Eugenio Goussinsky publicado na Edição 311 da Revista Oeste







































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