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A fatura da hospitalidade

Como a imigração influencia a política interna europeia — e, por consequência, a atuação dos países no conflito com o Irã

A maioria dos sírios que buscaram refúgio na Europa estabeleceu-se na Alemanha em 2015, no auge da guerra civil síria | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial
A maioria dos sírios que buscaram refúgio na Europa estabeleceu-se na Alemanha em 2015, no auge da guerra civil síria | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial

Na semana passada, Donald Trump voltou a usar o X para criticar uma decisão de Emmanuel Macron. “A França não permitiu que aviões carregando equipamentos militares para Israel passassem por seu espaço aéreo e não está sendo cooperativa, de forma alguma, em relação ao açougueiro no Irã que eliminamos com sucesso”, escreveu o presidente norte-americano. “Os Estados Unidos não se esquecerão disso.”

As estocadas no presidente francês tornaram-se rotina na Casa Branca. Começaram, na verdade, antes da atual escalada com o Irã, uma vez que o governo Macron manteve uma política de contenção também em relação a outros personagens nefastos dessa longa guerra no Oriente Médio, como o Hamas e o Hezbollah.

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Eleição e geopolítica

Há duas motivações conhecidas para o posicionamento do presidente francês. A primeira é eleitoral, uma vez que, hoje, há cerca de 7 milhões de muçulmanos vivendo na França. É uma minoria que está crescendo rapidamente: da proporção de 0,5% em 1985, hoje soma entre 7% e 10% da população.

A segunda motivação é financeira e geopolítica, aparentemente ligada ao fornecimento de energia proveniente do mundo árabe. A estratégia parece estar funcionando: prova disso é que navios franceses estavam entre os poucos autorizados pelo regime iraniano a navegar, na semana passada, pelo Estreito de Ormuz, ao lado de embarcações indianas, paquistanesas e turcas — uma concessão curiosa, para dizer o mínimo.

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Seria possível observar essa situação sem assombro caso a França não enfrentasse, dentro de seu próprio território, problemas sérios associados à crescente ligação com o universo islâmico mais radical. Entre eles, destacam-se a insegurança nas ruas, a influência sobre bairros inteiros de grandes cidades e o fortalecimento da “extrema direita” como reação de parte da população local.

A França não está sozinha nesse dilema. A Alemanha, que enfrenta desafios semelhantes, tenta agora corrigir o rumo.

Correção do rumo

Foi comovente assistir a uma entrevista coletiva, transmitida recentemente pela TV alemã, em que o chanceler Friedrich Merz anunciou seu plano para promover o retorno de refugiados sírios estabelecidos na Alemanha ao seu país de origem. “Até 80% deles poderão retornar para casa nos próximos três anos”, afirmou, tendo a seu lado o atual presidente da Síria, Ahmed al-Sharaa, que mais tarde não confirmou o otimismo do chanceler alemão.

Merz pediu prioridade para a repatriação de sírios em situação irregular, especialmente os envolvidos em atividades criminosas. Também sugeriu a al-Sharaa a criação de campanhas de incentivo ao retorno. O presidente sírio respondeu, destacando a importância de obter ajuda financeira para que isso aconteça — visitar países ocidentais em busca de fundos tem sido sua principal missão neste início de governo.

É uma cena que, embora pareça razoável para alguns, soa pouco realista para outros. Afinal, é difícil imaginar que mais de 1 milhão de sírios decidam espontaneamente, após mais de uma década, abandonar a Alemanha para reconstruir a vida na Síria — um país que ainda enfrenta desafios significativos de estabilidade e desenvolvimento.

A Alemanha é outro país da Europa Ocidental que, assim como seus pares, optou por se afastar da guerra contra o Irã. Em outro de seus tuítes, Donald Trump não escondeu sua irritação: “Os EUA reconstruíram a Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, e agora ela nos diz que esta não é a sua guerra”.

“Mama Merkel”

A maioria dos sírios que buscaram refúgio na Europa estabeleceu-se na Alemanha em 2015, no auge da guerra civil síria. A então chanceler Angela Merkel tomou, naquele ano, a decisão de não fechar as fronteiras para cerca de 1 milhão de pessoas. A frase “nós saberemos lidar com isso” transformou-se em um slogan e foi, ao mesmo tempo, um gesto humanitário e um incentivo indireto à imigração em massa.

Não demorou a surgir uma reação política interna, com o fortalecimento de partidos de ultradireita que ganharam espaço com uma plataforma anti-imigração. Essa é, aliás, uma reação comum em todos os países que recebem grandes fluxos migratórios de forma desordenada: parte da população tende a se radicalizar, aprofundando divisões internas que antes eram menos evidentes.

O caso da Polônia

A questão migratória tornou-se central na política europeia e provoca debates intensos. O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, é uma das vozes mais firmes nesse debate e não hesita em defender a política de fronteiras rígidas adotada em seu país. “A Polônia é para poloneses”, repete.

O país, ao lado da Hungria e da República Tcheca, resiste às propostas de redistribuição de imigrantes aprovadas pela União Europeia. Tusk cita o exemplo alemão para justificar sua posição: “Na Alemanha, 200 mil dos 1 milhão de refugiados desapareceram. Ninguém sabe onde estão, quem são ou o que fazem. Esse sistema falhou e compromete nossa segurança”.

Ao final, o que se observa é que a imigração deixou de ser apenas uma questão humanitária para se tornar um fator decisivo na política interna europeia, com impactos diretos na forma como esses países se posicionam em conflitos internacionais, como o embate com o Irã.

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1 comentário
  1. Urias Roberto da Silva
    Urias Roberto da Silva

    É tolice admitir imigrantes sem a contrapartida deles adotarem a cultura local.

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