Durante o período militar, a censura era amadora. Para o leitor ter uma ideia, foi só em 1974, dez anos depois do início do regime, que se organizou o primeiro concurso público para técnicos de censura, que antes disso era exercida por policiais estaduais deslocados de suas funções e funcionários públicos nomeados por indicação (incluindo esposas de militares e ex-jogadores de futebol). Obviamente, tratava-se de um pessoal incapaz de compreender as sofisticadas estratégias de guerra cultural então movidas pela esquerda revolucionária no Brasil e no mundo, e que, portanto, só podia reagir na base do pânico moralista. Reza a lenda que alguns censores chegaram a proibir O Vermelho e o Negro, de Stendhal, por associarem o rubro do título ao comunismo. E que outros teriam recomendado à polícia sair pelas ruas de São Paulo atrás do perigoso dramaturgo comunista de nome Sófocles… Sim, ele mesmo, o grego, morto 20 séculos antes.
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De 1974 a 1985, quando ocorreu o último concurso para o cargo, não mais que 300 censores concursados estiveram em atuação em todo o território brasileiro. Embora o nível do pessoal tivesse melhorado um tanto, a incompetência continuou a ser, no geral, a marca registrada. Como contou certa vez o dramaturgo comunista Dias Gomes, um dos alvos preferenciais do regime:
“O Bem-Amado era uma pequena janela aberta no paredão de obscuridade construído pelo regime militar. Não que a censura não percebesse e não mutilasse os textos, mas tinha certa dificuldade em fazê-lo, já que os censores não primavam pela inteligência […] Eram realmente brilhantes nossos censores. Tanto quanto seus superiores, como prova o memorando enviado pelo folclórico general Bandeira, [diretor] da Polícia Federal, e que me foi mostrado pelo próprio chefe da censura, Wilson Aguiar: ‘Recomendo a todos os censores ler com especial cuidado os textos do sr. Dias Gomes, linha por linha e principalmente nas entrelinhas’”.
Eis por que, no Brasil, seja relativamente comum que artistas e intelectuais vítimas da censura dos militares se refiram a ela nesses termos jocosos, comentando, bem-humorados, suas táticas para burlá-la. No fim das contas, o “paredão de obscuridade” de que fala Dias Gomes não parece ter sido assim tão espesso.
Exemplares disso são os depoimentos dos cartunistas Ziraldo e Jaguar sobre a censura ao Pasquim. Ao falarem do assunto, os dois fundadores do célebre semanário pareciam recordar até com alguma dose de nostalgia sua relação com os censores. A respeito de Marina de Almeida Brum Duarte, a primeira censora do jornal, por exemplo, Ziraldo observou:
“Havia uma relação cordial com a primeira censora destacada para cuidar do Pasquim. Dona Marina recebia os jornalistas em casa, oferecia café e discutia os cortes: ‘Não, isso aqui não convém sair, não. Vamos tirar isso… Não, vocês não vão fazer eu perder meu emprego’”.
E Jaguar comentou o seguinte sobre a mesma personagem:
“Nós descobrimos que [ela] tinha um ponto fraco: gostava de beber. Todo dia a gente botava uma garrafa de scotch na mesa dela e depois da terceira dose ela aprovava tudo. Resultado: foi despedida […] No lugar dela entrou o general Juarez Paz Pinto, excelente figura humana. Já aposentado como general, ele recebia a gente em uma garçonnière, debaixo de um enorme retrato de Brigitte Bardot com os peitos de fora”.
Contrastando com essa atitude zombeteira diante de uma censura que era mais ridícula que brutal — e que, ao contrário de impedir, o que fazia era excitar a energia criativa dos censurados —, os dissidentes dos regimes comunistas no Leste Europeu, na Ásia ou em Cuba costumam referir-se à censura sofrida num tom completamente diferente. Seus depoimentos são quase unânimes em descrever um sentimento de paralisia criativa e interiorização da censura, uma espécie de autocastração do espírito. Como sugeriu o historiador russo Mikhail Gefter, a terrível eficácia do poder soviético residia “no stalinismo que penetrou em todos nós”.
Obviamente, o que se vive no Brasil de hoje é uma censura do segundo tipo. Trata-se de uma censura não apenas internalizada, como até mesmo, por parte de alguns, exercida de modo deliberado e servil. Mais realistas que o rei, há censurados que se adiantam e calam a boca preventivamente, de modo a não incomodar o regime.
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Foi o que se viu há alguns dias na GloboNews, quando, durante a fala do jornalista Valdo Cruz — que comentava os elevados índices de aprovação do governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro, depois da operação policial no Complexo do Alemão —, a audiência pôde ouvir, em áudio vazado, uma voz perguntar. “Algum problema de falar disso, Vivi?”.
Tratava-se, provavelmente, da voz do apresentador que perguntava à produtora se a pauta poderia ser inconveniente. A quem? Ao regime PT-STF, obviamente. No futuro, caso os envolvidos nesse jornalismo pusilânime e sabujo recobrem a consciência, provavelmente não recordarão com humor desse período. Em vez disso, o sentimento será o de vergonha — uma vergonha avassaladora. Ao contrário dos de Ziraldo e Jaguar, decerto não teremos relatos leves e divertidos sobre a dona Marina ou o seu Juarez. E Dona Vivi, a censora interna, a responsável por zelar pela colaboração voluntária com o regime, terá seu nome pronunciado com um travo amargo na boca…
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Impressionante. Ou não?