Bastaram 90 minutos para que toda a devoção em relação a Carlo Ancelotti se transformasse em desconfiança. O empate contra a forte seleção de Marrocos serviu para colocar o treinador em uma posição similar à de qualquer técnico da Seleção.
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De Super-Man, ele se tornou Clark Kent e não escondeu sua irritação na entrevista. Um complemento da insegurança que, naturalmente, demonstrou ao escalar a equipe, na experiência em que, creio eu, ele mais se sentiu pressionado em sua carreira.
Isto não quer dizer, porém, que toda a capacidade de Ancelotti, outrora reverenciada, se desfez com o 1 a 1 e a impressionante postura aberta e confusa da Seleção nos primeiros minutos. Ancelotti, com toda a sua bagagem, parecia não perceber que, novamente, o meio-campo estava inoperante em termos de marcação, com apenas dois jogadores, assim como ocorreu nas Copas do Mundo de 2014, 2018 e 2022.
Em setembro de 2025, no Maracanã, contra o Chile, essas falhas defensivas já eram evidentes. Em uma jogada, o goleiro Vigouroux lançou Díaz, que chegou livre, sem marcação, e driblou Alisson. Mesmo ele estando impedido, quem viu a jogada imaginou na hora que Ancelotti iria utilizá-la como modelo para que esse tipo de erro não se repetisse. Logo depois, Cepeda surgiu livre, nas costas dos volantes e diante dos zagueiros em linha, e finalizou mal.
Tais erros não foram corrigidos. No amistoso contra o Egito, ocorreram quase da mesma maneira. No primeiro tempo, o meio estava desguarnecido. Marquinhos tocou para trás, errado, e Ziko entrou livre para fazer o gol egípcio.
Depois do susto contra o Marrocos, a tendência, pelo histórico de Ancelotti, é de que ele finalmente ligue uma coisa à outra e se dê conta de seus equívocos. Não se pode dizer que o Brasil selou, com essa atuação, mais uma eliminação em Copas do Mundo. Muita coisa ainda pode e deve acontecer.
A Seleção tem capacidade para se reerguer, como demonstrou, inclusive, contra o próprio Marrocos quando, mesmo pressionada e em desvantagem, não se intimidou e tentou se recuperar. Este jogo, inclusive, pode ser muito útil nas partidas decisivas.
Isso, no entanto, não desfaz os equívocos de Ancelotti nesta partida. Eles ocorreram desde a escalação, quando Igor Thiago entrou como titular e, em campo, não cumpriu suas funções de procurar as jogadas, servir de pivô e finalizar com precisão. Muitas vezes ele era facilmente marcado pelos zagueiros e, quando voltava para buscar jogo, não tinha tanta utilidade, por não ter como característica o toque de bola.
Casemiro e Bruno Guimarães também não tiveram a sincronia necessária. Não sabiam a hora de avançar, de voltar e, principalmente, de fechar os espaços para os inteligentes meias marroquinos, a começar pelo jovem Ayyoub Bouaddi, de 18 anos, que controlou o jogo.
Paquetá foi importante para a Seleção Brasileira
O maior acerto de Ancelotti no primeiro tempo foi ter invertido Paquetá, para a esquerda, com Raphinha, que foi para a direita. Paquetá estava bem e soube ajudar a cobrir as investidas de Brahim Díaz. Com a bola, era o único que tinha lucidez para procurar as jogadas.
Outro ponto fraco foi a dificuldade de Ibañez em guardar mais a posição e ajudar o meio a não ficar tão vulnerável. Sem contar o posicionamento em linha de Marquinhos e Gabriel Magalhães.
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No segundo tempo, Ancelotti também acertou ao colocar Danilo e Fabinho, que foram bem e ajudaram a fechar os espaços. O Marrocos parou de atacar.
No entanto, na segunda substituição, ele errou novamente ao tirar Paquetá, mesmo com a correta entrada de Danilo Santos, e deslocar Raphinha para o ataque. Ele não tem estilo para ser o falso nove. Dois lances mostraram isso: em um, Raphinha foi lento e perdeu a antecipação; em outro, quando o zagueiro Riad atrasou mal e ele, sem explosão, não alcançou a bola. Endrick se encaixaria muito melhor naquele momento.
Há tempo para mudar. O empate não foi de todo um mau resultado.
Ancelotti, porém, terá de ter flexibilidade para corrigir o rumo a tempo e não fazer como outros treinadores brasileiros em momentos de pressão. Não pode cair na mesma armadilha da teimosia que se confunde com convicção.
Fabinho, Danilo Santos e Endrick, principalmente, pedem passagem.
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