publicidade
Economia

Taxa de juros completa 3 anos acima de 10%

A Selic deve fechar 2025 em 15% ao ano, o maior patamar desde 2006

Comitê de Política Monetária do Banco Central divulgou nova taxa de juros nesta quarta-feira, 20 | Foto: Divulgação/BCB
Comitê de Política Monetária do Banco Central divulgou nova taxa de juros nesta quarta-feira, 20 | Foto: Divulgação/BCB

A taxa básica de juros do Brasil completou três anos em um patamar acima de dois dígitos — ou seja, igual ou superior a 10% ao ano — em fevereiro. A Selic deve seguir nesse nível por mais dois anos, no mínimo, de acordo com as projeções dos agentes financeiros. 

Caso a projeção se confirme, o juro base vai completar cinco anos acima de dois dígitos. Seria o segundo maior período da Selic acima de 10% no século 21. A última vez que a taxa de juros esteve abaixo desse nível foi em fevereiro de 2022, quando o Banco Central subiu o nível de 9,25% para 10,75%. 

Receba nossas atualizações

+ Leia mais notícias de Economia em Oeste

Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em 29 de janeiro, a autarquia aumentou a Selic novamente, em 1 ponto porcentual, para 13,35% ao ano. Foi o quarto reajuste consecutivo na Selic, e o Copom já prometeu um novo aumento de mesma magnitude para a reunião de março. 

Taxa de juros completa 3 anos acima de 10%, sem previsão de queda abaixo desse nível até 2028
Foto: Reprodução/Poder360

A expectativa do mercado é que a taxa básica de juros do país feche o ano a 15%, segundo o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, 10. Seria o maior patamar desde 2006. De acordo com a mediana das projeções dos agentes de mercado, a Selic deve voltar a 10% apenas no final de 2028. 

Em paralelo, as expectativas de inflação sobem. A projeção para o IPCA em 2025 registrou alta pela 17ª semana consecutiva no Boletim Focus, para 5,58% ao fim do ano. A alta generalizada dos preços tem assombrado os números do crescimento econômico do Brasil. 

O aumento da Selic e o desempenho da economia

Os anos de aumento dos juros coincidem com um desempenho positivo da atividade econômica do Brasil. O Produto Interno Bruto (PIB) do país subiu 3% em 2022, 3,2% em 2023 e, de acordo com as projeções do mercado, 3,5% no ano passado. 

Já o estoque de crédito cresceu 14,5% em 2022, 8,1% em 2023 e 10,9% em 2024. 

Foto: Reprodução/Poder360

Além disso, o mercado de trabalho ficou mais aquecido, com queda anual da taxa de desemprego de 7,9% para 6,2% entre 2022 e 2024. A taxa de ocupação atingiu recorde anual. 

Entretanto, o crescimento econômico veio acompanhado de inflação — esse fator, inclusive, gerou o aumento recorde da arrecadação do governo federal. A inflação segue fora do intervalo permitido na meta para 2025, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, admitiu que esse cenário deve se manter até junho

Assim, o Banco Central deve manter a trajetória de alta da taxa Selic. Em dezembro, o Brasil voltou a ter o segundo maior juro real do mundo, em 9,48%, segundo projeção da MoneYou. O país fica atrás somente da Rússia.

Leia também:

No Relatório Trimestral de Inflação divulgado em dezembro passado, a autarquia disse que a taxa de juros real neutra do Brasil é 5%. De acordo com o documento, a variável é “sujeita a elevada incerteza na sua mensuração”. Isto é, quando o juro real está acima desse patamar, há uma política monetária contracionista. 

Economistas comentam trajetória dos juros

Em entrevista ao portal Poder360, o sócio-diretor da MAG Investimentos, Claudio Pires, disse que o crescimento da economia é efeito do impulso fiscal e da expansão de gastos públicos. Ele afirma que o patamar de juros está muito alto e deve atingir níveis superiores a 15% em 2025.

“O Banco Central precisa elevar os juros para o patamar muito restritivo, porque o governo, por outro lado, está acelerando gastos e a maior parte desses gastos não está relacionado a investimento ou a algo que no médio prazo se traduza em aumento da capacidade de oferta da economia”, disse o economista.

Foto: Reprodução/Poder360

Pires disse ainda que o crescimento das despesas públicas está relacionado à transferência de renda com alta propensão de consumo, o que pressiona a inflação. 

“Outra questão é que tivemos uma forte desvalorização da moeda no ano passado”, explica. “Isso também pressiona a inflação, e, então, o Banco Central também precisa combater os efeitos da desvalorização do real.”

Ecio Costa, economista e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), diz que o crescimento anual do PIB acima de 3% em 2023 e 2024 foi muito puxado pelo impulso fiscal. “Em 2023, houve mais de R$ 200 bilhões de déficit fiscal e, em 2024, mais déficit fiscal”, o que “tem impulsionado muito a economia”.

Foto: Reprodução/Poder360

O economista comparou com o cenário de expectativas dos juros futuros em 2016 e 2017. “Quando teve a aprovação do teto fiscal de Temer, que tinha uma meta fiscal programada que deveria ser cumprida e as despesas só poderiam seguir de acordo com a inflação, os juros futuros, em poucos meses, desabaram”, explica. 

Quanto ao mercado de trabalho aquecido, o economista disse que a taxa de desemprego tem caído porque os programas sociais têm feito muitas famílias deixarem de procurar trabalho. “Isso é algo problemático na economia brasileira”, comenta. 

“Tem vários setores que reclamam de falta de mão de obra, como da construção civil […] Os trabalhadores preferem receber o programa social e fazer bicos”, explicou Costa.

print do Boletim Focus
Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, 10 de fevereiro | Foto: Reprodução/BCB

Outro motivo para a atividade econômica aquecida é o setor de serviços mais modernizado por causa da pandemia de covid-19. Com o isolamento social, a tecnologia tomou parte do espaço da prestação de serviços. 

Costa disse também que o governo Jair Bolsonaro (PL) potencializou o crédito livre, que é o negociado no mercado, em detrimento dos empréstimos com recursos direcionados — os quais são subsidiados e podem ter impacto fiscal.

“O efeito da Selic acima de 10% ou a Selic alta é mitigado pela questão do crédito direcionado”, disse ele ao Poder360. “Quanto mais crédito direcionado você tem, a potência da Selic mais alta é inibida, porque tem crédito direcionado mais baixo.”

Leia mais sobre:

0 comentários
Nenhum comentário para este artigo, seja o primeiro.
Canal Oeste
Nossos colunistas
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Augusto Nunes
Ana Paula Henkel
Guilherme Fiuza
Rodrigo Constantino
Alexandre Garcia
Antonio Cabrera
Eugênio Esber
Eugênio Esber
Evaristo de Miranda
Flávio Gordon
Roberto Motta
Miriam Sanger
Adalberto Piotto
Frank Furedi, da Spiked
Jeffrey A. Tucker.
Theodore Dalrymple
Flavio Morgenstern
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
Background
NEWSLETTER
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
Background
TELEGRAM
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
publicidade
Background
Assine a Revista Oeste
Seja um dos brasileiros que acreditam que o bom jornalismo transforma um país.