A tão falada reforma tributária, vendida como a solução para a simplificação fiscal no Brasil, caminha perigosamente em direção a um resultado que pode ser o oposto do prometido.
O relatório do senador Eduardo Braga (MDB-AM) para o PLP 108/2024, em vez de trazer clareza e benefícios à economia, apresenta-se como um pacote de medidas nebulosas que, se aprovadas, podem desestabilizar um dos pilares da economia nacional: o agronegócio.
+ Leia mais notícias de Economia em Oeste
A retórica de “simplificação” do governo e do Senado se desfaz diante de um texto que, na prática, cria novas complexidades e incertezas. Trata-se de uma manobra perigosa, elaborada nos bastidores do poder, com o potencial de causar um efeito cascata que afetará não apenas a produção rural, mas também o consumo e, em última instância, o bolso de cada brasileiro.
Receba nossas atualizações
A primeira grande bandeira vermelha é a mudança nas regras dos Fiagros. O relatório de Braga introduz condicionantes para a isenção desses fundos, alegando que o objetivo é direcionar o capital para a “produção real”. Essa é uma falácia perigosa. A suposta “seletividade” não passa de uma forma de burocratizar e complicar o acesso a um instrumento que se provou eficaz para canalizar investimentos para o campo. A lógica é simples: investidores buscam segurança e previsibilidade.
+ Reforma tributária: relatório impacta o agronegócio
Ao criar novas barreiras e incertezas, o governo e o Senado, sob a batuta de Braga, jogam um balde de água fria no interesse em aplicar nos Fiagros. A consequência direta? O capital, que é covarde, não será simplesmente “direcionado” para onde o governo deseja. Ele migrará para outros mercados, para outras opções financeiras mais seguras, mais atrativas e menos regulamentadas.
O resultado será o oposto do desejado: menos liquidez, menos capital disponível para o agronegócio e, inevitavelmente, um encarecimento do crédito rural.
Esse custo adicional será repassado, em cascata, para a produção de alimentos, afetando os preços nas gôndolas dos supermercados e penalizando a população. É uma visão míope e desconectada da realidade do mercado, que ignora a dinâmica do capital e as necessidades do setor produtivo. O agronegócio, que já enfrenta desafios climáticos e logísticos, entre outros, será obrigado a lidar com a insegurança jurídica e fiscal gerada por um relatório que, em vez de ajudar, só atrapalha.
+ Advogado explica possíveis efeitos da reforma tributária
Outro ponto que merece total repúdio é a imunidade do Imposto sobre a Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD) para doações de imóveis rurais destinadas à reforma agrária. À primeira vista, a medida parece nobre, uma forma de “favorecer a segurança jurídica” e “acelerar programas de assentamento”. No entanto, sob a superfície, essa medida esconde uma armadilha que pode ter consequências devastadoras. O relatório, ao criar esse incentivo, pode indiretamente legitimar e até mesmo estimular as invasões de terra.
A lógica do governo e do Senado parece ser a de que, ao facilitar a doação, as tensões no campo serão amenizadas. No entanto, a realidade é outra: a falta de segurança jurídica em relação à propriedade da terra é um dos maiores entraves ao investimento no campo.
Ao sugerir que a doação é uma “solução” para a reforma agrária, o governo sinaliza que a propriedade privada não é intocável e que a pressão de invasões pode “forçar” uma doação com benefícios fiscais. Essa é uma mensagem perigosa que subverte a ordem legal e a segurança jurídica. Em vez de combater as invasões e garantir o direito à propriedade, o relatório de Braga cria um mecanismo que pode, ironicamente, torná-las uma “via” para a regularização. Isso mina a confiança dos produtores, desestimula o investimento de longo prazo e joga o agronegócio em um cenário de incerteza ainda maior.

O relatório também altera outros pontos sensíveis, como a exclusão provisória do biometano e do gás natural veicular do regime monofásico. Essa medida, embora pareça técnica, tem um impacto direto nos investimentos em energia renovável. O agronegócio tem um potencial gigantesco na produção de biometano, uma fonte de energia limpa e sustentável.
Ao complicar a tributação e criar incertezas, o governo e o Senado desestimulam essa nova frente de investimento e desenvolvimento. É uma medida que vai na contramão das tendências globais e penaliza o setor que poderia liderar a transição energética no Brasil.
Em suma, o relatório de Eduardo Braga ao PLP 108/2024 é um exemplo claro de como a reforma tributária está sendo moldada para servir a interesses políticos, ideológicos e ao projeto de poder do governo atual, e não para simplificar e fortalecer a economia brasileira. A crítica aqui não é vazia: é um alerta. Se essas propostas forem aprovadas pelo Senado, o resultado será um aumento de custos para o produtor, uma redução de investimentos, um encarecimento dos alimentos e uma maior instabilidade no campo.
A população, que já sofre com a inflação e a falta de perspectiva econômica, será a mais prejudicada por essa manobra legislativa que, em vez de simplificar, só vai complicar.





































Entre ou assine para enviar um comentário.
Você precisa de uma assinatura válida para enviar um comentário, faça um upgrade aqui.