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Economia

Auditoria da Previdência revela reprodução de pareceres que autorizaram investimento no Master

Documento mostra que textos padronizados foram usados por fundos de diferentes Estados para justificar aportes no banco de Daniel Vorcaro

Fachada do Banco Master na Rua Elvira Ferraz, no bairro paulistano do Itaim Bibi — São Paulo (SP), 19/11/2025 | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
As investigações também indicaram outro mecanismo utilizado para sustentar o funcionamento do sistema: a valorização artificial de ativos ligados ao banco | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Um documento sigiloso do Ministério da Previdência Social revelou que fundos de pensão de diferentes Estados repetiram, com ínfimas alterações, os mesmos pareceres técnicos para justificar investimentos no Banco Master. A coluna de Malu Gaspar, no jornal O Globo, obteve o material e divulgou as informações nesta quarta-feira, 11.

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A auditoria mostra que os termos de credenciamento adotados por autarquias, como a Amapá Previdência (Amprev), foram redigidos pelo próprio Master. Assim, em vez de análises de risco, apresentavam trechos que exaltavam a imagem institucional do banco liquidado.

Entre os exemplos, o relatório menciona os fundos das cidades de Itaguaí (RJ), Aparecida de Goiânia (GO) e Congonhas (MG). Em todos os casos, os textos eram praticamente idênticos, com alteração apenas nos valores envolvidos. Para os auditores, trata-se de “um sinal evidente” de que as entidades não elaboraram os documentos por contra própria.

Depois da auditoria, os próprios técnicos da Amprev admitiram que o material partiu do Master. Conforme revelado por Malu Gaspar, a linguagem dos pareceres incluía frases como “mais de 50 anos de história”, “tradição, solidez e credibilidade”, “investimentos de alto impacto” e promessas de “crescimento sólido e gradativo”.

Presidente da Amprev ignorou alertas da Caixa Econômica Federal

A Amprev aprovou R$ 400 milhões em letras financeiras do Master em três reuniões, realizadas de 12 a 30 de julho de 2024. O processo avançou mesmo diante de alertas, resistências internas e pareceres técnicos negativos de outras instituições.

Em um dos encontros, o presidente do fundo, Jocildo Lemos, celebrou a liberação da primeira metade do valor, declarando que havia tirado “um peso das costas”. Ele também minimizou os riscos associados ao investimento, referindo-se às críticas como “histórias do mercado”.

Segundo O Globo, a operação de compra dos papéis do Master teve como principais articuladores Lemos e o conselheiro José Milton Gonçalves — ambos ligados politicamente ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

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Gonçalves propôs as três fases do investimento: duas de R$ 100 milhões e uma de R$ 200 milhões. A primeira foi aprovada sem contestação. Na segunda tentativa, alguns conselheiros manifestaram desconforto depois da divulgação de um parecer técnico sigiloso da Caixa Econômica Federal contrário a um aporte semelhante no mesmo título. Técnicos do banco estatal classificaram a aplicação como “altamente arriscada”. Como resultado, os servidores responsáveis pelo parecer acabaram demitidos.

Mesmo assim, o fundo de pensão do Amapá insistiu na ampliação da exposição. Conselheiros que pediram mais informações ao Tribunal de Contas da União e à própria Caixa foram ignorados. Lemos descartou os alertas e disse que Daniel Vorcaro, dono do Master, havia defendido a solidez do banco em entrevistas. A diligência presencial na instituição, sugerida como alternativa de verificação, foi aprovada.

No relatório da auditoria, a Previdência descreve o episódio como “negligência incompatível” com os deveres de um fundo de pensão. Para o ministério, os documentos não demonstraram nenhuma análise real de riscos e omitiram elementos fundamentais.

“A governança de fundos de pensão pressupõe análise criteriosa de riscos e não pode ser substituída por procedimentos meramente formais de credenciamento, como a simples afirmação da conformidade, sem a apresentação de elementos concretos que a sustentem”, diz o texto. “A ausência de verificação do histórico de cumprimento de obrigações financeiras compromete substancialmente a possibilidade de previsão.”

Comando da Amprev levanta temor de rombo na previdência

Lemos chegou ao comando da Amprev por indicação de Alcolumbre, segundo ele próprio declarou em ocasião pública. Já José Milton Gonçalves atuou como tesoureiro da campanha de reeleição do senador e, à época das liberações, enfrentava investigações por supostas irregularidades na gestão do fundo previdenciário de Macapá, ainda durante o mandato do então prefeito Clécio Luís.

Apesar de uma decisão judicial que determinou o afastamento de Gonçalves do comitê da Amprev, a autarquia manteve o conselheiro na função, sob o argumento de que ele havia recebido absolvição em primeira instância. Só em setembro de 2025, com o avanço da operação da Polícia Federal e nova ordem da Justiça, cumpriu-se efetivamente o afastamento.

O histórico de relações entre Gonçalves e o clã Alcolumbre é extenso. Ele já apareceu em fotos ao lado de Josiel Alcolumbre, irmão do senador e ex-candidato à Prefeitura de Macapá.

Depois do escândalo da liquidação do Master e a revelação dos vínculos políticos no comando da Amprev, cresceu o temor de um rombo nas contas de aposentadoria do Estado. Em nota divulgada pela presidência do Senado, Alcolumbre afirmou que espera uma apuração rigorosa dos fatos e a punição dos responsáveis, “na forma da lei”.

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