Um relatório do Banco Central (BC) confirma que o Banco Master já estava em crise de liquidez na época em que tentava viabilizar uma operação considerada “arriscada” e “atípica” de R$ 500 milhões com a Caixa Asset, entre junho e julho de 2024. As informações são da coluna de Malu Gaspar, do jornal O Globo.
O documento relata a situação do banco em 2024 e 2025 e foi anexado a um processo do Tribunal de Contas da União (TCU) responsável por apurar eventual omissão da autoridade monetária na fiscalização do caso.
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Uma decisão da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado tornou as informações públicas, ao retirar o sigilo de sete processos do TCU na semana passada.

Segundo o BC, a deterioração dos indicadores do Master foi identificada ainda no primeiro semestre de 2024. A instituição exigiu medidas como a “adequação da gestão de liquidez”, inicialmente por meio de ofício enviado em 28 de maio e, depois, em reunião presencial realizada em 12 de junho.
Monitoramento do BC revela que 6 de junho de 2024 foi o último dia em que o banco manteve ativos de alta liquidez suficientes para cobrir os vencimentos de depósitos em um horizonte de 30 dias. Uma semana depois, em 13 de junho, começaram as tratativas com a Caixa Asset.
Nesse contexto, a venda de R$ 500 milhões em letras financeiras ao braço de investimentos da Caixa era vista como essencial para dar fôlego ao Master. Os papéis ofereciam rentabilidade de 130% do CDI ao ano, com prazo de dez anos — acima da média de mercado —, mas foram considerados excessivamente arriscados, além do volume elevado da operação.

Na avaliação de técnicos do TCU, o Banco Central atuou de forma “escalonada, preventiva e corretiva” antes de decretar a liquidação do banco, em 18 de novembro de 2025, um dia depois da prisão de Vorcaro por decisão da Justiça Federal de Brasília.
Cercado de controvérsias, o negócio entre Master e Caixa Asset não avançou. O principal entrave foi um parecer sigiloso de 4 de julho de 2024 que classificou o modelo de negócios do banco como “de difícil compreensão” e apontou “alto risco de solvência” — avaliações que, posteriormente, se mostraram acertadas.
Naquele período, o BC já havia realizado diversas reuniões com representantes do Master — nos dias 18, 19 e 24 de junho e novamente em 4 de julho, data do parecer da Caixa — para tentar compreender as operações conduzidas por Vorcaro.

Em seu relatório, a equipe técnica da Caixa Asset destacou que o banco mantinha volume relevante de precatórios na carteira, ativos com grande incerteza quanto ao prazo de recebimento, além de estruturas que dificultavam a visibilidade dos investidores sobre riscos capazes de afetar o desempenho financeiro da instituição.
O documento também apontou fragilidades reputacionais. “O histórico da instituição, assim como de seus principais executivos, compromete a confiabilidade e a fidúcia necessárias para a alocação de recursos em seus ativos”, registrou o parecer.
A análise incluiu também uma “pesquisa reputacional” conduzida pela área de governança e compliance da Caixa Asset, que identificou processos na Comissão de Valores Mobiliários que envolviam suspeitas de manipulação de preços, irregularidades na distribuição de produtos de investimento e participação em “diversos crimes financeiros”.

Vorcaro reclamou de críticas de Bolsonaro à operação entre Master e Caixa
Depois da divulgação do parecer, Vorcaro comentou o episódio em mensagens à então namorada, a influenciadora e modelo Martha Graeff. “Ainda estamos na guerra. Virão mais ataques”, escreveu. “O pior de ontem foi ter o Bolsonaro postado no tweeter [sic] dele [a matéria sobre o teor do parecer da Caixa Asset]. Idiota.”
Na sequência, afirmou que “todos os amigos”, incluindo o senador Ciro Nogueira (PP-PI), teriam ligado para Bolsonaro para pedir a retirada da publicação, sem sucesso. “Alguém falou que era coisa [do] PT [e] ele postou.”

Ao compartilhar a reportagem no X, Bolsonaro afirmou: “Os senhores não leram errado. Impediram de acontecer e foram demitidos. Não é mais questão de todo dia, mas sim a cada hora. Por isso o sistema está agindo com tanto afinco em suas ações”.
Ao O Globo, a Caixa informou que a operação não foi realizada e ressaltou que adota critérios rigorosos na análise de investimentos. “A Caixa Asset analisa as oportunidades de negócios e adota processo criterioso de avaliação na seleção de ativos financeiros, com decisões submetidas às instâncias de conformidade e governança”, diz a nota.
“Esse procedimento contempla análises econômicas, com leitura técnica de cenários, de forma a avaliar potenciais riscos e retorno das operações”, disse a Caixa, sem esclarecer se buscou informações adicionais com o BC ou o próprio Master sobre a liquidez da instituição à época.
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