publicidade
Economia

Master já estava em crise de liquidez antes de operação com a Caixa

Relatório do BC anexado ao TCU revela que venda de R$ 500 milhões era tentativa de fôlego

daniel vorcaro - dono do banco master - palestra
Daniel Vorcaro era o dono do Banco Master, instituição financeira que foi liquidada judicialmente pelo Banco Central | Foto: Reprodução/YouTube/@JornaldaRecord

Um relatório do Banco Central (BC) confirma que o Banco Master já estava em crise de liquidez na época em que tentava viabilizar uma operação considerada “arriscada” e “atípica” de R$ 500 milhões com a Caixa Asset, entre junho e julho de 2024. As informações são da coluna de Malu Gaspar, do jornal O Globo.

O documento relata a situação do banco em 2024 e 2025 e foi anexado a um processo do Tribunal de Contas da União (TCU) responsável por apurar eventual omissão da autoridade monetária na fiscalização do caso.

Receba nossas atualizações

+ Leia mais notícias de Economia em Oeste

Uma decisão da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado tornou as informações públicas, ao retirar o sigilo de sete processos do TCU na semana passada.

Renan Calheiros
O presidente da Comissão de Assuntos Econômicos, senador Renan Calheiros (MDB-AL) | Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Segundo o BC, a deterioração dos indicadores do Master foi identificada ainda no primeiro semestre de 2024. A instituição exigiu medidas como a “adequação da gestão de liquidez”, inicialmente por meio de ofício enviado em 28 de maio e, depois, em reunião presencial realizada em 12 de junho.

Monitoramento do BC revela que 6 de junho de 2024 foi o último dia em que o banco manteve ativos de alta liquidez suficientes para cobrir os vencimentos de depósitos em um horizonte de 30 dias. Uma semana depois, em 13 de junho, começaram as tratativas com a Caixa Asset.

Nesse contexto, a venda de R$ 500 milhões em letras financeiras ao braço de investimentos da Caixa era vista como essencial para dar fôlego ao Master. Os papéis ofereciam rentabilidade de 130% do CDI ao ano, com prazo de dez anos — acima da média de mercado —, mas foram considerados excessivamente arriscados, além do volume elevado da operação.

Caixa Econômica Federal: sob análise do TCU | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Caixa Econômica Federal: sob análise do TCU | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Na avaliação de técnicos do TCU, o Banco Central atuou de forma “escalonada, preventiva e corretiva” antes de decretar a liquidação do banco, em 18 de novembro de 2025, um dia depois da prisão de Vorcaro por decisão da Justiça Federal de Brasília.

Cercado de controvérsias, o negócio entre Master e Caixa Asset não avançou. O principal entrave foi um parecer sigiloso de 4 de julho de 2024 que classificou o modelo de negócios do banco como “de difícil compreensão” e apontou “alto risco de solvência” — avaliações que, posteriormente, se mostraram acertadas.

Naquele período, o BC já havia realizado diversas reuniões com representantes do Master — nos dias 18, 19 e 24 de junho e novamente em 4 de julho, data do parecer da Caixa — para tentar compreender as operações conduzidas por Vorcaro.

senador Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo | Foto: Lula Marques/Agência Brasil
Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo | Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Em seu relatório, a equipe técnica da Caixa Asset destacou que o banco mantinha volume relevante de precatórios na carteira, ativos com grande incerteza quanto ao prazo de recebimento, além de estruturas que dificultavam a visibilidade dos investidores sobre riscos capazes de afetar o desempenho financeiro da instituição.

O documento também apontou fragilidades reputacionais. “O histórico da instituição, assim como de seus principais executivos, compromete a confiabilidade e a fidúcia necessárias para a alocação de recursos em seus ativos”, registrou o parecer.

A análise incluiu também uma “pesquisa reputacional” conduzida pela área de governança e compliance da Caixa Asset, que identificou processos na Comissão de Valores Mobiliários que envolviam suspeitas de manipulação de preços, irregularidades na distribuição de produtos de investimento e participação em “diversos crimes financeiros”.

CVM | Foto: Divulgação/Comissão de Valores Mobiliários
Comissão de Valores Mobiliários | Foto: Divulgação/Comissão de Valores Mobiliários

Vorcaro reclamou de críticas de Bolsonaro à operação entre Master e Caixa

Depois da divulgação do parecer, Vorcaro comentou o episódio em mensagens à então namorada, a influenciadora e modelo Martha Graeff. “Ainda estamos na guerra. Virão mais ataques”, escreveu. “O pior de ontem foi ter o Bolsonaro postado no tweeter [sic] dele [a matéria sobre o teor do parecer da Caixa Asset]. Idiota.”

Na sequência, afirmou que “todos os amigos”, incluindo o senador Ciro Nogueira (PP-PI), teriam ligado para Bolsonaro para pedir a retirada da publicação, sem sucesso. “Alguém falou que era coisa [do] PT [e] ele postou.”

O porquê de Vorcaro chamar Bolsonaro de 'idiota'
Mensagens trocadas entre Vorcaro e a então namorada, Martha Graeff | Foto: Reprodução/X

Ao compartilhar a reportagem no X, Bolsonaro afirmou: “Os senhores não leram errado. Impediram de acontecer e foram demitidos. Não é mais questão de todo dia, mas sim a cada hora. Por isso o sistema está agindo com tanto afinco em suas ações”.

Ao O Globo, a Caixa informou que a operação não foi realizada e ressaltou que adota critérios rigorosos na análise de investimentos. “A Caixa Asset analisa as oportunidades de negócios e adota processo criterioso de avaliação na seleção de ativos financeiros, com decisões submetidas às instâncias de conformidade e governança”, diz a nota.

“Esse procedimento contempla análises econômicas, com leitura técnica de cenários, de forma a avaliar potenciais riscos e retorno das operações”, disse a Caixa, sem esclarecer se buscou informações adicionais com o BC ou o próprio Master sobre a liquidez da instituição à época.

0 comentários
Nenhum comentário para este artigo, seja o primeiro.
Canal Oeste
Nossos colunistas
Foto do autor J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Foto do autor Augusto Nunes
Augusto Nunes
Foto do autor Ana Paula Henkel
Ana Paula Henkel
Foto do autor Guilherme Fiuza
Guilherme Fiuza
Foto do autor Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino
Foto do autor Alexandre Garcia
Alexandre Garcia
Foto do autor Antonio Cabrera
Antonio Cabrera
Foto do autor Eugênio Esber
Eugênio Esber
Foto do autor Evaristo de Miranda
Evaristo de Miranda
Foto do autor Flávio Gordon
Flávio Gordon
Foto do autor Roberto Motta
Roberto Motta
Foto do autor Miriam Sanger
Miriam Sanger
Foto do autor Adalberto Piotto
Adalberto Piotto
Foto do autor Frank Furedi, da Spiked
Frank Furedi, da Spiked
Foto do autor Jeffrey A. Tucker.
Jeffrey A. Tucker.
Foto do autor Theodore Dalrymple
Theodore Dalrymple
Foto do autor Flavio Morgenstern
Flavio Morgenstern
Foto do autor Ubiratan Jorge Iorio
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
publicidade