O tríptico O Jardim das Delícias, obra-prima do pintor holandês Hieronymus Bosch (criada por volta de 1500), é uma das representações mais fascinantes e perturbadoras da alma humana — a ponto de suas formas oníricas e caóticas terem influenciado, séculos depois, o surrealismo de Salvador Dalí. Dividido em três painéis, o quadro nos conduz em uma narrativa visual que começa na harmonia do Éden, passa por um jardim central tomado pelo delírio e pelos excessos e deságua, inevitavelmente, no caos absoluto.
Nos tempos que vivenciamos, olhar para essa obra causa um estranho sentimento de familiaridade. Considerando a realidade brasileira, o quadro de Bosch pode ser lido como algo além de uma mera alegoria religiosa criada no século XV: trata-se de um retrato cirúrgico da nossa própria realidade.
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No primeiro painel, vemos a promessa do paraíso. O Brasil sempre foi enaltecido por ser o Éden da exuberância, uma terra de recursos infinitos, de um povo criativo e de uma vocação natural para a grandeza. Nascemos sob o sinal da beleza e da harmonia de seu multiculturalismo. Fomos levados a acreditar que somos um país continental destinado a dar certo, a partir de uma arquitetura social e de uma natureza que conspiram a favor de um futuro próspero.
No entanto, é no painel central da obra do pintor holandês que o Brasil de hoje deveria se ver como se estivesse diante de um espelho. Bosch desenhou o “Jardim das Delícias” como um espaço onde a ordem foi subvertida. Pessoas se movem em um transe coletivo, entregues a falsas promessas, à busca por facilidades e a uma profunda inversão de valores. Com efeito, é o império do cinismo e da decadência.
Debate público esvaziado
No nosso “jardim das delícias tupiniquim”, a ética foi substituída pela conveniência e o mérito, pelo compadrio. Assistimos a uma espetacularização do debate público, na qual o certo e o errado já não possuem contornos nítidos. Há ainda a cultura do “levar vantagem”, que persiste sobretudo na burocracia que sufoca quem quer produzir, além da leniência com o erro, tudo mascarado por uma falsa sensação de normalidade.
Em um dos fragmentos do jardim de Bosch, figuras humanas se isolam em bolhas de vidro frágeis e prestes a trincar. Vivemos trancados em bolhas de narrativas e alienação social, acreditando estarmos protegidos, enquanto a estrutura da nossa sociedade racha bem diante dos nossos olhos.

Esse jardim caótico não surgiu por acaso, mas por um projeto. Diante da ascensão da Direita, o sistema reagiu de forma ardilosa — com a ajuda criminosa da velha imprensa —, rotulando-a falsamente como o renascimento do fascismo para justificar sua própria autopreservação. Criou-se, então, um outro “jardim das delícias”: o dos “defensores” da democracia, para sustentar um arranjo corrupto mantido por uma casta incrustada na política e no Judiciário.
Sob o pretexto de estarem salvando o país de um golpe, convenceram muitos a lutar por uma liberdade falaciosa, usando o belo discurso democrático para impor o inferno de uma ditadura disfarçada e eivada do mais puro cinismo. Mas a farsa não se sustenta para sempre. Hoje, estamos vendo os intestinos desse sistema apodrecido expostos à luz do dia, tendo como emblema máximo a corrupção e os excessos que emanam da nossa mais alta corte de Justiça. Nem mesmo Bosch e Dalí seriam capazes de superar o nosso surrealismo tupiniquim.
O grande alerta de Bosch, contudo, reside no terceiro painel. O pintor nos lembra que o delírio do jardim central não é sustentável; ele cobra o seu preço. O inferno boschiano é a consequência direta da perda dos fundamentos morais e da razão, agora dominados por uma histeria coletiva movida por um profundo entorpecimento da razão.

O Brasil caminha a passos largos em direção a esse terceiro painel se não despertarmos a tempo. Uma nação não se sustenta sobre a areia movediça do cinismo e da corrupção institucionalizados, nem sobre a perda de referências elevadas da moral e da ética. É preciso resgatar a solidez dos nossos alicerces: o trabalho duro, a busca pela verdade e o respeito às leis.
A arte e a vida se espelham: onde uma se manifesta, a outra encontra a sua verdadeira medida. Ainda há tempo de encerrar nosso tríptico antes do inexorável da cena final e apocalíptica, mas isso exigirá de cada um de nós a coragem de encarar o espelho e decidir em qual painel realmente queremos viver.
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(*) Por Francisco Lauande Jr
Preciso .
Brilhante. 👏👏👏