publicidade
Curiosidades

505 anos: entenda as influências políticas da Reforma Protestante

Especialista defende que a ideia de um Estado laico surge para que o Estado não interfira na Igreja

Reforma Protestante
Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock

Em 31 de outubro de 1517, o monge Martinho Lutero, de Wittenberg (na Alemanha), afixou 95 teses na catedral da cidade que abalariam a Igreja Católica Apostólica Romana e dividiriam o cristianismo. Essa era a gênese do protestantismo no mundo, que influenciaria a política mundial, em especial a do Ocidente.

Em linhas gerais, o contexto da reforma era uma crise na Europa — guerras entre os governos europeus geravam caos, morte e insegurança na sociedade. Naquele período, o principal embate ocorria entre a Igreja e o Estado Monárquico.

Receba nossas atualizações

A população estava cansada dos abusos da igreja, como a venda de indulgências para pagar pecados e comprar um lugar no céu. Em muitos casos, os superiores da igreja eram sustentados pelos camponeses que, em sua maioria, eram pobres e analfabetos.

Martinho Lutero era bacharel em estudos bíblicos, doutor em Teologia e dedicou muitos anos de sua vida ao estudo da tese de “justificação pela fé” — somente a fé conseguiria justificar o pecador, e não a venda de indulgências.

Depois de propor as 95 teses, o nome do Lutero repercutiu pelos países europeus e em 1518, ele foi acusado de heresia e recusou a ordem papal, mantendo seus posicionamentos. O monge ainda foi o responsável pela tradução da Bíblia para o alemão.

A Reforma Protestante na educação

Nesse período de pré-reforma, a leitura era restrita às elites europeias, como advogados e embaixadores. “Mesmo os nobres eram analfabetos”, disse o pastor Franklin Ferreira, especialista em teologia e diretor-geral da faculdade teológica Seminário Martin Bucer. “Carlos Magnum, um dos patronos da educação, era analfabeto. No entanto, ele patrocinou a educação”, explica Ferreira.

Após a reforma, o cenário muda. Os luteranos e calvinistas (denominações que partiram do movimento) vão valorizar a educação gratuita patrocinada pelo Estado, ainda cristão. É o teólogo reformador Filipe Melanchthon, colaborador de Lutero, quem prepara as gramáticas alemãs, os dicionários de latim em alemão e diversas outras obras.

“Cerca de 200 ou 300 anos depois da reforma, essas obras educacionais e a visão educacional de Lutero permeavam pela Alemanha”, observou Ferreira. “Foi um Estado cristão que patrocinou uma educação ampla, cristã e de qualidade para todos os cidadãos.”

Ainda segundo o professor, no meio reformado criou-se o hábito de que ao lado de cada igreja também haveria uma escola cristã. A ideia é que todo o crente é sacerdote, e que todo sacerdote deve ser chamado a ler a Bíblia sozinho e também interpretá-la corretamente — livre exame das escrituras.

Relacionadas

À medida em que a reforma avançava, a educação também crescia, segundo Ferreira. Conforme ele, nesse período, na Inglaterra, na Holanda e na Alemanha surgem várias escolas preparatórias e novas universidades.

“Se entre o século 12 e o 14 são fundadas 50 grandes universidades na Europa, entre elas Oxford, Cambridge e Coimbra, depois da reforma, surgem outras 50 instituições que estão entre as melhores do mundo”, afirmou.

A primeira coisa que o clérigo puritano John Harvard faz ao chegar nos EUA, no século 17, é fundar a Universidade de Harvard. Em seguida, por rivalidades internas no movimento puritano e por diferenças entre os métodos pedagógicos, a Universidade de Yale é inaugurada.

Em 1746, os presbiterianos vão fundar o Colégio de Nova Jersey que, mais tarde, se tornaria a Universidade de Princeton. “Três das maiores universidades do mundo foram fundadas, praticamente, com a chegada dos colonos da América do Norte”, declarou o professor. “Essa é uma grande ênfase do protestantismo: um clero esclarecido. Um clérigo não deveria, somente, entender de teologia, mas de filosofia, história, cultura geral, história militar, etc.”

A preocupação principal dos protestantes, ao incentivar os estudos, é compreender que o fim do homem é glorificar a Deus. “Se esse é o nosso objetivo de vida, então devemos ser o melhor para aquilo que Deus nos chamou”, afirmou. “O protestante tem um senso de vocação. Ele vai lutar para ser o melhor porque quanto melhor ele for, mais Deus recebe glória. Assim, ele busca sempre se aperfeiçoar, mas sempre subordinado às escrituras.”

Laicidade do Estado

O Estado laico é uma das bases do Ocidente e também é influenciado pela Reforma Protestante. Antes do movimento, já existia uma distinção entre os poderes no Estado, mas ainda havia necessidade de o Estado não interferir na Igreja. Aqui surge a ideia de separação rígida.

“Não foi necessariamente Martinho Lutero quem teorizou isso”, explica Thiago Rafael Vieira, especialista em Estado constitucional e liberdade religiosa. “Durante a Reforma Protestante, quem vai falar dessa separação, na forma como pensamos hoje, são os anabatistas, e de certa forma, João Calvino, em 1536.”

O especialista destaca que, somente no século 17, essa ideia separatista que conhecemos, vai acontecer com o cristão Thomas Helwys, autor do primeiro livro sobre liberdade religiosa. Em seguida, surge o filósofo John Locke com seus livros e tratados.

Os EUA foram formados, na maioria, pelos puritanos — cristãos protestantes ingleses — que fugiam da perseguição religiosa na Inglaterra, explica Vieira. E que, chegando aos EUA, justamente por fugir dessa perseguição, decidiram que o Estado não poderia interferir na igreja e vice-versa.

A laicidade é uma maneira de o Estado e a igreja se relacionarem. Cada nação recebe pressupostos históricos e teóricos, e a partir disso se relaciona com a religião. “Em 1640, o pastor Roger Williams (pastor batista) se muda para o Estado de Rhode Island, nos EUA, e cria uma Constituição para o local”, declarou Vieira. “Essa é a primeira Constituição do mundo com um Estado laico tal qual conhecemos hoje.”

Relacionadas

A própria ideia de um Estado laico surge para que o Estado não interfira na Igreja, e não ao contrário, segundo Vieira. “O Estado laico dos EUA só acontece por conta dos puritanos. Teve influência cristã, mas sem interferência”, disse o advogado.

De acordo com Vieira, a laicidade dos EUA é bem diferente da brasileira. “É um país formado por agregação, cada Estado tem autonomia e soberania”, observou. “Não é um estado laico colaborativo como o nosso, é mais rígido”. A laicidade no Brasil permite que a religião trabalhe em conjunto com o Estado em busca de um bem comum. “A religião tem um papel forte na opinião pública”, explicou.

A reforma na cultura

Os aspectos culturais da reforma também devem ser ressaltados. O pastor Luiz Sayao, teólogo, mestre em hebraico e diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, acredita que o advento da reforma abre espaço para o intérprete/leitor interpelar, podendo pensar de uma forma mais ampla.

Depois, a modernidade europeia buscou uma filosofia que rompe com o sagrado, segundo Sayao. Desse modo, a autonomia da razão é cultuada, dando origem ao racionalismo e o iluminismo. dos pelas escrituras sagradas. “O existencialismo, por exemplo, começa com o filósofo Kierkegaard, que não sabia se era mais teólogo ou mais filósofo”, defendeu o hebraísta. “Ele vai dizer que o ponto central do indivíduo é a fé, e que o ponto superior manifesto no ser humano é o homem religioso.”

O teólogo reconhece, contudo, que o movimento da reforma teve falhas, mas mudou a visão do homem comum para uma visão integrada da eternidade e beneficiou a população carente. “Não dá para beneficiar os mais pobres, simplesmente por meio de doações e paternalismo”, disse Sayao. “Isso significa que o maior problema da vida de uma pessoa está dentro dela. Quando esse indivíduo descobre que tem capacidade, se liberta de um fatalismo psicológico e torna-se mais produtivo.”

 

Leia mais sobre:

6 comentários
  1. Paulo Adriano Sikorski
    Paulo Adriano Sikorski

    Artigo tão medíocre quanto a formação de Lutero em 1517.
    Todos os pressupostos do artigo são falsos, como:

    1) “A população estava cansada dos abusos da igreja, como a venda de indulgências para pagar pecados e comprar um lugar no céu”.
    Essa é uma mentira inventada pelo protestantes reformadores, contada e repetidas milhares de vezes, mas sem NENHUMA PROVA, ao contrário, atualmente já existem muitas obras que desmentem essa acusação. Fato é que os reformadores protestantes foram pioneiros na criação e disseminação de fake news.

    2) “Em muitos casos, os superiores da igreja eram sustentados pelos camponeses que, em sua maioria, eram pobres e analfabetos”.
    Todo o clero era, e ainda é, sustentado pelo povo. Religiosos não podem se dedicar a atividades remuneradas, tendo em vista os votos de pobreza e da entrega total ao apostolado. Eram e são sustentados pelos dízimos do povo. Quanto a serem analfabetos e pobres, ser pobre é a condição natural do ser humano, e ser analfabeto, também! Desde que o mundo é mundo, em todos os lugares do mundo, países cristão ou não, até há pouquíssimos anos a grande maioria (digo mais de 90% da população) era analfabeta.

    3) “Martinho Lutero era bacharel em estudos bíblicos, doutor em Teologia e dedicou muitos anos de sua vida ao estudo da tese de “justificação pela fé”.
    Em 1517 Lutero era apenas um padre medíocre, e toda sua formação se resumia a 3 anos de estudo, e quando se revoltou contra a Igreja, ele não tinha nenhuma concepção de teologia diferente à da Igreja Católica. Depois que foi excomungado que passou a inventar e brincar com a salvação de seus pobres seguidores, criando uma falsa teologia que se adequasse com seu modo de vida cheia de pecados da carne. O protestantismo só não morreu no seu gérmen porque obteve apoio de príncipes que pagavam tributos à Igreja (príncipes dos Estados Pontifícios, portanto, traidores) e que resolveram também se revoltar contra a Igreja e deram abrigo aos revoltosos falsos religiosos e futuros hereges.

  2. Weber
    Weber

    John Henry Newman é um dos mais notáveis pastores anglicanos que já existiu. Fez voto de castidade quando era adolescente. Depois de anos de reflexão e estudos, converteu-se ao Catolicismo. Foi recebido na Igreja Católica como Cardeal Newman.

  3. Dulce Pupo G Sabbag
    Dulce Pupo G Sabbag

    Assinei porque sempre admirei a postura conservadora de vocês. JP me decepcionou. Às vezes nos sentimos abandonados. Não temos como obter informações fidedignas. Firmes na indignação!!!

  4. ADENILSON CORRÊA DE CAMPOS
    ADENILSON CORRÊA DE CAMPOS

    Reconheçamos os frutos da Reforma: incremento da liberdade e da universalização da educação! No mais, deixemos as interpretações românticas e falsas, pois a reforma protestante vingou por motivos políticos e econômicos! Lutero seria mais um herege condenado não fosse o oportunismo de alguns nobres e príncipes! O livre exame das Escrituras não está nas Escrituras, pois na Igreja desde sempre quem tinha a última palavra não eram os teólogos ou os mais cultos mas o Magistério da Igreja. A bem da verdade, a Reforma protestante originou o que vemos nos dias atuais: da negação da Igreja, passa-se à negação da Revelação divina e, por fim, até chegar à negação de Deus! Quase todas as nações protestantes se transformaram em nações ateias predominantemente em comparação com o sul europeu que preservou-se relativamente católico! Max Weber nos ajuda a entender isso!

Canal Oeste
Nossos colunistas
Foto do autor J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Foto do autor Augusto Nunes
Augusto Nunes
Foto do autor Ana Paula Henkel
Ana Paula Henkel
Foto do autor Guilherme Fiuza
Guilherme Fiuza
Foto do autor Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino
Foto do autor Alexandre Garcia
Alexandre Garcia
Foto do autor Antonio Cabrera
Antonio Cabrera
Foto do autor Eugênio Esber
Eugênio Esber
Foto do autor Evaristo de Miranda
Evaristo de Miranda
Foto do autor Flávio Gordon
Flávio Gordon
Foto do autor Roberto Motta
Roberto Motta
Foto do autor Miriam Sanger
Miriam Sanger
Foto do autor Adalberto Piotto
Adalberto Piotto
Foto do autor Frank Furedi, da Spiked
Frank Furedi, da Spiked
Foto do autor Jeffrey A. Tucker.
Jeffrey A. Tucker.
Foto do autor Theodore Dalrymple
Theodore Dalrymple
Foto do autor Flavio Morgenstern
Flavio Morgenstern
Foto do autor Ubiratan Jorge Iorio
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
publicidade