O ano era 1940 quando os soldados nazistas dominaram o continente europeu. A França havia se rendido aos alemães, que também invadiaram a Bélgica e a Holanda. O Exército britânico fugia às pressas de Dunquerque, cidade portuária francesa, e o Reino Unido esteve a poucos dias de negociar a paz com Adolf Hitler. O cenário militar e político sugeria que a derrota britânica era apenas uma questão de tempo.
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O fracasso não veio porque Winston Churchill (1874-1965), recém-empossado primeiro-ministro do Reino Unido, tomou uma decisão arriscada. O político britânico proibiu qualquer negociação de paz com os nazistas e ordenou a continuidade da guerra. A deliberação foi divulgada mesmo com o país isolado e sob ameaça de invasão. Com o despacho, o premiê impediu que o nazismo vencesse politicamente naquele ano.

“Churchill é um exemplo de liderança sem medo, com foco em valores humanos”, afirma Ricardo Sondermann, presidente do Capítulo Brasil da International Churchill Society. “O Ocidente cresceu em função do valor básico que é a liberdade, defendida por líderes que tomam decisões fortes.”
Churchill: o homem certo na hora certa
Com o objetivo de divulgar esse legado, Sondermann entrevistou 34 pessoas que estudaram ou conviveram com o político britânico. Uma das fontes é o ex-primeiro-ministro do Reino Unido Boris Johnson. O jurista brasileiro Ives Gandra Martins também contribuiu. As conversas resultaram no livro Churchill: o homem certo na hora certa, publicado pela editora LVM. A obra mostra detalhes do premiê que ajudou a moldar o século 20.

Oeste conversou com Sondermann, que falou sobre o livro e sobre a importância de divulgar o legado de Churchill.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Como o senhor organizou o livro Churchill: o homem certo na hora certa?
Entrevistei 34 pessoas. São quase 40 horas de gravação. Entre os entrevistados estão Anthony Tucker-Jones, historiador militar; Hélio Beltrão, editor e comentarista político; David Freeman, editor da revista norte-americana Finest Hour, da organização Churchill Society; Lee Pollock, ex-diretor da Churchill Society e incentivador das obras do premiê; e Andrew Roberts, hoje o maior biógrafo do político britânico. Randolph Churchill, bisneto de Churchill, também contribuiu com a obra. Perguntei se tinha fofocas da família e ele contou quando soube que seu avô era o homem mais poderoso do mundo. Isso foi muito bom.
Qual era a relação de Churchill com os charutos?
O livro O Charuto de Churchill, de Stephen McGinty, trata desse hábito. Uma filha dele calculou que tenha fumado 60 mil charutos. Mas o fato de ele fumar significava um elemento de marketing, que ele dominava. O whisky que bebia, por exemplo, era misturado com soda. O líder britânico tomava bastante champanhe, mas as garrafas não eram tão grandes como as de hoje. Mas a verdade é que ele viveu até os 90 anos comendo, bebendo e fumando bem.
O senhor pode citar alguns erros de Churchill?
Cometeu muitos erros ao longo da vida. Na Primeira Guerra Mundial, houve o Galípoli (quando o Reino Unido e a França tentaram abrir uma nova frente contra o Império Otomano) que Churchill planejou errado (houve cerca de 250 mil baixas aliadas, entre mortos, feridos e desaparecidos). Além disso, ele mudou de partido duas vezes, para um britânico essa atitude era inconcebível. Foi contra o voto feminino e contra a independência da Índia. Tomou muitas decisões erradas. Mas a grande característica é a grandeza da humildade. “Engolir minhas palavras nunca me causou indigestão”, essa frase dele mostra isso. Ele tinha um objetivo: a liberdade. Não tinha medo de fazer, de errar e de pedir desculpas. Poucos políticos nos dias de hoje o fazem.
Por que os brasileiros precisam conhecer Churchill?
Porque é um exemplo de liderança sem medo, com foco em valores humanos. O Ocidente cresceu em função do valor da liberdade. Churchill tinha clareza de como devia ser feito — não teremos mais homens como ele, mas podemos ter atitudes churchillianas, que são de grandeza. Quando alguém se elege para um cargo executivo, passa a ser o líder de toda uma comunidade, não de seu partido. Quando um juiz assume um cargo, seja na instância que for, não é mais o legislador de sua ideologia, mas de uma lei que foi construída. Então esse magistrado pode ter uma atitude churchiliana de julgar o que for mais ético e justo possível. Por isso é importante que o premiê seja lembrado, para sermos humildes e grandes. Para reconhecer erros e pedir desculpas. Acho que Churchill nos leva a ser adultos, no sentido de crescer como ser humano e como sociedade.
Qual foi a história mais impactante de Churchill o semhor ouviu nas entrevistas?
Pergunta difícil. Churchill era um homem que dava crédito aos outros pelo que faziam. Era um homem que construía os times. Não buscava atenção só para si. Ele era egocêntrico, mas sabia que não podia fazer as coisas sozinho.
Há alguma pergunta sobre Churchill que não fiz e que o senhor gostaria que eu tivesse feito?
Acho que cada um tem uma responsabilidade. Temos de ter muito claro a nossa função pública, sendo pessoas privadas. A sociedade, para passar de uma geração a outra, precisa de ideias justas, certo? Você não precisa ter todo mundo, mas é necessário ter líderes, que não precisam ter 10 milhões de seguidores. Henry Ford (1863-1947) dizia que qualidade é aquilo que as pessoas fazem quando ninguém tá vendo. Temos de buscar bons exemplos, e Churchill é um deles.
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