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Cultura

Uma profecia, um presépio sob um viaduto e a persistência do Natal

De Belém antiga ao caos urbano, um acontecimento atravessa séculos e desmonta explicações fáceis

Foto: Reprodução/Redes sociais

“O Natal é construído sobre um belo e deliberado paradoxo: que o nascimento de um sem-teto deva ser celebrado em todos os lares.” (G. K. Chesterton, A Coisa: por que sou católico)

No mundo contemporâneo — e, não raro, também entre cristãos cansados — tornou-se quase um reflexo automático tratar a Bíblia como um livro qualquer, e a história que ela narra como mais uma ficção respeitável entre tantas outras. É o enquadramento cultural dominante, o pano de fundo imaginário do nosso tempo. Mesmo o fiel precisa conviver com essa suspeita permanente, como quem respira um ar contaminado sem perceber.

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Mas há sinais por toda parte que desmentem essa redução, bastando um mínimo de atenção para percebê-los. Um deles é a estranha espessura do tempo bíblico, sua continuidade quase escandalosa. Tome-se o caso da profecia. Os textos atribuídos ao profeta Miqueias, por exemplo, são datados de cerca de 800 anos antes dos Evangelhos. E, no entanto, ali se lê a promessa de um governante que viria de Belém, “pequenina entre os povoados de Judá”, cuja origem remonta “aos dias da eternidade”, e que seria, ele mesmo, a Paz. Eis o que se lê em Miqueias 5, 1-4:

“Assim diz o Senhor: Tu, Belém de Éfrata, pequenina entre os mil povoados de Judá, de ti há de sair aquele que dominará em Israel; sua origem vem de tempos remotos, desde os dias da eternidade. Deus deixará seu povo ao abandono, até o tempo em que uma mãe der à luz; e o resto de seus irmãos se voltará para os filhos de Israel. Ele não recuará, apascentará com a força do Senhor e com a majestade do nome do Senhor seu Deus; os homens viverão em paz, pois ele agora estenderá o poder até os confins da terra, e ele mesmo será a Paz.”

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Independentemente da fé de quem lê, há um dado incontornável: o autor daquele texto desconhecia completamente os Evangelhos. Se se tratasse apenas de literatura humana, de imaginação religiosa ou engenho poético, seria difícil explicar tamanha precisão atravessando séculos. O Natal não surge como improviso tardio, mas como cumprimento. E isso perturba profundamente a ideia moderna de que estamos diante de mitos intercambiáveis.

O Natal é um fato, simples e desconcertante, que continua a inverter as categorias com as quais tentamos domesticar o real. G. K. Chesterton notou-o como poucos. Em O Homem Eterno, descreveu Belém como o lugar onde os extremos se encontram: onipotência e impotência, divindade e infância. No enigma do presépio, dizia ele, “era o céu que estava embaixo da terra”. O infinito se fez mínimo; o absoluto aceitou caber numa concavidade escura. O drama divino começou não num palco elevado, mas num rebaixo invisível aos olhos apressados.

O Natal é um fato persistente, pois que nasceu ao mesmo tempo como acontecimento singular e símbolo universal. Outro dia vi a imagem de um presépio feito com materiais recicláveis sob um viaduto do Rio de Janeiro, cercado por pertences de moradores de rua. Provavelmente foi construído por um deles. Ali, no coração do caos urbano, num dos cantos mais humildes da cidade, a cena original se repetia com espantosa fidelidade. Como na trégua de Natal de 1914, nas trincheiras da Primeira Guerra, a luta pela sobrevivência material era momentaneamente suspensa por uma exigência mais alta. Como lembrou Manuel Bandeira, o bicho era um homem — e continua sendo.

Tentam acabar com o Natal desde Herodes. Não conseguem. Ele insiste em reaparecer onde menos se espera, nos lugares mais humildes, como no primeiro dia. Talvez porque, desde então, a história tenha sido irremediavelmente virada do avesso. E alguns acontecimentos — por mais que o mundo tente reduzi-los à ficção — continuam teimosamente reais.

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