Política e economia decadentes, crimes e imoralidades diárias cuspidos em breaking news incessantes tencionam nossa rispidez pessimista ao ponto de deixarmos de notar belezas e esperanças que, ainda que escondidas, existem e devem ser exaltadas. O homem é esse conglomerado de carne e consciência que, seguindo por vezes a voz metafísica de sua alma, por outras os costumes e caprichos do mundo, se molda e se deixa levar por virtudes e vícios, por santidades e crimes. Apesar de o mundo “jazer em trevas”, há sim luzes de bondade que se acendem como faroletes; e se nossa carne é caída desde Adão no lamaçal do pecado, ainda assim, nessa lama, está o barro em que Deus soprou.
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No romance histórico Os Noivos, de Alessandro Manzoni, uma das personagens da trama é um tirano que comanda toda uma região da Itália fragmentada do século 17. O Inominado (L‘Innominato) — como é chamado pelo narrador — fez sua fama por meio de crimes, mortes e favores prestados a pessoas de poder na Itália, tendo sob seu controle vários homens célebres da região. Outro nobre mesquinho da mesma localidade, gozando dos benefícios de ser dono de um conglomerado de famílias em um vale qualquer daquele país, se achou no direito de tentar tomar à força Lucia, uma plebeia, noiva de um jovem tecelão da aldeia. Rodrigo recorre, então, ao Inominado para raptar Lucia.
A fama do Inominado era de ser irredutível em seus deveres e promessas e, por isso, se apressa em atender ao pedido. No entanto, Dom Rodrigo não contava que o Inominado estava passando por uma crise de consciência, e do alto de seus sessenta e poucos anos, encontrava-se cada vez mais molestado por um inquiridor ontológico, que pedia a ele que revogasse suas ações criminosas, que se arrependesse de seu passado e buscasse pacificação com Deus. O Inominado estava passando pela “metanoia”, que os cristãos da antiguidade remetiam ao evento de tomada de consciência dos erros passados e presentes, seguido de uma busca vigorosa por reparação e paz de espírito; era a voz que Saulo escutou antes de ser Paulo; o inebriamento que Santo Agostinho teve antes de ser batizado.

O Inominado então se encontra com o arcebispo Federigo, um clérigo cristão para além das pompas da batina, fiel a Deus até os ossos, humilde e amoroso nos tratos humanos. O encontro do Inominado com o purpurado é o ponto de virada na narrativa do livro, é a chave que abre a via para o desfecho do drama. O Inominado passa a dedicar sua vida restante à virtude, caridade e reparação, transformando sua fortaleza de terror em um refúgio para os pobres e necessitados. Ele se torna um benfeitor e um modelo de penitência, demonstrando que a conversão não foi um evento isolado, mas o início de uma nova vida. Seu destino, transformado pela fé e pelas obras, é consistente com os temas de providência e redenção que permeiam o romance.
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Uma das principais críticas à obra de Manzoni está numa suposta infantilidade do desenrolar da trama, principalmente no que diz respeito à conversão do ditador citadino. A crítica se faz à esteira de uma pensada irrealidade da conversão do Inominado, como se aquilo não fosse razoável e crível. Essa crítica dispensa, no terreno do impossível, a mudança radical de caráter e ações de um indivíduo por meio da fé, legando para a fantasia a possibilidade de conversão profunda. Cabe notar que, ninguém — ou quase ninguém — questionou o grau de veracidade da conversão moral de Jean Valjean em Os Miseráveis, talvez por Victor Hugo ter dotado a obra de um caráter político que agrada aos comentaristas militantes, talvez ainda porque o romantismo do francês apeteça mais aos olhos dos acostumados a crer que mudanças de caráter se dão pela via da pregação ideológica, imanente, e não pelo aquecer e acordar de uma consciência humana divinizada. Mas isso é papo para outro dia.
O fato é que, por trás da obra de Manzoni está uma mensagem muito esquecida em nossos dias: apesar de o mal existir, ser incansável e quase perene, o bem e a Providência também existem, e podem consertar um homem de caráter torto, por mais torto que ele possa ser. É possível se emendar, remendar, arrepender-se com sinceridade e mudar de conduta, pensamentos e ideias; o esforço realmente hercúleo para essa mudança é, todavia, menor que o padecimento e o sofrimento da alma em uma prisão de vícios, arrependimentos e medos — que nos diga Raskólnikov.
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Está chegando aquela época do ano em que o calendário civil ainda faz memória ao nascimento de Jesus, justamente o homem que fez o Inominado voltar ao aprisco do que é bom e justo, da paz de consciência. O Nazareno, que trouxe uma mensagem de amor e caridade radical, de mudança de conduta profunda, que tirou a mesquinharia política e econômica do centro para colocar a mais difícil das reformas sob o holofote do que importa: o conserto de nossos defeitos e tendências morais profundas. Para os que duvidam: o que é mais fácil fazer, doar dinheiro ao pobre mendicante por dever cívico ou doar dinheiro ao pobre e mendicante e, ainda por cima, amá-lo como irmão como mandou o filho de Maria?
A mensagem do Cristo, a verdade esquecida na literatura niilista e cética, por vezes centrada em demasia na decadência do homem, é que mesmo em meio ao lixão de nossos atos, pensamentos e ideias, há uma fagulha divina pronta para aumentar caso a alimentemos corretamente, caso decidamos de forma real pela mudança. Ser bom é trabalhoso, mas ser hipócrita e maldoso não compensa ao final, pois, se o inquiridor de nossos erros tem um palacete em nossa mente, e se existe uma vida além desta, mais difícil seria justificar nossas mesquinharias, vícios, burrice e safadeza moral ante ao juiz das almas.
O Inominado — que poderia ser qualquer um de nós — pergunta ao cardeal Federigo: “[…] Se há este Deus, se é aquilo que dizem, o que quereis que faça de mim?”. Ao que responde o religioso: “Quem sois vós, pobre homem, que pensais ter sabido por vós mesmo imaginar e fazer coisas maiores no mal, que Deus não possa fazer-vos querer agir no bem? O que pode fazer Deus de vós? E perdoar-vos? E tornar-vos salvo? E completar em vós a obra da redenção? Não são coisas magníficas e dignas dele?”.
É possível…






































Prezado Autor, aceite meus humildes agradecimentos pelo belo trabalho. No pandæmonium que o mundo todo se encontra, cada referência do texto foi um balsâmo.