O ex-presidente da França Nicolas Sarkozy começou a cumprir sua pena de cinco anos nesta terça-feira, 21. A Justiça francesa o condenou por conspiração criminosa, sob acusação de receber recursos da ditadura líbia para financiar sua campanha presidencial de 2007. O político foi autorizado a levar três livros para o cárcere, prática comum no sistema penitenciário. Contudo, suas escolhas literárias rapidamente renderam comentários da imprensa europeia sobre seu teor simbólico.
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Antes de ser detido, em entrevista ao jornal Le Figaro, Sarkozy revelou os títulos que o acompanhariam na cela. A primeira obra é uma biografia sobre Jesus Cristo escrita pelo historiador Jean-Christian Petitfils. Sua segunda escolha foi a que chamou maior atenção dos jornais: o clássico da literatura O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.
Por causa do tamanho da magnum opus de Dumas, que em edições brasileiras ultrapassa 1,5 mil páginas, Sarkozy teve de abrir mão do terceiro livro. Sua edição de O Conde de Monte Cristo está dividida em dois volumes.
Sarkozy e Dantès: o espírito da vingança
Publicado em 1846, o calhamaço de Dumas narra a jornada de Edmond Dantès, um homem injustamente preso na Ilha de Marselha. Seus dois tomos revelam a trajetória do protagonista até se tornar o poderoso Conde, que intitula a obra e busca vingança contra todos que o condenaram.
É justamente o elemento da retaliação que ganhou destaque em sites europeus, especialmente o Euronews. “Não se pode afirmar que Sarkozy se identifica com Dantès”, diz o texto do jornalista David Mouriquand. “Mas a escolha do livro parece estar longe de ser coincidência.” A publicação também aponta como o ex-presidente francês, em mais de uma ocasião, alegou ser inocente, inclusive a caminho da Penitenciária de La Santé.
O escritor e filósofo italiano Umberto Eco confirma a importância da vingança no contexto da obra. Em uma resenha, ele destaca que O Conde de Monte Cristo engloba “três situações arquetípicas” no mundo literário: a traição da inocência, o golpe de sorte e a “estratégia da vingança”. Segundo Eco, Dantès é uma figura que remete a Cristo, que representa “uma vítima sacrificial da maldade humana”.
Cristo para balancear as coisas
A outra opção de Sarkozy, publicada como Jésus na França, é uma biografia que tenta abordar a figura de Cristo do ponto de vista historiográfico. Em seu texto, Petitfils se mantém aberto aos “mistérios da fé cristã”, como indica a sinopse da obra. Contudo, também se baseia em achados arqueológicos para expandir uma possível interpretação de uma das maiores figuras da humanidade.
Confira
“Novamente, uma escolha um tanto óbvia”, aponta o portal Euronews. “Mas que, espera-se, deve contrabalançar quaisquer desejos por vingança inspirados em Edmond Dantès.”
Com essas leituras e a companhia de Cristo e Dantès, Sarkozy parece sugerir uma narrativa própria: a do homem traído e injustiçado que busca redenção, e não a de um político condenado por corrupção.
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