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Cultura

O 'piti' de Édouard Louis — a literatura como ataque de pelanca

Quando a ideologia sequestra a filha predileta da cultura ocidental, o texto torna-se um mero instrumento de engenharia social

livros; literatura
Em vez de conservar o que é bom, verdadeiro e belo na tradição de Shakespeare, Dante ou Camões, a crítica ideológica moderna busca 'desmascarar' esses autores | Foto: Reprodução/Pixabay

Vocês leram a entrevista do novo queridinho da esquerda literária, o francês Édouard Louis, à Folha de São Paulo? Eu sim, e ele realmente mostrou ser tudo que promete em suas obras: um militante com “sabor” de literato. Louis produz uma espécie de literatura quase que própria, uma mistura de ficção, autobiografia e manifesto. É tudo ao mesmo tempo. É verdade que a literatura é um campo aberto, com limites e cercas, é claro, pois tudo tem limites, mas as cercas da literatura permitem-se ser abertas e transpostas livremente. E o que o francês faz — parece-me — é trabalhar sobre os limites, ou, em ambos os lados da cerca literária ao mesmo tempo, entre a ficção e a não ficção. E, sinceramente, está tudo ok quanto a isso.

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Confesso que só li um de seus livros, Quem matou meu pai, e pelo que pesquisei, não é o seu melhor, nem mesmo em sua base de fãs. Eu achei bem chato, o tipo de berro adolescente em crise, só que sob uma linguagem sofisticada e pomposa que somente os franceses sabem produzir. No entanto, repito, a mim pareceu ser pura histeria misturada à crise de pelanca ideológica. O grande problema é que, via de regra, os autores esquerdistas, principalmente os progressistas de nosso tempo, não se aguentam; eles precisam tossir suas lamúrias ideológicas em tudo que tocam. É nessas horas que sinto saudade de Umberto Eco; é nesses momentos que Victor Hugo se torna urgente.

Em sua entrevista, Louis descambou a defender a sua literatura de ataques de críticos que não consideram seu estilo uma “literatura em sentido completo”, e para se defender disso adivinha o que ele tirou do bolso: “o autoritarismo da direita”. Foi aí que começou a diarreia lamuriosa progressista. Ele atacou a indústria literária e cinematográfica, dizendo que há nela hoje um processo de “direitização” — o cara está num multiverso interessante —; depois atacou Elena Ferrante, pois, pelo que parece, há nele uma mistura de inveja e incômodo com o purismo da autora, afinal, Ferrante ousa escrever livros sem agendas políticas, o que para ele parece tornar seus livros algo “para adolescentes”; e, para findar tudo, como sempre — adivinhem novamente —, ele é a vítima do “sistema” do capitalismo cultural e do heteronormativismo da indústria livreira. Obviamente ele nunca foi à Bienal do Rio.

Até aí, nada de novo no front, meus amigos. Nada…

Mas, já que Édouard Louis começou, vamos falar sobre o que é ou não é literatura. A literatura, em sua essência mais elevada, sempre foi o espelho da condição humana — um registro das nossas contradições, anseios de transcendência e da busca por beleza em um mundo essencialmente decaído. E a propaganda política em forma de literatura é apenas mais um sintoma dessa decadência. Sob a ótica do saudoso filósofo Roger Scruton, observamos hoje uma transformação perigosa: a substituição da imaginação moral pela hegemonia da ideologia. A experimentação de Louis é isso, em essência.

Para Scruton, a cultura é uma herança que nos oferece um sentido de pertencimento a uma comunidade moral e histórica, onde a liberdade literária não é entendida como a licença para o caos, mas como a autonomia responsável para explorar a verdade sobre a natureza humana sem as amarras de um tribunal político imediato. Quando a ideologia sequestra a literatura — a filha predileta da cultura ocidental —, o texto deixa de ser um “lar” para o espírito e torna-se um mero instrumento de engenharia social, erodindo o conceito de liberdade cultural ao subjugar a estética à utilitariedade.

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Nesse cenário, a obra de arte deixa de ser julgada por sua profundidade e passa a ser avaliada por sua eficácia em avançar agendas específicas; se um romance não serve à “desconstrução” ou à justiça social militante, ele é descartado como irrelevante ou opressor — ou ainda “de adolescente”. Essa corrupção da linguagem, que Scruton frequentemente denunciava, substitui indivíduos complexos por arquétipos de categorias de identidade, promovendo o que ele chamava de “cultura do repúdio”. Em vez de conservar o que é bom, verdadeiro e belo na tradição de Shakespeare, Dante ou Camões, a crítica ideológica moderna busca “desmascarar” esses autores, tratando a herança literária como um simples registro de estruturas de poder. Shakespeare se torna misógino, Dante fundamentalista, e Camões, imperialista. Quando o esteio que julga a literatura não é mais a complexidade cultural onde se assenta a obra, a profundidade de construção do roteiro, a realidade moral dos personagens e a capacidade técnica de quem escreveu o texto, a política então assume o cetro e define tudo na base da fidelidade política e da coerência às agendas. E isso, definitivamente, não é arte, é ideologia.

E é óbvio que essa postura é profundamente liberticida, pois ainda que figure como expressão de liberdade, na verdade ela cerceia a liberdade do leitor de se conectar com o passado de forma orgânica, impondo uma barreira de suspeita que asfixia a empatia estética. Além disso, impõe um pedágio para que a contemporaneidade produza cultura, reflita sobre a existência e cave as complexidades humanas, isto é, alinhar-se previamente a um lado qualquer do embate ideológico de momento. Como o próprio filósofo inglês sugeria, a cultura — e a literatura, por consequência — é o conhecimento acumulado que nos permite sentir que não estamos sozinhos no mundo; logo, a verdadeira liberdade cultural e literária reside na capacidade de uma sociedade sustentar espaços que não sejam políticos, mas meramente relacionais.

E não, nem toda relação é sobre poder, nem toda conversa é sobre política; e se a esquerda moderna o convenceu que sua vizinha idosa pedindo para você trocar um chuveiro é uma espécie de “dialética de poder”, então você está doente, vive oprimido por suas próprias percepções e ideias. Aliás, poucas coisas podem ser mais autoritárias e profundamente fascistas do que julgar que tudo é algo político. Afinal, num mundo assim, não sobra espaço para a liberdade, pois a liberdade necessita de indivíduos autônomos, indivíduos autônomos precisam de comunidades orgânicas nas quais escolham se relacionar e somente essas comunidades humanas — agindo por relação descentralizada, e não escambo político — produzem cultura. Exatamente, e sei que posso chocá-lo agora: não é o seu professor desconstruído e nem Édouard Louis com seus pitis gourmetizados que determinam o que é cultura ou o que ela deveria ser, mas antes os homens livres em comunhão orgânica em suas comunidades.

Por fim, a literatura deve ser um desses refúgios de contemplação desinteressada e entretenimento despojado de disputas. A literatura política tem seu espaço, e é bem-vinda; mas, tal como num banheiro feminino, é bom que ali só haja o que é factualmente feminino. Eu consumo literatura política, só não costumo dizer que Marx e Mises devam ser lidos e interpretados como Proust e Tolstói.

Por isso, vai aqui o meu plot twist: eu defendo que Édouard Louis continue escrevendo, pois é importante manter a liberdade cultural intacta, até para o que é ruim. Existe então, Pedro, boa e má literatura? Se você defende que Colleen Hoover é tão bom quanto Dostoiévski, e que Tudo é Rio é tão bom quanto Dom Quixote, então não; mas, se você pensa, sabe que sim, existe boa e má literatura! Defenderei sempre, no entanto, que todos devem ler o que quiserem ler, livremente, sem amarras, mas também que devemos resgatar a imaginação moral e o cânone dos livros que produzem alta literatura. Não, não olha assim, foi Édouard Louis que começou…

Leia também: O mercado editorial descobre a direita, reportagem de Anderson Scardoelli publicada na Edição 286 da Revista Oeste

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