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Machado de Assis e H.P. Lovecraft se encontram em novo livro de Elton Mesquita

Tradutor e roteirista da Brasil Paralelo aposta na 'contação de história' para fugir da guerra de narrativas

Referências na literatura, H.P Lovecraft e Machado de Assis inovaram com suas obras | Foto: Montagem Revista Oeste/IA
Referências na literatura, H.P Lovecraft e Machado de Assis inovaram com suas obras | Foto: Montagem Revista Oeste/IA

O que aconteceria se Bentinho, um dos protagonistas mais conhecidos da obra de Machado de Assis, se encontrasse com os horrores relatados nos contos de H.P. Lovecraft? Essa mistura se torna realidade no novo livro de Elton Mesquita. Em sua mais recente obra, A Sombra da Guanabara, o escritor, tradutor e roteirista da Brasil Paralelo propõe um “colóquio profano” que deforma a elegância irônica do Rio de Janeiro oitocentista com as tintas do horror cósmico do autor norte-americano.

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A obra é lançada pela Pessôa Editora, que opera como um clube do livro por assinatura, unindo em seu catálogo nomes como Carlos Nejar, Domingos Pellegrini e Bruno Tolentino. Diante de tal companhia, Mesquita entende o peso da missão a que se propôs. “Eu vou ser aquele convidado da festa que vai tentar não chamar muita atenção para não cometer uma gafe”, brincou em entrevista a Oeste. “Eles são realmente gigantes da nossa literatura, e eu sou apenas um gaiato opiniático.”

A ‘deformação’ de Machado de Assis pelo horror de Lovecraft

Nesta releitura de Dom Casmurro, a dúvida que assombra o narrador vai muito além da fidelidade de Capitu. Mesquita reescreve a trajetória de Bentinho sob a premissa de que o horror já estava lá, escondido na própria natureza humana. “Nada que eu pudesse escrever seria tão horrível quanto o Dom Casmurro já é”, afirmou. “Porque o Dom Casmurro é uma história horrível, sobre uma pessoa horrível… o Bentinho é um monstro.”

Lovecraft, por sua vez, tornou-se célebre por contos como O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura e Além da Barreira do Sono. O escritor norte-americano apelava para o mistério e para a existência de criaturas inexplicáveis para propor um diálogo com aquilo que é desconhecido pela humanidade.

Em A Sombra da Guanabara, Elton Mesquita utiliza esse conceito chamado de “horror cósmico” para introduzir uma “cousa sem nome” que espreita as entrelinhas de Machado de Assis. Diferentemente de seres naturais, cuja intenção podemos compreender, o horror lovecraftiano na obra de Mesquita apresenta uma hostilidade cega e ancestral, o “inefável”, que deforma a razão de Bentinho diante da impossibilidade de descrevê-lo.

Para Mesquita, o “casamento esquisito” entre os dois estilos funcionou como um pastiche técnico. Ele adotou o estilo de Machado para descrever o indescritível de Lovecraft, transplantando trechos originais de obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas e o conto A Causa Secreta para a nova narrativa. “O original é um horror mais refinado, interiorizado, psicológico e da vida real. O meu acabou virando uma fantasiazinha inofensiva.”

Visão literária e contemporaneidade

Aos 43 anos, Mesquita traz para sua ficção o rigor de quem já traduziu autores como James Joyce, Stephen King e Agatha Christie. Sua visão sobre a literatura contemporânea é crítica em relação à excessiva politização das narrativas, que, segundo ele, rebaixam o horizonte da imaginação.

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“Eu acho que, quanto mais política, menos humano”, provocou o roteirista. “A humanidade levanta questões que a política não abarca totalmente.” Com isso em mente, Elton defende a “contação de história” e acredita que a literatura brasileira deve fugir de distinções artificiais entre a alta cultura e o entretenimento, focando no retorno ao cuidado estético e narrativo.

O lançamento oficial de A Sombra da Guanabara ocorre no dia 26 de fevereiro, em São Paulo, no Espaço Paulista (Avenida Paulista, 807 – 17º andar), das 18h às 22h. O evento contará com a presença de Mesquita, do escritor Bruno Magalhães e da equipe da Pessôa.

Confira abaixo, com exclusividade, um trecho do novo livro de Elton Mesquita:

Finda a última aula, fiz-me lento, um vagar calculado e deduzido, de forma a ser o último a sair da sala, no final da fila que se dirigia à capela para as vésperas. Enquanto os colegas saíam, temperando a circunspecção do costume com algum gracejo sussurrado, meti a mão dentro da carteira e retirei o caderno em um só movimento. Vi que havia um lema inscrito na capa: Et quibusdam aliis. A curiosidade pôde mais que a discrição e o medo de ser surpreendido, e abri-o rapidamente em uma página ao acaso enquanto caminhava em direção à porta.

Olhei e vi, e o caderno caiu-me das mãos, abrindo-se ao bater no chão. Dei dois passos para trás, nauseado e subitamente tenso.

O que era aquilo que eu vira de relance? As páginas agora expostas mostravam apenas um texto escrito em caligrafia pequena e amontoada, onde se cruzavam símbolos que sugeriam algum sistema de notação, mas o que eu vira… mesmo hoje não sei precisar o que era, e do que me ficou, guardei apenas a sensação de alguma disposição talvez biológica, ou amostra de mineral ou fungo estranhamente deformado. Sei que os únicos elementos que consegui relacionar à minha experiência mais imediata sugeriam cerdas, talvez dentes, cachos bulbosos esburacados por onde assomavam estruturas que um botânico talvez chamasse de pistilos ou anteras… tudo disposto em número e posições que sugeriam a mais delirante antiguidade (perdoa as deficiências do estilo, que manqueja e se prostra inútil diante do inefável; já verás que é impossível lidar com certas coisas sem perda sensível das faculdades expressivas e cognitivas). Havia ali uma intenção alheia, completamente apartada do que conhecemos como o mundo natural.

Como explicar-me? Considera o tigre. Não importa qual seja teu risível sistema de crenças, por certo és capaz, com algum esforço de imaginação, de depreender o que quer que possamos chamar de arrazoamento, intelecção, intenção — pronto, a justificação do tigre! Da mesma forma pressenti algo por trás daquela ilustração, e fui tomado por um sentimento instintivo de repugnância e medo, pois não alcançava a justificação daquilo, apenas intuía uma hostilidade sem objeto definido, cega e ancestral, que a tudo abarcava.Pensei em sair correndo da sala, deixando o caderno no chão e entregando o assunto ao Deus em que eu ainda achava que cria. Notei que o último colega olhava por cima do ombro em minha direção ao se afastar com a fila, e comecei a suar. E se eu não tivesse sido tão sutil quanto pensava, e alguém me tivesse visto? O caderno quedava-se no chão, como se à espera. E se eu desse só mais uma olhada…? Quando dei por mim, estava balbuciando sons desconexos, tentando pronunciar a única palavra escrita em algo parecido com o alfabeto romano, que eu vira de relance abaixo da ilustração, e que parecia ter se gravado em minha memória sem que eu desse por isso. Não sei se a reproduzo fielmente, dada a sua estranha morfologia: “SHǑH·ĠĠǑTH”.

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