Seria possível que um novo Renascimento esteja a caminho? Para a revista National Review, essa ideia ganhou impulso com a publicação de The Golden Thread (“O Fio Dourado”, em tradução), obra em dois volumes escrita pelos professores James Hankins, de Harvard, e Allen C. Guelzo, de Princeton. O primeiro volume chegou aos EUA neste ano, e o segundo está previsto para 2026. Mesmo sem previsão de tradução no Brasil, o livro merece atenção: segundo a revista norte-americana, ele recoloca o Ocidente no centro das discussões sobre herança cultural e identidade histórica.
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O título, inspirado no fio usado por Teseu para escapar do labirinto do Minotauro, reforça a missão dos autores. Eles defendem a ideia de que o ambiente universitário perdeu contato com os fundamentos do Ocidente. Em entrevista a Oeste, Guelzo afirma que esse afastamento cria riscos reais para a vida pública.
“A eliminação da memória é sempre o primeiro recurso dos tiranos, porque sem o conhecimento do que veio antes as pessoas não têm com o que comparar nem como resistir”, afirma. Para ele, a erosão das humanidades reduz a capacidade de julgamento das novas gerações. “Cícero afirmou que quem não conhece a história está condenado à infância eterna. Não saber de onde você veio no tempo é tão ruim quanto não saber o lugar de onde você veio.”
Obra abrange do mundo antigo ao século 20
A divisão da obra segue a especialização de cada autor. Hankins aborda o mundo antigo, medieval e renascentista. Guelzo trata do Iluminismo e dos séculos 19 e 20. “Faz sentido dividir as tarefas dessa forma”, diz o professor de Princeton. Ele lembra que os dois mantêm “mais de 50 anos de amizade intelectual”, o que ajuda a costurar o conjunto.
Segundo Guelzo, a dupla “passou anos” debatendo os temas dos volumes. O resultado, afirma, transmite ao leitor a impressão de “uma mente compartilhada”. Apesar do tom crítico ao estado das universidades, os autores evitam tratar o passado como idealizado.
“A História nos pede que pausemos e consideremos nossas decisões com base em outras decisões”, afirma. “A cultura ocidental não é mais culpada por seus erros do que outras tradições civilizatórias. As universidades deveriam almejar, de maneira ampla, a revitalização das humanidades.”
O primeiro volume percorre o mundo grego, romano e cristão, com ênfase nas continuidades que sustentaram o Ocidente ao longo de três milênios. Hankins inicia pela Batalha de Maratona, apresentada como marco na defesa da liberdade. A narrativa segue pela República Romana, pela formação do Império, pela cristianização e pela reconstrução que sucedeu à queda de Roma.
A metáfora do “fio de ouro” resume a tese central: essa herança esteve perto de desaparecer em vários momentos. “Quase perdemos toda ligação com o passado depois da queda de Roma”, afirma Guelzo. Ele cita ainda os períodos turbulentos depois da peste do século 14 e as guerras religiosas europeias. “Sobrevivemos, nas palavras de Kenneth Clark [historiador], ‘por pouco’. Contudo, a tradição ocidental sempre demonstrou resiliência.”
Debate sobre passado e identidade no Ocidente
A obra também confronta a tendência de hostilidade à tradição ocidental no meio acadêmico, especialmente em sua introdução. Para Guelzo, a leitura que reduz o passado a falhas morais isoladas limita a compreensão da própria ideia de Ocidente. “Isso seria uma forma de esnobismo”, afirma. “Até criticar os erros do passado exige conhecimento prévio dele.”
Ele sustenta que o estudo das humanidades deveria estimular o que chama de “orgulho adequado”, um sentimento que deve estar ligado à prudência. “É como o respeito que temos pela vida de nossos pais e avós; sabemos que tornaram a nossa possível, mas também reconhecemos suas limitações.”
Guelzo conclui que a crítica ideologizada ao Ocidente prejudica o debate público. Para ele, a saída passa pela recuperação de um “corpo comum dos grandes textos” e pela ampliação do espaço dedicado a línguas, artes e música. A dupla espera que The Golden Thread ajude leitores a reencontrarem o elo com o passado. “Os humanos não são máquinas”, afirma. “Eles precisam de uma mesa posta para a fome por arte, vida e ordem.”
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Na minha juventude eu não gostava de ler sobre história mas depois de uns anos e principalmente na minha fase adulta passei a ler sempre sobre temas históricos, principalmente sobre a história do Brasil.