(*) por Francisco Lauande Junior
“A arte hoje quer nos mostrar o que é repulsivo; a arte de antigamente queria transformar o que é repulsivo em algo belo.”
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Roger Scruton
O Koizumi Lighting Company Building, de Peter Eisenman, construído entre 1988 e 1990 em Tóquio, até hoje suscita interpretações que o retiram da proteção do vocabulário indulgente da crítica rasa e geram discussões muito pertinentes aos tempos atuais. Não se trata de um “experimento formal”, nem de uma “provocação intelectual”, e sim de um objeto ideológico consolidado a partir do pensamento filosófico desconstrutivista do francês de origem argelina Jacques Derrida (1930–2004). É uma obra arquitetônica que, como simbologia, constitui um dos emblemas da destruição das bases simbólicas da autonomia do pensamento no exercício da razão.
Ao incorporar a desconstrução derridiana de forma literal e acrítica, o projeto foi concebido para representar o pensamento da pós-modernidade, institucionalizando-o no espaço. Com efeito, o Koizumi Building, de forma falaciosa, liberta o sujeito do racionalismo cartesiano apenas para privá-lo das condições necessárias para pensar com clareza, coerência e até mesmo com resistência. O desconstrutivismo, ao ser incorporado à arquitetura, revelou sua verdade final: uma ferramenta de dominação como “tecnologia da dissolução” da racionalidade. Cabe aqui chamar a atenção do leitor para a maneira como o resultado formal foi pensado: nos andares mais altos, as formas desconstruídas insinuam a gradual desconstrução do arranjo cartesiano dos andares inferiores. Trata-se de um efeito ardiloso cujo objetivo, grosso modo, é evidenciar o pensamento desconstrutivista — eliminar as oposições binárias e ressignificar conceitos. Contudo, o arquiteto deixa escapar a real intenção de um pensamento opressor, isto é, algo imposto de cima para baixo. As verdadeiras mudanças culturais, ao contrário, surgem de maneira orgânica, de baixo para cima.

Como consequência, os verdadeiros operadores das transformações emergem de modo natural, sem que o povo tenha de se submeter às vontades de algum diabólico iluminista que, vestindo toga, se autoproclama ente providencial com o suposto condão de mudar a história.
O mal do construtivismo
Cabe lembrar que o desconstrutivismo no pensamento de Derrida nasceu como crítica à metafísica da presença. Ao negar qualquer possibilidade de fundamento, verdade ou centro, cometeu um erro estrutural: confundiu crítica com corrosão total. Ao dissolver todas as hierarquias, dissolveu também os critérios. O que resta, então, quando não há verdade, nem sentido estável, nem referência, é a interpretação infinita, resultando numa espécie de disfunção da capacidade cognitiva. O desconstrutivismo, ao ser retirado do campo filosófico e aplicado ao mundo material, revela seu efeito real: a dominação pela desorientação incessante e permanente.
Peter Eisenman traduziu Derrida para a arquitetura, radicalizando seus efeitos mais destrutivos. No Koizumi Building, a arquitetura deixa de cumprir uma de suas funções civilizatórias básicas: organizar o espaço de modo inteligível para o corpo e para a mente. O edifício não comunica, não orienta e não estrutura. Ao contrário, fragmenta, confunde e interrompe — é um ataque direto à inteligibilidade. O espaço deixa de se oferecer ao pensamento e passa a atuar como meio para sabotá-lo.

Recorrendo ao pensamento cartesiano, essa inteligibilidade passou a ser considerada um dogma da opressão. Entretanto, o cartesianismo é, de fato, uma conquista cognitiva. Os eixos cartesianos X e Y não apenas se opõem, mas ganham sentido na maneira dialógica como se relacionam. Essa relação permite orientação e crítica. Ao desconstruí-los, o desconstrutivismo desconsidera conquistas da modernidade e induz à aceitação de um novo estágio que, na prática, representa uma regressão a um estado pré-racional, no qual nenhum significado se fixa ou se sustenta. O projeto do Koizumi Building é a morte do espaço cartesiano celebrada como virtude intelectual. O resultado, porém, é o desamparo cognitivo, que serve de palco para a crise da razão, ancorada na ideia fixa de que a semântica é instável por definição — o colapso do sentido.

Ocidente dominado
Quando o espaço deixa de sustentar significados estáveis, torna-se terreno fértil para aquilo que passou a ser chamado de guerra semântica. O resultado formal do Koizumi Building remete à irrelevância do sentido universal dos significados, pois a coerência deve estar sempre sob suspeita, e verdades consagradas passam a ser tratadas como ficções ultrapassadas. Trata-se, portanto, de um arranjo formal que está longe de ser inocente. Um sujeito treinado a viver sem referências torna-se vulnerável ao poder; molda-se a ele. A arquitetura desconstrutivista pretende simbolizar o combate à dominação, mas, ao contrário, prepara simbolicamente o terreno para ela, como se vê, por exemplo, na proibição do uso de determinadas expressões na linguagem cotidiana.
Essa dominação, muitas vezes difusa, exercida por um poder globalista, sobretudo nos países do Ocidente, é, de fato, totalitária. Governa com mais eficácia quando o sujeito está confuso, cooptado e incapaz de articular críticas consistentes. A obra de Eisenman funciona como um dispositivo não apenas simbólico, mas também biopolítico da confusão semântica, produzindo sujeitos acostumados à incoerência e à ausência de sentido. A arquitetura, nesse caso, não oprime pelo excesso de ordem, mas pela negação total de uma estrutura racional. É o controle pela desorientação: sujeitos desorientados são mais suscetíveis à manipulação ideológica.
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Essa desorientação é típica dos tempos de pós-verdade, que não nasce apenas da mídia ou da política, mas do momento em que a própria cultura abandona a ideia de verdade. Ademais, torna-se mais conveniente cancelar opositores do que admitir erros ou oferecer espaço ao contraditório. No pensamento desconstrutivista, o que é verdadeiro deixa de importar — resta apenas a multiplicidade de leituras. Nesse contexto, mentir torna-se mais fácil, pois, como ensina um aforismo de Nietzsche, não há fatos, mas interpretações — interpretações moldadas à conveniência. A arquitetura desconstrutivista fornece o ambiente simbólico ideal para a disseminação da mentira estrutural.
O fim da capacidade crítica
Nesse ambiente simbólico, as formas desconstruídas reduzem a capacidade crítica, produzindo uma espécie de entorpecimento que embota a consciência humana — consciência que, afinal, é o que confere sentido ao espaço arquitetônico. O arranjo dessas formas transforma o caos em normalidade, gerando uma estética de enaltecimento do niilismo, sem apontar para algo melhor. Conquistas civilizatórias da existência humana são dissolvidas de maneira deliberada.

O Koizumi Building, portanto, sob o verniz de uma obra arquitetônica vanguardista, é um dos primeiros sintomas de um erro intelectual profundo. Ao materializar o desconstrutivismo sem a responsabilidade ética inerente à estética, Eisenman criou uma obra que simula libertação, mas que se tornou parte relevante de uma iconografia a serviço da maior crise da razão de que se tem notícia. Em tempos de aguda polarização política e de guerra cultural, a emoção passa a desconstruir a razão de maneira deletéria, impondo uma obediência cognitiva que atinge, sobretudo, os jovens.







































Ola. Belo texto. Nao encontrei o nome do autor. Mas mande minhas saudacoes. Voltando ao texto, logo imaginei um jovem de 20 anos, franjinha de pai ausente, cara de “talba” de pirulito (de tanto furo) e pele pixada. Um retrato da confusao de negacao daquilo que nem teve chance de conhecer