Jovens manifestantes em diferentes partes do mundo passaram a adotar uma caveira sorridente com ossos cruzados e um chapéu de palha como símbolo de resistência em protestos contra os governos do Nepal e da Indonésia. A bandeira originalmente pertence a Monkey D. Luffy, protagonista do mangá e anime japonês One Piece.
O emblema, que representa os piratas do Bando do Chapéu de Palha, surgiu entre bandeiras nacionais e cartazes feitos à mão em manifestações deste ano. A trajetória de Luffy, que busca o tesouro lendário One Piece e enfrenta governos opressivos, inspirou protestos em ambientes onde há denúncias de autoritarismo.
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O mangá já vendeu cerca de 600 milhões de exemplares desde sua estreia, em 1997, e o anime, ainda não finalizado, ultrapassou mil episódios transmitidos. Escrita por Eiichiro Oda, a obra se tornou objeto de disputa política entre os fãs. Há quem veja em Luffy um revolucionário comunista, enquanto outros enxergam um ideal libertário.
A narrativa de One Piece aborda temas como escravidão, centralização de poder e racismo — em meio a um mundo ousadamente fantasioso. Luffy, um adolescente que adquiriu poderes que tornam seu corpo como borracha, é um pirata idealista, que sonha em se tornar o Rei dos Piratas. Na jornada, ele e seu bando se envolvem com os dramas dos povos que visitam, ao invés de praticarem saques e outros crimes habituais da pirataria.
Em um dos arcos, Luffy derrota um tirano que, movido por ressentimento contra o racismo que ele e seu povo sofriam, escravizou uma ilha inteira. Em pelo menos outros dois, o protagonista restaura o poder a monarquias absolutistas reconhecidas pelo povo. Mais à frente, ele declara guerra ao chamado Governo Mundial, uma estrutura de poder burocrática, corrupta e centralizadora.
O mangá é publicado pela editora japonesa Shueisha, enquanto o anime é produzido pela Toei Animation. Os episódios estão disponíveis na plataforma Netflix, que também é responsável pela adaptação em live action da obra, cuja estreia aconteceu em 2023, com orçamento em torno de US$ 18 milhões por episódio.
One Piece e a identificação com o público
No Nepal, a bandeira dos Piratas do Chapéu de Palha foi pendurada nos portões de prédios governamentais incendiados durante manifestações contra nepotismo e corrupção, que resultaram em mais de 20 mortos. Tanto manifestantes quanto pessoas ligadas ao governo estão entre as vítimas.
Já na Indonésia, a bandeira se destacou em protestos motivados por auxílios-moradia de US$ 3 mil mensais destinados a parlamentares. Autoridades chegaram a ameaçar de detenção de quem exibisse o símbolo em 17 de agosto, data nacional, antes de o governo cancelar o benefício.
Em entrevista ao jornal norte-americano The Wall Street Journal (WSJ), Matt Alt, especialista em cultura japonesa, disse achar “inevitável que movimentos de protesto liderados por jovens venham a incorporar imagens de anime”. Segundo ele, personagens que desafiam autoridades adultas transformaram o anime em uma linguagem comum para a juventude mundial.
De acordo com Roland Kelts, professor visitante na Universidade Waseda e estudioso da cultura japonesa, personagens como Luffy são “mukokuseki”, ou seja, sem etnia definida, o que facilita a identificação global. “A versão ilustrada e maleável de Luffy imediatamente vira o seu Luffy, onde quer que você esteja e qualquer que seja seu idioma”, disse ao WSJ.
Os fãs, de fato, adaptam a figura de Luffy à sua própria ideologia. No Reino Unido, a bandeira apareceu em atos pró-Palestina e em manifestações contrárias à visita de Estado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Na França, manifestantes usaram o símbolo em protestos contra o governo do presidente Emmanuel Macron.
Nos Estados Unidos, embora o uso seja recente, a bandeira foi vista em publicações on-line de protestos em Los Angeles contra as políticas de imigração do governo. No último sábado, 20, o símbolo marcou presença em uma manifestação em Nova York, onde ativistas criticaram a Apple pelo uso de minério de cobalto oriundo da África.
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