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Cultura

10 músicas para entender Miles Davis em seu centenário

Do cool jazz dos anos 1940 ao funk eletrificado da década de 1980, dez faixas que percorrem as muitas reinvenções do trompetista

Miles Davis liderou praticamente todas as grandes viradas do jazz | Foto: Divulgação/Miles Davis Estate
Miles Davis liderou praticamente todas as grandes viradas do jazz | Foto: Divulgação/Miles Davis Estate

Miles Davis nasceu há exatos 100 anos, e poucos artistas moldaram a cultura do século 20 com a força do trompetista norte-americano. Mais do que um músico genial, tornou-se um farol estético que influenciou da literatura à moda, da atitude rebelde dos escritores da Geração Beat, como Jack Kerouac, ao experimentalismo pop de figuras como Prince. Miles deixou uma obra vasta para além de seu próprio tempo.

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Sua trajetória revela a própria evolução do jazz. Onde outros artistas encontrariam um estilo e nele se acomodariam, Miles preferia implodir o passado. Desde o início da carreira, em 1943, ele liderou praticamente todas as grandes viradas do gênero: acelerou o ritmo no pós-guerra, criou uma vertente mais lenta e elegante nos anos 1950, libertou os músicos das amarras dos acordes tradicionais e, já nos anos 1970, eletrificou o som ao misturá-lo com o rock e o funk. Ele foi, acima de tudo, um visionário obcecado pelo futuro.

Esta seleção reúne dez faixas que ajudam a entender essas metamorfoses e o motivo de seu trompete continuar soando tão vital e contemporâneo.

1. Venus de Milo (1949)

Venus de Milo apresenta um jovem Miles que ajuda a moldar o cool jazz. Ligada às sessões que originariam Birth of the Cool, a faixa troca a velocidade agressiva do bebop por um som mais elegante, contido e atmosférico. O trompete surge menos explosivo e mais melódico. Décadas antes de o minimalismo virar tendência, Miles já entendia a força da contenção.

2. ‘Round Midnight (1957)

A composição de Thelonious Monk ganha uma interpretação melancólica e econômica nas mãos de Miles. Cada pausa parece calculada; cada nota carrega peso emocional. A faixa marca a consolidação do trompetista como líder de banda e mostra um artista interessado menos em virtuosismo técnico e mais na construção de atmosfera.

3. So What (1959)

A abertura de Kind of Blue se tornou uma das gravações mais influentes da história da música. Em vez das estruturas harmônicas complexas do bebop, Miles aposta em poucos acordes e amplia o espaço para a improvisação. A conversa entre o trompete do líder e o saxofone de John Coltrane transforma a faixa num marco definitivo do jazz modal. Parece simples, mas não é.

4. Flamenco Sketches (1959)

A faixa que encerra Kind of Blue representa o lado mais espiritual de Miles Davis. A música avança sem pressa, quase como uma meditação coletiva baseada em cinco escalas diferentes. Cada instrumentista parece procurar um caminho próprio dentro da estrutura proposta pelo líder. Mais de seis décadas depois, continua soando moderna e impossível de classificar.

5. Concierto de Aranjuez: Adagio (1960)

Miles nunca aceitou fronteiras rígidas entre gêneros. Em Sketches of Spain, mistura jazz, música erudita e a tradição ibérica com o apoio do genial arranjador Gil Evans. A adaptação do Concierto de Aranjuez se concentra na textura e na emoção dramática, ampliando as possibilidades do jazz orquestral.

6. Nefertiti (1967)

Nefertiti funciona como uma inversão das regras tradicionais do jazz. Enquanto Miles e Wayne Shorter repetem a melodia principal de forma quase hipnótica, a bateria de Tony Williams e o piano de Herbie Hancock desconstroem e transformam tudo ao redor. É um dos pontos altos do grupo conhecido como seu Segundo Grande Quinteto.

7. In a Silent Way (1969)

Este tema funciona como a ponte perfeita entre a fase acústica e a era elétrica do trompetista. A música abandona as convenções de estrutura, mas preserva uma delicadeza contemplativa. Sua influência ultrapassaria o jazz, servindo de base para o que o mundo mais tarde chamaria de ambient music e post-rock na década de 1990.

8. Pharaoh’s Dance (1970)

A abertura do icônico Bitches Brew mergulha de cabeça na eletricidade. Jazz, rock, funk e psicodelia aparecem misturados numa colagem sonora intensa, em que a edição de estúdio, feita por Teo Macero, se torna parte da própria composição. Muitos puristas rejeitaram o disco na época; hoje é um marco histórico.

9. Human Nature (1985)

A releitura do sucesso de Michael Jackson resume bem a visão de Miles na reta final da carreira. Em vez de rejeitar a cultura pop, ele a absorve e a transforma em linguagem própria. O trompete assume o papel da voz principal com uma naturalidade impressionante, mostrando um mestre que preferia oxigenar sua arte com as rádios FM a se isolar num pedestal.

10. Portia (1986)

A fase dos anos 1980 ainda recebe menos atenção do que merece. Portia mostra um Miles veterano que dialoga com a modernidade sem soar nostálgico. Sintetizadores convivem com o fraseado econômico do trompetista e o baixo etéreo de Marcus Miller. Há uma elegância nesta faixa, quase cinematográfica, que prova que, aos 60 anos, Miles ainda se recusava a olhar para trás.

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