Apresentações dos cantores populares Juzé, da Paraíba, e Dilsinho, carioca que desde os 13 anos cantava em bares da periferia, foram consideradas cafonas por quem se diz defensor da cultura brasileira. Tais performances precederam o anúncio da convocação da Seleção Brasileira por Carlo Ancelotti, em um palco no Museu do Amanhã. Para muitos outros, porém, embelezaram um espetáculo que tentava realçar algo da identidade do país.
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Ancelotti até parecia ansioso enquanto os artistas se apresentavam ou os discursos se desenrolavam. Mas, mais uma vez, ele não se deixou levar pelos vieses tendenciosos. O discurso que ele fez, humilde, antes de anunciar os nomes, foi uma mostra de como o italiano tem sido importante. Por ser alguém que vê de fora o Brasil, ele sugere à população brasileira que valorize sua própria identidade. A cada fala serena deste italiano aberto ao diálogo, os que o idolatravam por seu sucesso na Europa precisam se render. E aceitar quando ele elogia o potencial do futebol brasileiro.
“Não tenho medo de dizer que podemos ganhar a Copa do Mundo”, afirmou Ancelotti, que, pouco mais de um ano atrás, antes de deixar o Real Madrid, era ovacionado por aqueles que depreciam a capacidade do jogador brasileiro. E que debocham da possibilidade de a Seleção Nacional voltar a vencer a maior competição do planeta. Não, não sou eu quem está falando. É o Ancelotti. Vá dizer a ele que ele não entende de futebol. Vá dizer a ele que Seleção Brasileira é uma barca furada e que não tem condições de voltar ao topo.
O discurso do treinador, aliás, foi tão carregado de profundidade, que nem seria necessária qualquer pergunta corriqueira na coletiva depois do anúncio. Toda a mensagem de Ancelotti estava resumida naqueles pouco mais de cinco minutos de fala, antes de dizer “vamos então para o anúncio”, porque “vocês brasileiros são muito curiosos”. Ele elogiou o Brasil, apesar de todos os problemas. E enalteceu a qualidade do elenco convocado. “Foi muito difícil escolher esses 26 jogadores, porque a concorrência neste país é muito, muito alta.”
Ancelotti fez até o papel de filósofo, ao neutralizar o pessimismo recorrente de parte da mídia, sempre cética e descontente com algo até de menor importância, para afirmar que não existe “equipe perfeita”. Vence, segundo ele, quem é mais resiliente. Foi a maneira de trazer para o futebol a essência da vida. Presente na tese filosófica de Immanuel Kant (1724 – 1804) sobre a “coisa em si”. Trata-se do conceito de que nada é alcançado na totalidade.
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O máximo que aqueles que buscam a perfeição podem fazer é tentar ficar o mais perto possível da realidade como ela é em si mesma. Mas o ser humano nunca consegue ter acesso direto à coisa em si. Todo o nosso conhecimento é limitado aos fenômenos, ou seja, à maneira como as coisas nos aparecem depois de ser organizadas pelas nossas mentes. Não existe lista, time ou técnico perfeito. Tampouco imprensa perfeita. Nesta vida imperfeita, aliás, pode-se muito bem abrir mão da intolerância para aprender com um italiano como Carlo Ancelotti e um alemão como Immanuel Kant. E curtir a brasilidade de Juzé e Dilsinho sem se sentir manipulado.





































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