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Não complicarás

Churchill recomendava que das palavras fossem escolhidas as mais simples, e das mais simples a menor

não complicarás
Foto: Divulgação

Começo hoje uma coluna de outro viés. Destina-se a explicar certas palavras e convidar os leitores a examinar alguns absurdos de nossa vida política. Por sugestão de Augusto Nunes, comecemos por desincompatibilização.

Churchill recomendava que das palavras fossem escolhidas as mais simples, e das mais simples a menor. A política brasileira segue o caminho contrário: alonga e complica. Ou alguém se preocupou com o que o cidadão entenderia por des-in-com-pa-ti-bi-li-za-ção, esta estranha novena de sílabas, quando a formulou? Há candidatos que erram os prazos e até se atrapalham na pronúncia, como Lula quando diz triplex. Se atender aos puristas e disser tríplex, vai disparar perigosos perdigotos boca afora. Aliás, perdigoto veio do nome do chumbinho para matar perdiz, o latim perdicottus, filhote de perdiz.

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Dos consultados, o senador Esperidião Amin foi objetivo: “No sentido ELEITORAL da palavra, é o afastamento do cargo que o cidadão exerce para disputar uma eleição”. Todavia um cipoal de leis define os cargos, os meses de afastamento, como e a partir de quando contar. E valerá a data da publicação do afastamento no Diário Oficial.

O étimo da palavra é o latim patibilis, que deu compatibilis. Escolheram a dedo uma palavra que tem três prefixos envolvidos: “com”, ”des” e “in”, que indicam quatro coisas numa palavra só. O que era patível, isto é, tolerável, tornou-se compatível: tolerável também, mas em companhia. Depois veio incompatível, indicando o contrário da dupla anterior: com e patível. A seguir, desincompatível, a soma de mais duas: “des” e “in”. Mas não parou aí. Desincompatibilização ainda exigiu “za” e “ção” para designar a ação de impedir.

Do mais e do menos cuidará o Tribunal Superior Eleitoral, instância de poder inexistente em democracias referenciais do mundo. Não seria mais simples a liberdade? Que os eleitores votassem em quem quisessem? Afinal já estão grandinhos para saber quem usa os cargos em que está ou estará.

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Professor, escritor e doutor em Letras pela USP, Deonísio da Silva é autor de De Onde Vêm as Palavras (Editora Almedina), entre outros livros.

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5 comentários
  1. PAULO CÉSAR SCANAVEZ
    PAULO CÉSAR SCANAVEZ

    Parabéns, Professor Deonísio. Seus artigos são figurinos elegantes e perfeitos.

  2. Luciano Carvalho de Medeiros
    Luciano Carvalho de Medeiros

    Simples e objetivo. O texto do professor Deonísio vão na contramão das vaidades acadêmicas de seus pares. Seguiu os bons conselhos de Churchill, parabéns!

  3. JOSÉ DE SOUZA PATRÍCIO
    JOSÉ DE SOUZA PATRÍCIO

    Muito bom, professor Deonísio! Descomplicou legal.

  4. Paulo Renato Versiani Velloso
    Paulo Renato Versiani Velloso

    Sinto muito mas neste caso específico, esse prefixos e sufixos são essenciais, não há outra forma de manifestação. Mas foi muito didática a demonstração da formação de nova palavra através desses prefixos e sufixos: patível, compatível, incompatível, desincompatibilizar, e finalmente desincompatibilização. Excelente exemplo.

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