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Brasil

As mudanças do Natal de 2022

O cristianismo triunfou por uma política de cultura que tem ido muito além da religião

natal
Foto: Divulgação/Pix4free

Zeitenwende, mudança de época, é a palavra do ano na Alemanha. Quem fez a escolha foi a Sociedade da Língua Alemã. Como é frequente no alemão, a palavra reúne étimos de dois vocábulos num só: Zeit, tempo, e wende, virar.

Olaf Scholz, sucessor de Ângela Merkel, usou Zeitenwenden para designar o que vem sendo para os alemães e para o mundo a invasão da Ucrânia pela Rússia: uma reviravolta, a irrupção de uma nova era. Mas o que isso tem a ver com o Natal?

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Tem muito a ver, pois se não muda o Natal, mudamos nós, muda o mundo, como no célebre soneto de Machado de Assis dando conta de que um homem não consegue “transportar ao verso doce e ameno” “as sensações da sua idade antiga” para celebrar a “noite cristã, berço do Nazareno”. E conclui com melancolia, sentimento de tristeza sempre presente na obra machadiana: “Só lhe saiu este pequeno verso: ‘Mudaria o Natal ou mudei eu’?”.

Machado de Assis escreveu estes versos em 1901, ano em que o Brasil engatinhava no assoalho de um novo tempo: por ato da princesa Isabel, a Lei Áurea, assim chamada por ter sido assinada com uma caneta de ouro, a monarquia decretara a Abolição em 1888; e no ano seguinte viria outra mudança de peso semelhante, igualmente por decreto: por ato do marechal Deodoro da Fonseca, tinha sido proclamada a República.

A festa de Natal, desde o século IV, quando foi instituída, até hoje, atesta o modo de contar o tempo, dividido entre o que aconteceu antes e depois do marco que foi o nascimento de Jesus. Mas, como admite até mesmo o papa emérito Bento XVI, no livro A infância de Jesus, do ponto vista histórico o Menino nasceu entre os anos 4 e 8 a.C., no reinado de César Augusto, o primeiro imperador romano. Afinal, Herodes, o Grande, infanticida e assassino da própria família, que governara a Judeia como representante de Roma, morrera no ano 4 a.C.

Que lição extraordinária de política e de educação pela cultura nos dá a festa de Natal! Na sequência dos séculos do novo tempo, teremos pinturas, representações, textos e músicas referenciais, como o “Adeste Fideles, composto pelo rei português Dom João IV, e Noite Feliz, dos alemães Joseph Maistre e Franz Gruber, já no século XIX.

Provavelmente, os reis do presépio nunca existiram, mas Marco Polo, que viveu entre os séculos XIII e XIV, escreveu que visitou seus túmulos na Pérsia, atual Irã. Ele não sabia que Frederico Barba Roxa levara os restos mortais dos reis magos para a Catedral de Colônia, na Alemanha, em 1164.

A festa de Natal é a prova mais evidente de que o cristianismo triunfou por uma política de cultura que tem ido muito além da religião, em que o livro, a música e as outras artes cumprem funções estruturantes e inclusivas.

Este colunista deseja Feliz Natal a seus leitores e que todos estejamos prontos para um próspero Ano Novo.

Leia também: “Agressões gratuitas”, reportagem publicada na Edição 92 da Revista Oeste


Deonísio da Silva é professor, escritor, doutor em Letras pela USP e autor também de De onde vêm as palavras (18ª edição, editora Almedina).

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3 comentários
  1. Osmar Martins Silvestre
    Osmar Martins Silvestre

    Obrigado, mestre, eu não sabia que a belíssima “Adeste Fideles” tinha sido composta por D. João IV. Grato pelo ensinamento. Que todos os seus natais sejam felizes.

  2. Fernando Geraldo Monteiro
    Fernando Geraldo Monteiro

    Grande mestre, mais uma vez nos brinda com sua cultura e sabedoria.
    Realmente o cristianismo triunfou na cultura!

  3. Regina Sophia
    Regina Sophia

    Parabéns sr. Deonísio pelo excelente artigo!!! Retribuímos seus votos de Feliz Natal e um excelente Ano Novo!

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