Do pão francês à macarronada de domingo, grande parte da mesa dos brasileiros depende do trigo. Mas o grão está na lista dos raríssimos alimentos que o agro do Brasil ainda não produz em volume suficiente para atender à demanda interna. O jeito é importar. Um ótimo negócio para os argentinos, que devem colher 24,5 milhões de toneladas na safra de 2026. É a maior colheita da história, segundo os registros da Bolsa de Rosário — o principal balcão de negócios da agricultura argentina.
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A Argentina tem praticamente tanta gente quanto o Estado de São Paulo: cerca de 46 milhões de habitantes. É pouco menos de um quarto da população do Brasil. Em 2026, os brasileiros devem consumir quase 12 milhões de toneladas de trigo, mas a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima a colheita nacional em pouco menos de 8 milhões de toneladas. Ao mesmo tempo, a demanda dos hermanos é de cerca de 7 milhões de toneladas.
Trigo por dólar na Argentina
As 17 milhões de toneladas que sobram viram um nutriente em falta na economia argentina: dólares. O excedente é vendido no mercado externo — grande parte comprado pelos vizinhos do país ao lado para fazer uma infinidade de produtos. Além de pão e macarrão, bolos, pizzas, pastéis, lasanhas, as esfirras do botequim da esquina e a maior parte de todas as massas que os brasileiros tanto comem.
Entre consumo e recomposição de estoques, a Conab estima a importação de quase 7 milhões de toneladas. A julgar pelo histórico oficial da balança comercial, os argentinos serão os principais exportadores. As lavouras da Argentina forneceram por volta de 80% de todo o trigo comprado pelos brasileiros no mercado externo ao longo dos primeiros dez meses de 2025. Ganharam US$ 1 bilhão em troca de 4,5 milhões de toneladas do grão.
Por que o agro do Brasil (ainda) não consegue?
A maior dificuldade para a produção no Brasil é o clima. Embora Empresa Brasileira de Tecnologia Agropecuária (Embrapa) tenha desenvolvido plantas adaptadas a regiões quentes como as cultivadas em Roraima, ainda não foi o suficiente para o cultivo interno ter custos competitivos quando comparado ao produto importado.
Assim como os outros grandes produtores mundiais, os gigantes globais desse tipo de cultura não plantam nas áreas tropicais. É justamente a região do globo onde está a maior parte do território brasileiro. Contudo, com a ajuda da Embrapa, os agricultores do Brasil conseguiram vencer essa barreira em outras culturas, como a soja (hoje o carro-chefe do agronegócio nacional), um testemunho de que a autossuficiência — mais do que possível — é bastante provável.
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