Ao anunciar possíveis tarifas extras sobre os produtos brasileiros, Donald Trump deixou frigoríficos e criadores preocupados no Brasil. Resultado: os preços do boi no pasto e da carne no abate caíram — junto com o valor das vendas para a China. Deng Xiaoping, o responsável pela virada da economia chinesa para a prosperidade, diria: “Quando o cachorro leva um tiro, o gato fica mais feliz, porque assim é mais fácil pegar o rato”.
Os norte-americanos formam a terceira maior demanda para os frigoríficos do Brasil. Perdem apenas para os chineses (segunda maior praça) e para o mercado nacional. Os brasileiros comem sete de cada dez bifes engordados e fatiados no país.
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A demanda norte-americana banca 12% de todo o faturamento brasileiro com as vendas de carne no mercado externo. De fato, fica um pouco menor diante do todo. Quando comparada a toda a produção nacional, a parcela cai de dois dígitos para um algarismo: vai para cerca de 4%. Mas não é pouco diante do rebanho nacional.
Na mesa de Trump
Ao longo de todo o país, são 235 milhões de cabeças, entre pasto e curral. Ou seja, uns 4% disso significam por volta de 10 milhões de animais. Equivale a quase toda a população de bois, vacas, bezerros e novilhas de São Paulo, o quarto maior entre os Estados brasileiros.
Assim, no fim das contas, afeta a demanda sobre o equivalente a um rebanho paulista inteiro. São milhões de cabeças que não podem mais ser vendidas pelo preço de hoje, ou o mercado não as absorve. E, se ninguém as compra, o prejuízo fica ainda maior: cada dia extra corresponde a 24 horas a mais de custos com alimentação, vacinas e a gestão de incontáveis riscos bem caros.

Para muitos, há apenas um jeito de evitar uma grande queda: levar um tombo menor para apenas ralar o joelho, em vez de quebrar as duas pernas. Essa estratégia já começou em alguns lugares, conforme verificaram pesquisadores da Universidade de São Paulo. E ainda faltam mais de dez dias para 1º de agosto, data marcada por Trump para a taxação extra começar.
Primeira ralada
O impacto do mero anúncio da decisão do presidente norte-americano se juntou ao ritmo fraco de vendas internas, afirmam os pesquisadores da Esalq, o principal centro da USP para o agronegócio. “O resultado tem sido forte lentidão dos negócios de animais para abate e enfraquecimento dos preços do animal para abate e da carne”, escrevem.
Enquanto a ponta da produção recebe menos, o consumidor nos EUA deve pagar mais caro, mesmo com o reajuste nos valores para a exportação. Esse é o fundamento do ágio: tirar dinheiro tanto dos produtores quanto dos compradores e levar os três para as mãos estatais, em vez de deixá-los na mão invisível do mercado. Quase todo mundo perde, exceto o chinês, comprando peças mais baratas, livres da gordura extra na hora de pagar a conta.
Urna sem picanha
De modo geral, os preços dos cortes bovinos, incluindo o da picanha, podem até cair inicialmente nos açougues brasileiros. Porém, as raladas nos joelhos fazem o mercado se reorganizar. Aí, a produção cai, e o peso na carteira volta a subir no médio prazo. Péssimo para o governo Lula.
Não se faz carne de um dia para o outro. Primeiro, um touro cruza com uma vaca. Depois de meses, nasce o bezerro, que vai para a engorda e, por fim, chega ao abate. Só depois de tudo isso destrincham a carcaça e dela tiram os cortes.
A depender do ritmo e do ânimo dos criadores para manterem seus negócios, a oferta pode ter uma queda brusca em 2026. Justamente no ano da eleição, os brasileiros podem encontrar um osso duro de roer bem na hora de ir às urnas. Daí, não interessa a cor do gato. Importa mesmo é que ele não foi capaz de entregar a picanha.

































Conta mal feita pelo “especialista “ pois os EUA não compram 4% do nosso rebanho mas 4% dos animais abatidos . Abatemos cerca de 40 milhões de cabeças em 2024, 4% disso seriam então 1,6 milhão de cabeças.