A caatinga ainda é tratada, com frequência, como sinônimo de problema. É um erro. Nas últimas décadas ocorreram grandes transformações na região. O Dia Nacional da Caatinga, em 28 de abril, lembra um bioma exclusivamente brasileiro e homenageia o nascimento de João Vasconcelos Sobrinho, pernambucano, agrônomo e ecólogo, pioneiro nos estudos ambientais no Brasil e defensor incansável desse bioma.
+ Leia mais notícias de Agronegócio em Oeste
Receba nossas atualizações
A caatinga ocupa cerca de 11% do território nacional, abrange oito Estados do Nordeste e o norte de Minas Gerais. Apresenta grande diversidade de relevo, clima e vegetação, distribuída por 1.130 municípios, com realidades econômicas, sociais e ambientais distintas. Generalizações, portanto, não cabem na caatinga — nem em seu manejo nem em sua preservação.
Participei da criação da Embrapa Semiárido, em Petrolina, onde trabalhei por cerca de cinco anos com o professor Vasconcelos Sobrinho. Eu o convidei a integrar uma espécie de “conselho de sábios” junto com os professores Manuel Correia de Andrade e Dárdano de Andrade Lima. O objetivo dos conselheiros, em final da carreira e no auge de sua lucidez, era apoiar meu trabalho de coordenação do Programa Nacional de Pesquisa de Avaliação dos Recursos Naturais e Socioeconômicos do Trópico Semiárido (PNP 027) da Embrapa. Aprendi muito com eles.
Sob minha gestão, a Embrapa financiou mais de 400 projetos de pesquisa, cobrindo desde solos, clima e vegetação até sistemas de produção, estrutura agrária e pobreza rural — um esforço amplo para compreender e transformar o semiárido por meio da inovação tecnológica.
Esses projetos envolveram equipes da Embrapa Semiárido, além de institutos estaduais de pesquisa, empresas e universidades da região. Depois do vasto acervo de estudos sobre a caatinga, especialmente no âmbito da Sudene, a Embrapa trouxe uma nova etapa. A partir do fim da década de 1970, construiu centros de pesquisa e desenvolveu tecnologias modernas de convivência com a seca, no manejo da caatinga e na agricultura irrigada.
Essas técnicas permitem ao sertanejo dispor de água de qualidade para sua família e seus rebanhos mesmo em anos de seca, assim como um mínimo de produção. Hoje, no bioma, mais de 4 milhões de pessoas se ocupam de atividades agropecuárias distribuídas em aproximadamente 1,7 milhão de estabelecimentos, segundo o Censo Agropecuário de 2017 do IBGE. Cerca de 54% desses estabelecimentos têm entre 0 e 5 hectares, evidenciando a forte presença de pequenos produtores, 68% destinam sua produção sobretudo ao autoconsumo.

Programas sociais, como a aposentadoria rural, e assistenciais, como o Bolsa Família, Bolsa Estiagem e Bolsa Defeso, trouxeram maior segurança alimentar em secas prolongadas. Isso eliminou crises recorrentes do passado, como frentes de trabalho emergenciais e saques em cidades.
Em parte dos pequenos estabelecimentos, observa-se uma redução de cultivos e atividades produtivas, associada à maior dependência de rendas não agrícolas. Em alguns contextos, o receio da perda de benefícios desestimula o trabalho sazonal. Outros praticamente não cultivam mais por estarem em um patamar de sobrevivência relativamente estável, sustentados por rendas extra-agrícolas em suas propriedades rurais. O emprego de natureza agrícola definha e a população residente no campo cresceu ou estabilizou.
Como resumiu um pequeno produtor no sertão pernambucano:
— Entre o sol e a enxada na roça e a varanda de casa com o dinheiro do governo, o que o senhor prefere?
Entre 2006 e 2017, houve redução do pessoal ocupado na agropecuária de cerca de 917 mil pessoas na caatinga, com queda de 3% na participação relativa ao total nacional, segundo dados do IBGE. O mundo rural perde sua juventude para as cidades. O processo persiste — e o campo envelhece. O próximo Censo Agropecuário deverá confirmar a redução das áreas cultivadas e o declínio de diversas atividades.
+ Brasil tem quase 2,5 milhões de hectares queimados em 2025
Enquanto o sequeiro recua, a irrigação avança rápido, especialmente na fruticultura de capital intensivo, nas chapadas (Apodi e Diamantina) e no Vale do São Francisco. Em 2025, a região exportou mais de um bilhão de dólares em manga, melão, uva, e melancia.
A pecuária bovina, caprina e ovina passa por um processo de intensificação com significativos avanços e inovações em manejo de pastagens, nutrição, saúde e bem-estar animal, além do aprimoramento genético dos rebanhos. Na produção de leite, o Nordeste registrou um crescimento acumulado de mais de 76% na produção formal de leite desde 2017. Foi a região de maior crescimento percentual no Brasil. No Ceará, inteiramente inserido na caatinga, a produção de leite cresceu 147% entre 2015 e 2024. Saltou de 489 milhões para 1,2 bilhão de litros. Na produção de corte, em 2024, o rebanho bovino nordestino atingiu 28,5 milhões de cabeças, um crescimento de 30% nos últimos cinco anos.
Na genética, o uso de sêmen de raças adaptadas ao estresse térmico e de alto valor genético (Girolando, Nelore) e, na nutrição, a utilização de sais proteinados e técnicas de manejo de pastagens aceleram o ganho de peso. O melhoramento genético pode gerar um aumento de 15-30% em produtividade e 20-35% na renda familiar rural.
A caatinga, associada à escassez e à adversidade, revela-se cada vez mais como um espaço de inovação tecnológica. As respostas construídas ao longo das últimas décadas mostram: é possível produzir, conservar e viver com dignidade no semiárido.
Valorizar a caatinga é reconhecer sua singularidade ecológica. As mudanças recentes são fruto de um esforço histórico de milhões de brasileiros e da ciência aplicada à agropecuária e aos ecossistemas regionais. Cada vez mais aprende-se a conviver com os limites e potencialidades do bioma. A caatinga não é um problema a ser superado — é uma realidade a ser compreendida e um patrimônio a ser desenvolvido com inteligência e responsabilidade. O semiárido deixou de ser apenas espaço de subsistência e se tornou polo competitivo no agronegócio global.
No centro de tudo estão o empreendedorismo e a resiliência do sertanejo — o produtor rural —, agente decisivo entre conservar, produzir e inovar no semiárido brasileiro. Cada produtor constrói seu próprio caminho. Sua capacidade de iniciativa não deve ser desestimulada por políticas capazes de reduzir os incentivos ao trabalho e à produção.
Os riscos desse modelo de política pública são conhecidos há décadas. Em 1953, Luiz Gonzaga e Zé Dantas, na canção Vozes da Seca, já advertiam:
Mas doutor, uma esmola a um homem que é são
ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.
Leia também: O agronegócio salvou o PIB e você, artigo de Evaristo de Miranda publicado na Edição 313 da Revista Oeste

































Enviei este artigo a um amigo nordestino. Vejam sua resposta.
Há cerca de um mês fui ao Riachão, município de Barro (CE), onde nasci e meu pai era um agricultor local. Cultivava tudo que se comia: arroz, feijão, milho, banana, batata, leite e algodão, com o qual tinha dinheiro para comprar roupas prá nós e fazer manutenção na casa e propriedade. Só vendia a safra quando entrava a outra. Na época a feira do município era resultado dos produtos que os agricultores locais traziam de suas roças. O que vi hoje foi contrário. As famílias vão a feira comprar tudo que precisam. Não levam nada para vender. Tudo vem de fora. Não encontrei nem agricultura, nem agricultores. Bolsa família e outras bolsas destruíram tudo. É outra coisa o lugar.
Já assisti algumas palestras do Dr. Evaristo de Miranda e aprendi muito. Parabéns ! 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻