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Agronegócio

Menos crédito rural e juros altos levam produtores rurais à recuperação judicial

Sem empréstimo acessível, ambiente jurídico seguro e sistema tributário equilibrado, o campo pode viver uma crise estrutural

homem no campo
O campo pode viver uma crise estrutural, com impactos diretos na produção | Foto: PointImages

O agronegócio brasileiro, por anos motor da economia, enfrenta uma das maiores pressões de sua história recente. Juros elevados, mudanças na legislação tributária e um cenário externo desfavorável ampliaram os pedidos de recuperação judicial entre produtores rurais. Pequenos e médios agricultores também recorrem ao instrumento para evitar o fechamento de propriedades.

A decisão dos Estados Unidos de impor tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, como carne, café e madeira, agravou a situação. A medida afeta a competitividade das exportações e reduz o fluxo de divisas em cadeias produtivas já endividadas.

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Segundo a Serasa Experian, o setor registrou 389 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2025. O número representa alta de 21,5% em relação ao trimestre anterior e de 44,6% na comparação com o mesmo período de 2024. Entre produtores pessoa física, o aumento chega a 83,9%.

Crédito rural diminuiu, e juros cresceram

Para o consultor jurídico Luiz Felipe Baggio, o momento exige atenção. “O produtor rural brasileiro opera, em grande parte, alavancado”, diz. “Quando temos uma taxa de juros real tão alta, mesmo aqueles com acesso a condições razoáveis de crédito enfrentam pressão financeira considerável.”

Ele lembra que o Plano Safra 2025/26 trouxe aumento das taxas de juros em um contexto crítico. O setor ainda enfrenta mudanças estruturais, como a reforma do consumo, a do Imposto de Renda e a revisão do Código Civil. “O custo financeiro da atividade nunca teve um peso tão determinante quanto agora”, diz Baggio.

A inadimplência também pressiona. No início de 2025, o índice era de 7,9% entre produtores pessoa física e 10,7% entre grandes proprietários. O endividamento total do setor ultrapassa R$ 700 bilhões. Ao mesmo tempo, o crédito rural diminui, com menos subsídios públicos, juros mais altos e seguro rural limitado.

Caminhos legais para evitar o colapso

O doutor em Direito Civil pela Universidade de São Paulo Vanderlei Garcia Jr. explica, no entanto, que os juros não explicam tudo. “A queda nos preços internacionais de commodities, a valorização do real perante o dólar, o aumento dos custos de insumos e combustíveis e as instabilidades climáticas comprimem margens e dificultam a sustentabilidade financeira”, afirma.

Segundo ele, o crédito rural mais restrito, com exigência maior de garantias e prazos longos para liberação, dificulta a rolagem de dívidas e empurra produtores à Justiça.

Leia também o artigo “Já comeu ou deu uma banana hoje?” na Edição 280 da Revista Oeste

Baggio e Garcia Jr. defendem a ideia de que a solução passa por planejamento contínuo. Isso inclui contabilidade profissional, formalização de contratos, diversificação de receitas, contratação de seguros e renegociação de dívidas antes da judicialização. “O setor precisa de planejamento integrado e atuação preventiva”, diz Baggio.

“A recuperação judicial deve ser vista como instrumento legítimo de preservação da continuidade produtiva, desde que utilizada com transparência, viabilidade e orientação técnica qualificada”, conclui Garcia Jr.

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