Charles Darwin revolucionou a biologia com sua teoria da evolução por seleção natural, elaborada e mantida em segredo por 20 anos, e finalmente publicada em 1859. Em 12 de fevereiro celebra-se o seu nascimento em 1809. Dada a sua atuação na ciência, a data é comemorada mundialmente com o objetivo de promover a área científica. Hoje, quais são as mudanças e as permanências do legado científico de Darwin?
A chamada revolução darwiniana é clara: todas as espécies vivas, inclusive a humana, compartilham ancestrais comuns e evoluem ao longo do tempo. Entre azar e necessidade, sobrevivem as mais bem adaptadas ao seu ambiente e não as mais fortes ou inteligentes. Elas se reproduzem mais, se diferenciam e transformam a vida ao longo de extensos períodos.
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A revolução darwiniana foi considerada por Freud uma das três feridas narcísicas da humanidade. A primeira, ele atribuiu ao cônego católico agostiniano Nicolau Copérnico e sua tese heliocêntrica (1531): a Terra não é o centro do Universo, e sim um pequeno planeta periférico, em torno do qual o Universo não está a girar.
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A segunda ferida narcísica deve-se a Charles Darwin. Até ele, o homem era visto como centro e ápice da criação, obra divina. Darwin mostrou: a humanidade é uma emergência tardia, de um processo evolutivo natural. Espécie não prevista, esperada ou necessária à evolução da vida na Terra.
A terceira ferida narcísica, com pouca modéstia, Freud se autoatribuiu: o aparente mecanismo consciente do pensamento humano, na realidade, procede em grande parte de fenômenos inconscientes. O homem se crê consciente no pensar e no agir, e a maior parte do tempo está comandado e reage ao seu inconsciente. O homem não é mais senhor do Universo, da criação e nem sequer, de certa forma, de si mesmo.
“O humano foi excluído de sua representação do Universo”
A ferida darwiniana foi a de maior repercussão. Fazer da Terra um planeta periférico é menos perturbador perante a afirmação do ser humano como emergência tardia na evolução, espécie não necessária. O humano foi excluído de sua representação do Universo, de sua centralidade. Antes tudo esperava e girava em torno do homem. Havia uma criação voltada para ele.
Se a revolução darwiniana descentralizou o homem em relação à natureza, ela o inscreveu no universo da vida, mais próximo dos viventes. Humanos são parentes de peixes, pássaros e árvores. São primos dos primatas (latim primus, primeiros, principais). Termo usado em 1758 por Carl Linnaeus na taxonomia para o grupo “mais elevado” de mamíferos. Os primatas incluíam humanos, símios e macacos, dada sua crença na superioridade hierárquica. Para Darwin, não há hierarquia na evolução das espécies, nesse sentido. Não há mundo exterior a envolver os humanos, e sim um único conjunto, no qual seres vivos e humanos são genealogicamente próximos.
A teoria da evolução explicou a diversidade e a instabilidade da vida. Ela mudou a visão da natureza como realidade estática ou fixa para um processo dinâmico de descendência com modificação. Darwin identificou, em milhares de exemplos na fauna e flora, em diversos continentes, contextos e períodos geológicos, como a seleção natural foi determinante. Através dela, o ambiente exerce a seleção sobre variações aleatórias ou mutações. Esse mecanismo opera em escalas de tempo de centenas de milhares e milhões de anos. Darwin explorou e desenvolveu, com cientistas de seu tempo, novos conhecimentos em geologia, paleontologia e biologia.
A revolução darwiniana sacudiu a sociedade de seu tempo. Não abalou a astrofísica. Na época, o entendimento era de um Universo estável. Fora detalhes, ele era imutável desde seu surgimento. A evolução não se aplicava ao Universo. Em parte de sua carreira, o próprio Albert Einstein acreditava em um Universo estável, fixo e estático: sem expansão ou contração.
Charles Darwin e o padre Georges Lemaître
Uns 80 anos depois de Darwin, um padre católico jesuíta, físico e matemático, Georges Lemaître, foi o primeiro a teorizar sobre a recessão das galáxias próximas. E concluiu algo impensável: o Universo não era estático e estava em expansão. Ele foi primeiro expor a Lei de Hubble-Lemaître: a velocidade de recessão de uma galáxia é diretamente proporcional à sua distância da Terra. Era a prova de um Universo evolutivo, em expansão.
O padre Lemaître publicou a primeira estimativa da constante de Hubble em 1927, dois anos antes do artigo de Hubble. Lemaître propôs a “hipótese do átomo primordial“. E definiu o início, a evolução e a idade do Universo, em 1931. Alguns astrofísicos, de forma jocosa e por derrisão, apelidaram sua teoria da origem do Universo de Big Bang. Essa crítica sucumbiu aos fatos. A expressão e o autor da teoria do Big Bang ficaram consagrados.

As teorias revolucionárias da Evolução e do Big Bang supostamente lançaram o humano numa periferia distante, longe da visão antropocêntrica da natureza e do Universo. Ao mesmo tempo, elas inscreveram o homem plenamente no mundo e no Universo, de forma superior ao imaginado no passado. A teoria da evolução inseriu o homem nos seres vivos. A do Big Bang o fez no conjunto do Universo. Como na biologia, humanos são primos distantes de estrelas e galáxias, produtos de sua matéria. Daí, talvez, a pertinência do termo revolução: movimento circular, no final do qual retorna ao ponto de partida. Trágico e verdadeiro nas revoluções políticas.
O humano é um dos elos na cadeia da vida. A árvore filogenética é uma representação esquemática das relações entre espécies, idealizada por Darwin. Hoje, é descrita como um arbusto tridimensional, em vez de uma escada linear, com o homem no topo. Não há cume. O arbusto cresce em todos os sentidos. A concepção moderna do arbusto ilustra melhor a diversidade de milhões de espécies, resultado de uma longa evolução.
“A evolução não é progressão linear”
O arbusto filogenético mostra a divergência das espécies a partir de ancestrais comuns, aclara uma evolução ramificada, complexa, sempre podada por extinções. A evolução não é progressão linear, nem expressa intencionalidades. Os ramos se separam, alongam-se ou param.
Iniciada por Darwin, a árvore tornou-se uma ferramenta de classificação evolutiva (filogenia) e pode assumir a forma de redes ou grafos, sobretudo para incluir transferências genéticas complexas entre microrganismos. A ciência moderna conhece, além da transmissão vertical por gerações (genética), a transmissão horizontal de novos caracteres por fatores ambientais (epigenética, transposons). A árvore da vida é atualizada por análises, cada vez mais sofisticadas, dos vários DNAs dos viventes.
A ciência genética não existia nos tempos de Darwin. Seu desenvolvimento confirmou e expandiu, na essência, a teoria da evolução. Esse novo ramo da biologia surgiu com pesquisas de Gregor Mendel, o pai da genética, monge agostiniano, como Copérnico. Ele descobriu as leis básicas da genética ao estudar, entre 1856 e 1865, a transmissão de características com ensaios de hibridização em ervilhas. E estabeleceu os conceitos de dominância, recessividade e da segregação independente de fatores (genes).
Ao concluir suas pesquisas, Mendel as publicou. Com o tempo, ele as enviou aos principais cientistas conhecidos, incluindo Darwin. Essa publicação foi encontrada na biblioteca de Darwin, as páginas ainda soldadas, como era costume na época. Não lhe alcançou saúde e tempo de vida para abrir e ler.
Darwin Day
O Darwin Day vai além de homenagear um homem. Busca promover a área científica. Aplicar Darwin na agropecuária moderna é um exemplo da ciência em ação. Ele baseou boa parte de sua teoria em observações de como agricultores selecionavam melhores animais e sementes.
Princípios darwinianos (seleção artificial) moldaram a produção de grãos pelo melhoramento genético da soja, milho, feijão, arroz, trigo etc. Embrapa, universidades e empresas fazem isso cientificamente. Na seleção assistida por marcadores, genes de resistência à seca ou de maior produtividade são identificados. Pesquisadores aceleram a evolução, cruzam e obtém indivíduos com essas características. Plantas selvagens (açaí, cupuaçu, castanheira-do-pará, mogno, cacau, abacaxi etc.) são domesticadas e dão origem a culturas mais produtivas pela aplicação do conceito de pressão seletiva para obter adaptações a vários climas e solos.
Na luta contra pragas utiliza-se o conceito darwiniano de coevolução. Um defensivo cria uma pressão seletiva intensa e surge resistência nos insetos. Se o agricultor usa sempre o mesmo produto, elimina indivíduos sensíveis e deixa apenas os resistentes a se reproduzirem. A pesquisa usa a coevolução para criar áreas de refúgio. Ali o defensivo não é aplicado e permite a insetos sensíveis sobreviver. Seu cruzamento com os resistentes, retarda a evolução da super-resistência. Na pecuária, a coevolução ajuda a entender como o uso excessivo de antibióticos promove a seleção de superbactérias e orienta soluções. Há outros exemplos.
Neste contexto e data, qual a prioridade do atual governo para a ciência e a agropecuária? Em 2026, o orçamento das universidades federais será de R$ 7,85 bilhões, queda de 45% em relação a 2014, mesmo com o aumento de 59 instituições para 69. A Embrapa enfrenta crise orçamentária severa. Nos últimos tempos, registrou um déficit financeiro de R$ 200 milhões.
“Uma ameaça à história da Embrapa”
A situação da Embrapa é crítica: os recursos disponíveis são insuficientes para cobrir seu custeio. Unidades de pesquisa e centros administrativos enfrentam a ameaça real de interrupção de serviços essenciais de água, luz e internet, por falta de pagamento. Projetos estratégicos são interrompidos ou desacelerados: verba de pesquisa é drenada para pagar o funcionamento da infraestrutura. Será mais difícil em 2026, ano eleitoral, uma ameaça à história da Embrapa na segurança alimentar do Brasil.
Na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026, Lula vetou a garantia e a incontingenciabilidade de recursos para seguro rural e pesquisa. Esse ato obscurantista atinge o presente e o futuro da agropecuária: sem seguro para hoje, nem ciência para amanhã. Veto e contingenciamento delatam a limitação gerencial e política dos dirigentes da Embrapa. E quanto agricultura e pesquisa não são prioridades do atual governo. Criar bolsa pesquisa, bolsa oportunistas ou bolsa enxada resolve? Só mesmo a seleção natural e eleitoral pode dar jeito.
É impressionante como uma teoria – Darwinismo – acabou se transformando em “lei”. E, pior ainda, há quem aceite essa falácia como se fosse verdade.
Todos os aspectos da vida são complexos demais para terem surgido apenas por mutações aleatórias e seleção natural – a complexidade irredutível de sistemas biológicos (como estruturas celulares muito específicas) só funcionariam se todas as suas partes estivessem presentes desde o início, o que indica planejamento intencional. Por exemplo, a informação contida no DNA é um código, que somente uma mente inteligente por trás poderia propor. Então, a origem da vida e a complexidade biológica apontam para uma causa inteligente, e não apenas para processos naturais não guiados.
Darwinismo é somente um TEORIA!
Excelente texto pleno de revelações relevantes sobre nossa origem. Chamou minha atenção a importância da contribuição da Igreja Católica à Ciência em época em que o conhecimento do universo e da vida eram rudimentares.
Quanto à Embrapa, sua situação de penúria é complexa e sem solução por pertencer a um Estado permeado de mazelas.
Quem vive na cidade não tem ideia dessas informações do agro sempre trazidas pelo Dr. Evaristo. Aprendi muito sobre Charles Darwin, sobre a história da teoria da evolução e de como isso está sendo aplicado no agro brasileiro e chega até nossa mesa! Valeu Oeste!
Grande professor, parabéns pelo texto e pela capacidade de síntese e de críticas à atualidade!👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼
Quanto a Embrapa tenho alguns conhecidos lá dentro que são francamente “teologia da libertação, pero no mucho”. E as notícias que tenho é que a turma de jacobinos bolchevistas do amor incondicional por lá é grande. Vamos ver se mexendo na grana deles os caras acordam. Ou estão achando bom, esperando a aposentadoria
Um problema macro para esta teoria, pois é – ainda é teoria – embora seja apresentada com requintes de lei pétrea, é um só. Qual? A linguagem humana. Para termos um macaco falante seria necessário que alguns falantes já existissem para mutar e prevalecer. Oras, isto é um contradicto in situ. Antes de sermos já teríamos que ter sido? Realmente não somos borboletas coloridas que por terem o atributo imperativo da cor, poderiam por istos e aquilos ambientais, apresentarem uma “palheta de cores” a mais. Chomsky e Ramachandran quase reconheceram que para explicar o imperativo categórico da fala, só considerando algo que é proibido ao cientista declarar a “céu aberto”. O que? A existência de um Ser Absoluto.