O pesquisador brasileiro Luciano Moreira foi incluído na lista Nature’s 10 2025, compilado da revista Nature que destaca dez pessoas responsáveis por alguns dos principais desenvolvimentos científicos do ano. O reconhecimento está ligado ao uso de mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia, capazes de reduzir a transmissão da dengue.
+ Leia mais notícias de Saúde em Oeste
Receba nossas atualizações
Moreira lidera uma fábrica instalada no distrito industrial de Curitiba, onde milhões de mosquitos são produzidos em salas climatizadas e mantidos em gaiolas. A estrutura produz mais de 80 milhões de ovos por semana. Os insetos carregam Wolbachia, uma bactéria que interfere na transmissão de vírus prejudiciais à saúde humana. Seus descendentes já estão sendo liberados em diversas cidades como parte da estratégia de controle da dengue, doença viral transmitida principalmente pelo Aedes aegypti.
A liberação de mosquitos com Wolbachia era restrita, até recentemente, a projetos experimentais de pequena escala. A nova fábrica marca uma mudança de fase, com adoção nacional do método. Para colegas e especialistas citados pela revista, Moreira foi central para esse avanço. Pedro Lagerblad, entomologista molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirmou que Moreira “conseguiu não apenas realizar o trabalho acadêmico, conduzindo experimentos para demonstrar a eficácia do modelo, mas também convencer os tomadores de decisão política a implementar a tecnologia”.
Leia mais:
Da pesquisa inicial ao uso em larga escala
O interesse de Moreira por mosquitos começou no fim da década de 1990, quando atuava como pós-doutorando no laboratório do entomologista molecular Marcelo Jacobs-Lorena, então na Case Western Reserve University, nos Estados Unidos. Lá, ele contribuiu para desenvolver o primeiro mosquito geneticamente modificado capaz de bloquear a transmissão da malária.
Anos depois, na Monash University, na Austrália, Moreira integrou o grupo do entomologista Scott O’Neill, que havia conseguido infectar o Aedes aegypti com Wolbachia, uma bactéria relativamente inofensiva, comum em diversas espécies de artrópodes. O brasileiro passou então a investigar se a bactéria alterava a capacidade do mosquito transmitir patógenos humanos. O efeito foi confirmado: mosquitos com Wolbachia eram menos propensos a adquirir dengue quando expostos a sangue contaminado.
Depois dos testes iniciais na Austrália, Moreira retornou ao Brasil e assumiu um cargo de pesquisa na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Belo Horizonte. Lá, formou uma pequena equipe e começou ensaios nacionais. Ele relata que, no começo, “os mosquitos eram produzidos de forma quase artesanal, em um cômodo minúsculo e aquecido, usando pipetas e processos manuais”.
A resistência inicial de gestores municipais foi um obstáculo. Moreira lembra que, em Niterói, um responsável pela saúde afirmou que aquilo “nunca iria funcionar”. Depois que ele explicou os resultados obtidos em outras localidades, a posição mudou e a decisão se confirmou positiva: a incidência de dengue na cidade caiu cerca de 90% depois da introdução dos mosquitos com Wolbachia.

Combate à dengue em pauta
O sucesso estimulou a expansão da iniciativa. Moreira ajudou a estabelecer uma parceria entre o World Mosquito Program, liderado por Scott O’Neill, e o Instituto de Biologia Molecular do Paraná, empresa associada à Fiocruz com sede em Curitiba. Dessa colaboração nasceu a Wolbito do Brasil, responsável pela produção em grande escala dos chamados “wolbitos”, os mosquitos com Wolbachia.
Moreira tornou-se diretor-executivo da empresa. Em agosto, o primeiro lote foi autorizado em Santa Catarina, com liberações semanais previstas por seis meses. A fábrica utiliza mais de 70 litros de sangue humano e animal por semana e mira a produção de cinco bilhões de mosquitos por ano.
A demanda internacional já bateu à porta, mas Moreira afirma que recusou pedidos de outros países para atender prioritariamente às cidades brasileiras, que registraram mais de 6 mil mortes por dengue no último ano.
A revista Nature é uma publicação britânica em circulação desde 1869 e é considerada a revista científica mais citada do mundo. A lista Nature’s 10 não configura como prêmio ou ranking acadêmico, mas coloca em destaque internacional pesquisadores e iniciativas de impacto.
Leia também: “Saúde também é tech”, artigo de Dagomir Marquezi publicado na Edição 121 da Revista Oeste
Anvisa aprova vacina do Butantan contra a dengue
Brasil deve registrar 1,8 milhão de casos de dengue em 2026
Reino Unido detecta mosquitos da dengue pela 1ª vez
Entre ou assine para enviar um comentário.
Você precisa de uma assinatura válida para enviar um comentário, faça um upgrade aqui.