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Manifestantes marcham em direção à Trump Tower, na cidade de Nova York, EUA, em 2 de março de 2026, denunciando os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã e exigindo que o governo Trump ponha fim à guerra | Foto: Reuters/Melissa Bender/NurPhoto
Edição 312

Lágrimas de hipocrisia

Os guardiões morais da esquerda se calam quando uma revolta popular é brutalmente reprimida, mas se comovem quando os responsáveis por ela são eliminados

Chega quase a dar pena da esquerda. Agora seus militantes terão de fingir que se importam com as vidas iranianas, apesar de terem ignorado o massacre de milhares delas pelo regime islâmico demente, só no mês passado. Terão que ir às redes sociais e gritar “Parem! Iranianos podem morrer”, apesar de não terem dito nada quando milhares deles foram mortos pelas mãos dos tiranos teocráticos que os governam. Serão forçados pelos acontecimentos a escancarar sua hipocrisia sem limites, a expor ao mundo a falsidade e a desumanidade total que muitas vezes incitam o que hoje em dia é vendido como “anti-imperialismo”.

Começou a ladainha. Mal os EUA e Israel iniciaram ataques aéreos contra alvos do regime dentro do Irã, a esquerda antiguerra já começou a espumar de raiva por toda a internet. Estão revoltados contra os “Estados criminosos” que declararam guerra não apenas ao Irã, mas ao “mundo inteiro”. É um “ataque ilegal”, dizem. “É um ataque imperialista dos EUA”, protestam. Assim que souberam de relatos iniciais sobre um pequeno número de vítimas civis, começaram a gritar “assassinato”. Quer dizer que, quando iranianos inocentes morrem tragicamente como resultado da guerra, é “assassinato”, mas quando são deliberadamente trucidados por monstros islâmicos que os odeiam por buscarem a liberdade, tudo bem?

Protestos já estão em planejamento. No dia 28 de fevereiro, houve um “protesto de emergência” em Londres, na Downing Street, rua da residência do primeiro-ministro. “Tirem as mãos do Irã” é a palavra de ordem. Mas se não disseram “Tirem as mãos dos dissidentes do Irã” durante a revolução dos últimos dois meses, não venham agora soltar uma palavra sequer sobre a operação contra o regime. Se vocês não disseram “Tirem as mãos daqueles que lutam pela liberdade”, “Tirem as mãos do cabelo das mulheres” ou “Tirem as mãos de suas gargantas” enquanto inúmeros iranianos eram massacrados pelo regime e seus capangas religiosos do Iraque e do Líbano, então parem com essa pose de moralistas. Já está claro que a vida e a liberdade do povo iraniano são completamente irrelevantes para vocês.

Centenas de pessoas anti-Israel e pró-Irã participaram de um protesto contra a guerra em Westminster, criticando o ataque de Trump | Foto: Reuters/Lab Mo/SOPA Images

Onde estavam os “protestos de emergência” em solidariedade aos milhões de trabalhadores e estudantes que heroicamente se levantam contra a República Islâmica? Compareci a dois dos grandes encontros pró-Irã em Londres em que se notava a ausência da turma do keffiyeh (lenço palestino). Nenhum daqueles esnobes burgueses que gastaram a sola dos sapatos marchando toda semana “por Gaza” se deu ao trabalho de dizer uma única palavra “pelo Irã”. Se as mortes de alguns capangas do regime os enraivecem mais do que as mortes comprovadas de milhares de iranianos comuns, então não é com o Irã que simpatizam — é com a teocracia implacável que tem ocupado aquela nação, outrora grandiosa, há quase 50 anos.

Como se explica uma moral que se revolta mais por ataques contra um governo do que pelo assassinato em massa que vem cometendo contra seus próprios cidadãos? É isso, infelizmente, que se tornou o “anti-imperialismo”. Essa causa antiga e nobre já representou a defesa da independência de Estados-nação que se encontravam na mira das Grandes Potências. Nos últimos anos, porém, se afundou num ódio amargo, cínico e cego pela América. Agora é apenas um antiocidentalismo que substituiu o amor aos direitos soberanos por uma espécie de culto de autoflagelação. Nele, a moda de colocar em xeque tudo o que é ocidental se traveste de “ativismo antiguerra”.

Essa ideia de que o Ocidente é sempre perverso, e, portanto, seus inimigos merecem empatia, não é sucessora dos grandes movimentos de paz antigos, mas de um desdobramento das tendências anticivilizacionais que se alastram na academia e em todo o establishment cultural. O resultado é uma situação hedionda, em que os guardiões morais da nova esquerda se calam quando uma revolta popular é brutalmente reprimida, mas se comovem quando os responsáveis por ela são eliminados. Porque, de acordo com os mandamentos pueris do antiocidentalismo, a América é a fonte de todos os problemas terrenos. Assim, quando a América causa uma morte no Irã, é a Terceira Guerra Mundial, é um crime contra a humanidade. Mas e daí se o regime causa infinitamente mais mortes no Irã?

De acordo com os mandamentos pueris do antiocidentalismo, a América é a fonte de todos os problemas terrenos | Foto: Shutterstock

É curioso esse racismo invertido que insiste em culpar o Ocidente por tudo de ruim. Infantiliza os regimes do mundo, atenuando seus crimes, em vez de tratá-los como verdadeiros atentados contra o espírito humano. Para ver o imperialismo em ação, basta olhar para a República Islâmica. Ela usa proxies cruéis para impor sua teocracia em todos os lugares, do Líbano a Gaza e ao Iêmen. Deu sinal verde para a invasão islamofascista de Israel em 7 de outubro de 2023, como um aviso tanto ao Estado Judeu quanto aos sauditas que estavam restaurando suas relações com ele. De tempos em tempos, convoca seus proxies brutais para combater o próprio povo iraniano — comportamento clássico de colonizador. Se você é anti-imperialista, a República Islâmica deveria ofender cada fibra moral do seu ser.

Há muito tempo se sabe que o lobby intervencionista tem como tática rotular de “pró-regime” aqueles que criticam suas guerras. Aqueles que se opuseram à invasão do Iraque, alimentada por mentiras, e à intervenção imprudente de EUA-Reino Unido na Líbia foram difamados como bajuladores de Saddam Hussein e defensores de Muammar Kadafi. Mas, agora, a intervenção não se justifica? Esquerdistas “antiguerra” fizeram apologia do Hamas. Derramaram mais lágrimas pela explosão de membros do Hezbollah do que pelas crianças drusas mortas por eles. Entoaram cânticos aos houthis — os bárbaros antissemitas do exército do Irã no Iêmen. É fundamental que se discuta o mérito da operação em curso. Muitos de nós avaliam essa intervenção externa com cautela, cogitando que a probabilidade de aprofundar as tensões regionais e globais possa ser maior do que a de libertar a população oprimida. Mas é nosso direito questionar se quem diz “Tirem as mãos do Irã” realmente quer dizer “Tirem as mãos deste regime que massacra homens e mulheres inocentes porque, pelo menos, é antiamericano como nós”.


Brendan O’Neill é repórter-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast The Brendan O’Neill Show, também da Spiked. Seu novo livro, After the Pogrom: 7 October, Israel and the Crisis of Civilisation, foi lançado em 2024. Brendan está no Instagram: @burntoakboy

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2 comentários
  1. Rosely M G Goeckler
    Rosely M G Goeckler

    Excelente artigo!
    Consegui ler hoje! Tanta coisa acontecendo!

    É impressionante a hipocrisia dessa gente q não se importa com a dor daqueles que sofrem nas mãos de tiranos

  2. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Esses retardados mentais esquerdistas do mundo todo não conseguiram discernir o que é liberdade e o que é repressão? Pode ser de qualquer viés, religioso ou político. A essência da vida é a liberdade

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