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Rua dos Protestantes (antiga Cracolândia) em São Paulo, conhecida por ser ocupada por moradores de rua, antes e depois das ações do governo do Estado | Foto: Montagem Revista Oeste/Divulgação
Edição 290

Cracolândia: basta fazer o simples

Políticos procuram a administração da capital paulista para perguntar como foi possível esvaziar o maior ponto de uso de crack do Brasil

Era noite de sábado, 9 de agosto de 2025. O centro de São Paulo parecia estar como sempre. Bares abertos, automóveis circulando nas ruas, moradores caminhando com seus cachorros e baladas. No entanto, algo estava diferente: não se viam concentrações de usuários de drogas. 

O canteiro central sob o Minhocão estava limpo. Nos bairros de Anhangabaú, Santa Cecília e República, o comércio funcionava normalmente. Na Rua dos Protestantes, que há alguns meses era o principal ponto de consumo de crack na cidade, havia apenas viaturas da Guarda Civil Metropolitana estacionadas. Na Praça Princesa Isabel e no bairro Santa Ifigênia — regiões também conhecidas como locais de concentração dos dependentes —, poucos moradores de rua andavam solitariamente.

Qual foi a mágica?

Políticos de várias partes do Brasil, como Amazonas, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, hoje procuram a administração da capital paulista para saber qual foi a mágica que fez desaparecer a chamada cracolândia. “Basta fazer o simples”, explica o vice-prefeito de São Paulo, coronel Mello Araújo (PL), a prefeitos e vereadores em busca de respostas.

A prefeitura da capital paulista, em parceria com o governo estadual, resolveu entrar em ação e fazer diferente do governo federal. O segundo preferiu continuar com o trabalho burocrático e as propagandas populistas, cujo resultado foi o aumento do número de moradores de rua em todo o País.

coronel mello araújo - policial militar ex-presidente da ceagesp e candidato a vice-prefeito de são paulo pelo pl
Coronel Mello Araújo nos tempos de ação pela Polícia Militar de São Paulo | Foto: Reprodução/Instagram/@melloaraujo10

Plano Ruas Visíveis

Em julho de 2023, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, deu prazo de 120 dias para o governo federal apresentar um projeto de política de assistência aos moradores de rua. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva obedeceu e lançou o Plano Ruas Visíveis, em dezembro de 2023. 

O programa prevê cerca de R$ 1 bilhão em investimentos e a articulação de 11 ministérios em torno de sete eixos, que vão de assistência social e segurança alimentar a habitação, saúde, trabalho e renda. O objetivo, na teoria, é diminuir o número de moradores de rua.

A proposta inclui a ampliação de serviços de acolhimento, a criação de cozinhas solidárias, o fortalecimento do atendimento de saúde, a construção de unidades habitacionais e a realização de um censo nacional dessa população.

Apesar da promessa, o contingente de brasileiros que vive nas ruas aumentou consideravelmente nos últimos dois anos. Segundo dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (UFMG), eram cerca de 160 mil moradores de rua no momento do anúncio do plano. Em 2025, o número ultrapassou 350 mil — aumento superior a 100% em pouco mais de um ano.

Oeste entrou em contato com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e indagou sobre os recursos destinados aos Estados e municípios. A pasta não disse onde foi aplicado o valor de R$ 1 bilhão anunciado pelo governo. Limitou-se a afirmar que o projeto não prevê a transferência imediata do dinheiro — apesar de já terem se passado dois anos.

Também informou que a implantação do Plano Ruas Visíveis “não depende de adesão formal” nem de nenhuma ação concreta. Representa, admite a pasta, apenas “uma resposta do governo federal ao prazo dado pelo STF.”

O site do governo federal mostra que foram destinados recursos para as prefeituras do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte e do Acre. Em nota, a Prefeitura do Rio disse que o governo federal promete destinar R$ 6 milhões para o projeto Moradia Cidadã.

O governo do Acre, por sua vez, afirmou que fez a adesão ao Plano Ruas Visíveis. No entanto, “o projeto está em fase de adequação e ainda não recebeu recursos do governo federal”. A administração da capital mineira não respondeu às perguntas.

“Diferente do que faz o governo federal, o trabalho em São Paulo é constante”, explica Mello Araújo. O vice-prefeito da maior capital da América Latina passou a ir rotineiramente à cracolândia. Mal clareava o dia, o ex-coronel da Rota entrava no metrô e seguia em direção à Estação da Luz. Caminhava até a Rua dos Protestantes, sempre acompanhado de assistentes sociais e representantes de várias secretarias municipais. “É um trabalho de formiguinha”, explica.

O acompanhamento diário, feito em parceria com o governo do Estado, traz resultados. De acordo com dados da Prefeitura de São Paulo, mais de 2 mil dependentes estão internados em clínicas de recuperação. Nessa entrevista, Mello Araújo explica a estratégia usada para resolver o problema da cracolândia.

Imagem da Rua dos Protestantes, em junho de 2024 | Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

A Prefeitura de São Paulo recebeu dinheiro do Plano Ruas Visíveis?

Não. A Prefeitura de São Paulo gastava, por mês, cerca de R$ 18 milhões. Isso incluía a ronda da Guarda Civil Metropolitana, o tratamento do dependente, as marmitas, a limpeza e outras coisas. As internações em hospitais especializados custam R$ 32 mil por mês por usuário. As comunidades terapêuticas são mais baratas — cerca de R$ 2,5 mil por mês. O recurso é da nossa administração. Não dependemos do governo federal.

Como o senhor realizava a operação para tirar os usuários de drogas da cracolândia?

Sou a favor da internação compulsória. Mas, como não podemos praticar esse modelo, trabalhamos com o convencimento. Conversamos com o usuário e, se ele não quer ser internado, respeitamos. No dia seguinte, tentamos novamente. Às vezes, na terceira tentativa, a pessoa aceita receber o tratamento. Levávamos cerca de 40 usuários por dia para casas de recuperação. Arrumamos muitas coisas que estavam irregulares. Antes, ONGs forneciam marmitas para os dependentes no fluxo, faziam gincanas e até exibiam filmes. Estava confortável para eles. Acabamos com tudo isso. Se queriam marmita, tinham de ir a um local específico e comer naquele ambiente. Não podiam levar comida para fora porque venderiam para comprar drogas. Nosso objetivo foi deixar a cracolândia desconfortável para os usuários.

O que aconteceu para os usuários saírem da cracolândia da noite para o dia?

Sufocamos o tráfico na região. Fechamos pontos comerciais que eram usados para vender drogas. O segredo é os governos municipal e estadual trabalharem juntos. Já não chegavam drogas para os dependentes. Isso fez com que alguns pedissem internação. Outros se dispersaram. Estes, abordamos. Se está vendendo entorpecentes, prendemos. Se é usuário, oferecemos tratamento. Acompanhamos quem está se recuperando. Depois, oferecemos emprego. Na noite em que houve o sumiço da cracolândia, colocamos cães que reconhecem a droga. Os traficantes não conseguiam entrar no fluxo. Todos ficaram sem a droga. Na segunda-feira, 11 de maio, quando a imprensa noticiou o sumiço, o CAPS registrou 60 pessoas que pediam internação. Passou para 94 até o fim do dia. Por quê? Porque ficaram sem a droga.

Foto: Motortion Films/Shutterstock

Por que São Paulo é tão atrativo para os usuários que vêm de outros Estados?

Porque São Paulo é rica, com muitas oportunidades de emprego. As pessoas do Norte e do Nordeste vêm tentar a sorte aqui. A maioria, contudo, não tem conhecimentos técnicos. A pessoa não consegue emprego e vai parar nas ruas. Não necessariamente são usuários, mas caem nas drogas. Fizemos um estudo e descobrimos que 70% daqueles que estavam na cracolândia começaram como moradores de rua e depois passaram a usar drogas. Os outros 30% usavam maconha e passaram para drogas mais pesadas. O Estado tem de chegar primeiro naqueles que são apenas moradores de rua, antes que comecem a fumar crack.

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2 comentários
  1. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    São Paulo tem um governador decente e capacitado pra governar, um tecnocrata excelente por isso as coisas andam. Já o governo federal tem uma porção de ladrão e gente incompetente e burra que quer implantar um comunismo à força

    1. JOÃO RICARDO ASTOLPHI
      JOÃO RICARDO ASTOLPHI

      100% de acordo! Gente honesta faz trabalho honesto e bem feito! Esse relato é prova viva disso! Já gente desonesta, representada pelo desgoverno atual, faz tipinho pra corte de ilegais, só pra constar! Ação efetiva mesmo: nada! O tal de 1 bilhão pro “plano” já deve ter ido pro bolso dos corruptos do poder! Ainda bem que temos gente séria e trabalhadora no estado, não dependeremos de ratos!

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